A divisão em categorias como preservação, histórica e educação cai bem para esta 14ª CineOP, mostra dedicada ao audiovisual que começa nesta quarta (5) em Ouro Preto (MG) e prossegue até o dia 10.
Não poderia haver lugar melhor do que a histórica cidade para abrigar um encontro cujo centro são ideias como preservação e memória. Aspectos que a cada edição se tornam mais relevantes na seara do audiovisual. A cada ano, o material produzido cresce e, com isso, torna-se mais complexa a situação dos acervos.
Descobertas acontecem em vários pontos do Brasil. Pioneiros insuspeitados aparecem. Pioneiros desconhecidos aparecem. As situações são, não raro, surrealistas, como é o caso do mineiro Aristides Junqueira.
Grande parte de seu trabalho se perdeu porque, depois de sua morte, em 1952, a viúva raspou os negativos dos filmes do marido para extrair deles o nitrato de prata: era o único valor que via naqueles rolos. O valor de memória não entrou em seus cálculos.
Por sorte, Junqueira deixou com o filho o material de "Reminiscências" (filmado entre 1909 e 1920), e o herdeiro teve o tino de guardar o filme na geladeira de sua casa (consta que na gaveta dos legumes) e, mais tarde, repassou-o a Cosme Alves Neto, curador da Cinemateca do MAM. Essa parte de sua obra, com cenas familiares, hoje está preservada.
O caso, no entanto, serve para ilustrar a reduzida compreensão que há no Brasil sobre o valor das imagens. Em outros países, a história do século 20 já não se conta sem o auxílio das imagens em movimento.
No país, pouco restou da produção passada. Se um filme como "Imagens do Estado Novo" (2016), de Eduardo Escorel, existe, é em grande parte graças ao famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), da ditadura Vargas. Se Joel Pizzini pôde fazer "Rio da Dúvida" (2018) é porque o Exército preservou as imagens das expedições aos territórios indígenas.
É por girar em torno dessas questões que a CineOP não se confunde com os festivais de cinema habituais: em vez de estrelas, produtores e distribuidores, ele reúne mais professores universitários, pesquisadores, profissionais da preservação. E, claro, cineastas.
Como o foco da edição é, justamente, a descentralização das operações referentes ao audiovisual, a homenagem do ano é a Edgard Navarro, um dos representantes da Bahia no ciclo dito do cinema marginal.
Seu filme "Superoutro" (1989) estará na abertura da mostra. Nos próximos dias outros de seus trabalhos serão mostrados, pois, embora a CineOP seja antes de tudo um local onde especialistas buscam formular políticas, a parte de exibição de filmes –em especial restauros recentes– é igualmente importante.
Ao contrário de manifestações cada vez mais célebres que acontecem anualmente na Europa, como o Cinema Ritrovato, de Bolonha, o CineOP ainda está longe de convencer investidores brasileiros, a começar pelo Estado, da necessidade de manter viva essa documentação essencial para a compreensão do país desde o século passado. Mas não custa insistir –acredita o pessoal da Universo Produção, responsável pelo evento.
14ª CINEOP
Quando: De 5 a 10/6, no Centro de Convenções de Ouro Peto, Cine Vila Rica e outros.
Entrada: Grátis.
Programação em cineop.com.br