Crítica - Anos 90: rebeldia precoce

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Exibido na Mostra Panorama do Festival de Berlim deste ano, “Anos 90” (Mid90s – 2019) entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 30, proporcionando ao espectador que está na casa dos 30 uma viagem nostálgica por meio de uma história que não trabalhou sua complexidade de forma satisfatória. 

Marcando a estreia de Jonah Hill na direção de longas-metragens, “Anos 90” é ambientado na periferia de Los Angeles e mostra um pré-adolescente em busca de autoafirmação vitimado pelo irmão mais velho e deslumbrado com seu novo grupo de amigos, que tem no skate o último fio de esperança de uma vida melhor, não apenas um hobby, exceto Fuckshit (Olan Prenatt), que desperdiça todas as oportunidades que sua família lhe dá. E é por meio do grupo que Stevie (Sunny Suljic) conhece mulheres, álcool e drogas, preocupando o líder dos rapazes, Ray (Na-kel Smith).

 Também assinado por Hill, o roteiro é o ponto fraco deste longa, pois se preocupa apenas em recriar a atmosfera da década de 1990, focando no universo do skate. Com isso, o filme negligencia a riqueza de uma trama interessante sobre a realidade de Stevie, garoto que pertence a um lar emocionalmente fraturado. Isto pode ser observado com afinco a partir do momento em que o espectador fica ciente de que há um problema grave naquela família, algo que causou o comportamento violento de Ian (Lucas Hedges) e a rebeldia de Stevie, conforme mostrado numa sequência protagonizada pelos irmãos, deixando claro que a infância do mais velho fora usurpada de alguma maneira pela mãe. 

Neste ponto, “Anos 90” desperdiça ainda o talento de Hedges, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por “Manchester à Beira-Mar” (Manchester by the Sea – 2016), que explora com pleno domínio cênico as diferentes emoções de seu personagem, transmitindo à plateia a dor de um jovem que se sente sufocado por traumas do passado e que não consegue demonstrar afeto por quem quer que seja no presente, sobretudo a Stevie. Neste contexto, Ian acaba transformando um sentimento nobre, o amor, em agressão física, possivelmente para preparar Stevie para as pancadas da vida. 

Além de Lucas Hedges, os destaques do elenco são Suljic e Smith. Construindo Stevie a partir da falta de orientação materna e das agressões de Ian, Suljic entrega um trabalho eficiente dentro das possibilidades oferecidas pelo roteiro, assim como Smith, que aposta suas fichas na transformação gradativa de Ray, que acaba assumindo uma posição quase paternal na vida do menino. 

Buscando a estética de vídeos caseiros em sua fotografia, “Anos 90” evoca o período retratado também no figurino e na direção de arte, inclusive inserindo elementos considerados de “luxo”, como o Discman e o Nintendo 64, um dos videogames mais cobiçados pela geração MTV. No fim das contas, este é um longa que tem como objetivo transmitir a mensagem sobre a importância de amigos verdadeiros para o indivíduo, mas que se perde ao priorizar farras e manobras em detrimento do fator humano.