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Cultura

Suíços, alemães e franceses subvertem a lógica na Bienal de Veneza

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Os brasileiros não dançaram sozinhos na representação oficial da Bienal de Veneza. No pavilhão suíço, Pauline Boudry e Renate Lorenz criaram uma boate às avessas e fizeram o público entrar pelo que seriam os bastidores de uma performance para ver um filme de bailarinos dançando ao contrário, ou manipulados na edição para parecer como tal.

Vestindo sapatos invertidos, uma alusão à forma como as guerrilhas curdas disfarçavam suas pegadas para despistar os inimigos, os dançarinos ali usavam a coreografia como tática de sobrevivência, lembrando o poder dado à dança que também orienta a obra do pavilhão brasileiro.

Sobrevivência, no caso, é outro leitmotif potente. Os pavilhões nos Giardini refletem muito da geopolítica do século 20, quando foram construídos, mas os artistas do século 21 vêm sabotando a arquitetura deles na tentativa de atacar políticas controversas.

Num dos mais radicais desses gestos, a alemã Natascha Süder-Happelmann inverteu toda a circulação do espaço de seu país, obrigando o público a entrar pelos fundos do prédio para ver de um lado uma estrutura de concreto fake e, do outro, uma instalação com alto-falantes que assobiam, lembrando a estratégia usada por imigrantes sem documentos para alertar uns aos outros sobre operações da polícia.

Um tanto mais alegórica, a francesa Laure Prouvost também virou do avesso a lógica no pavilhão de seu país, onde o público entrava pelo subsolo para ver montes de terra revoltos e só então subia uma rampa até encontrar um chão de vidro simulando a superfície verde e turva dos canais de Veneza, ali abarrotada de lixo e celulares descartados.

O filme passando na sala principal do espaço também mostrava um grupo de amigos da periferia parisiense numa jornada rumo à cidade italiana, metáfora para a travessia penosa dos refugiados.

Mesmo histórias de deslocamento forçado no passado ressurgem agora, caso do pavilhão canadense que mostrou pela primeira vez o trabalho de indígenas do norte do país reunidos no coletivo Isuma -seus filmes narram a história de como Ottawa, na década de 1960, forçou a dispersão de tribos nativas numa tentativa de dominar o Ártico.

Perto dali, o americano Martin Puryear lembrou a figura de Sally Hemings, a escrava e concubina de Thomas Jefferson, com a escultura de uma coluna atravessada por uma barra de ferro e um grilhão no meio da sala principal do espaço.

Mas os tempos continuam doentes. Um sinal disso foi o grande número de pavilhões que imaginaram catástrofes climáticas e a sobrevivência em distopias pós-apocalípticas -na Dinamarca, Larissa Sansour, na Escandinávia, a dupla finlandesa Nabbteeri, a norueguesa Ane Graff e a sueca Ingela Ihrman, e pelo Japão os artistas Motoyuki Shitamichi, Taro Yasuno, Toshiaki Ishikura e Fuminori Nousaka.

Os israelenses entenderam o recado e fizeram de seu espaço, comandado por Aya Ben Ron, uma espécie de ambulatório geral, onde espectadores podiam aguardar numa fila interminável para saber suas condições de enfrentar -com o auxílio da arte- um mundo arrasado. Não precisa dizer que, nesse ponto, muitos não sairiam dali vivos para o próximo rendez-vous em Veneza.

SILAS MARTÍ