Jornal do Brasil

Cultura

'Madame X' é filho mais bizarro, criativo e politizado de Madonna

FolhaPress ALEX KIDD

FOLHAPRESS - Madonna, 60, poderia estar colhendo os louros da sua invejável carreira, gravando um disco de jazz com hits antigos ou lotando estádios em uma superturnê. Mas fez o oposto. 

Após uma sequência de discos previsíveis, a popstar resolveu se levantar do seu trono para reinventar a roda -mostra de que se recusa a ser aposentar.

"Madame X", com lançamento previsto para esta sexta-feira (14), é o filho mais bizarro, criativo e politizado que a matriarca do pop já concebeu.

No seu 14ª álbum, ela encarna uma espécie de Carmen San Diego da música pop e absorve influências sonoras de diversos países. O disco foi gravado em Los Angeles, Londres e Portugal.

Fado, house, hip-hop, funk e música clássica. Durante a audição das 15 faixas, é impossível saber que rumo o disco vai tomar.

"Madame X" é inquieto e original. Funciona como uma ruptura para uma artista que parou de seguir tendências e voltou a criá-las. Confira o faixa a faixa: "Medellín".

Dizer que Madonna se rendeu ao reggaeton para abocanhar a (grande) fatia latina dos serviços de streaming é uma associação óbvia. Ela inventou o pop latino com "La Isla Bonita", de 1986. A letra constrói um universo paralelo em que a cantora tomou uma pílula, voltou aos seus 17 anos, achou um boy magia (Maluma) na Colômbia e, junto dele, abriu um "cartel do amor". O produtor francês Mirwais salva o dia com sua abordagem musical minimalista/futurista.

"DARK BALLE"

No momento mais bizarro do álbum, Madame X (re)abre as feridas da sua instituição favorita: a Igreja Católica. Os vocais robóticos não são gratuitos. O uso de vocoder foi um recurso explorado pela compositora trans Wendy Carlos, que assinou a trilha de "Laranja Mecânica" e foi precursora da fusão de música clássica com eletrônica. A faixa ganhou um perturbador registro visual onde o rapper negro e ativista gay Mykki Blanko é queimado vivo assim como Joana d'Arc.

"GOD CONTROL"

"Numa democracia, as pessoas conhecem a verdade... Temos que acordar!", clama a Madge ativista. "Todos os dias eles têm um tipo de vitória e espalham o sangue de inocentes por aí." O teor político é embalado por uma batida dance, violinos pomposos e um coral infantil. Lembra "Touch" do último álbum do Daft Punk.

"FUTURE"

"Ninguém está aprendendo com o passado", canta Madame X com um sotaque jamaicano. O discurso político segue neste divertido synth-reggae assinado por Diplo, com participação do rapper americano Quavo.

"BATUKA"

A cantora levanta um coro de resistência com as Batucadeiras de Cabo Verde. "O caminho é longo, mas nos manteremos de pé", elas repetem em uníssono. O presidente Trump é citado indiretamente no feitiço: "Precisamos mandar aquele homem velho para a cadeia. Lá ele não pode nos machucar".

"KILLERS WHO ARE PARTYING"

Na melhor faixa, Madonna abraça as dores do mundo. Os versos são potentes: "Eu serei pobre se eles forem humilhados /Serei gay se eles forem queimados/ Serei Islã se eles forem odiados /Israel se eles forem encarcerados". A abordagem é literal, mas, na era do obscurantismo, toda clareza é bem-vinda.

"CRAVE"

Um aceno para o mercado americano com sabor português. A faixa sobre alienação une o arranjo de cordas com as batidas sincopadas de Mike Dean, beatmaker de Kanye West. Os arranjos vocais doces do rapper Swae Lee, 11° artista mais ouvido no Spotify, são bem pontuados e não soam forçados como boa parte das participações caça-views atuais.

"CRAZY"

"Você me deixa louca!", M. canta, pronunciando corretamente todas as sílabas em português. Sonoramente, a balada é curiosa pelo acompanhamento de uma sanfona, instrumento inédito na discografia da popstar.

"COME ALIVE"

Outro momento "world music", com bastante percussão. Madonna questiona os que criticam sua curiosidade criativa. A melodia é fofa e faz lembrar dos tempos do pop puro de "True Blue".

"EXTREME OCCIDENT"

Os dramas geográficos de "Madame X" continuam no momento mais melancólico do disco. A faixa é uma grande bad trip sobre crise de identidade: "Vaguei para a direita, esquerda, tentei recuperar meu centro, mas estou perdida".

"FAZ GOSTOSO"

E começa a jogação! Madonna canta em português sobre um amante fervoroso. O turismo musical continua: a batida de funk evolui para um sambão eletrônico. A participação de Anitta é carismática, porém discreta. O que nos leva a imaginar como seria se Pabllo Vittar tivesse participado. 

"BITCH, I'M LOCA"

Mais reggaetton. Outra parceria com Maluma. É divertida, mas bem lado B.

"I DON'T SEARCH I FIND"

Orfãos de "Confessions on a Dance Floor", "Madame X" não se esqueceu de vocês! House 4x4 para bater cabelo depois da militância. Poderia estar no "Erotica" se estivéssemos em 1992 (mas não estamos?).

"LOOKING FOR MERCY"

Madonna, 60, proprietária do pop, procura redenção.

"I RISE"

Madonna encerra o disco numa tentativa de dar voz às minorias. A letra é superbem intencionada, mas o trecho do discurso inflamado da estudante Emma Gonzalez, sobrevivente de um massacre na escola Stoneman Douglas High School, na Flórida, é bem elucidativo: "O governo pensa que nós, jovens, não sabemos como eles operam... Bullshit!"

MADAME X

ARTISTA Madonna

GRAVADORA Interscope, Live Nation e Maverick

AVALIAÇÃO Muito bom