O JB reuniu uma lista do que a Croisette viu de melhor até agora:
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar: Devastador é a palavra para definir a volta do diretor de “Tudo sobre minha mãe” (1999) às telas, com seu melhor filme em quase 20 anos. Fotografada com um colorido berrante por José Luis Alcaine, esta trama trata do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta, Salvador Mallo (papel de um grisalho Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. O desempenho de Banderas é de doer na alma, pela tradução plena da fragilidade e do desamparo: Salvador sofre de dores na coluna e tem um problema na garganta, ligado ao sistema digestivo, que pode mata-lo engasgado. No roteiro, o cineasta faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa. Seção: Competição Oficial
“Canción sin nombre”, de Melina León (Peru): Baseado em fatos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebê recém-nascida com a ajuda de um jornalista. Seu principal apelo: a fotografia de Inti Briones, que diluiu todas as referências banais da representação de seu país nas telas. Seção: Quinzena dos Realizadores
“Zombie Child”, de Bertrand Bonello (França): Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. Seção: Quinzena dos Realizadores
“The orphanage”, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão), nas fotos: A diretora do ótimo “Wolf and sheep” (2016) volta às telas narrando a luta de um órfão, fã de musicais de Bollywood, na Cabul dos anos 1980. A ida dele para um abrigo soviético é cercada de dor. Onde: Quinzena dos Realizadores “J’ai perdu mon corps”, de Jérémy Clapin (França): A protagonista desta animação é uma… mão. Uma mãozinha que corre pelas ruas de Paris à cata do rapaz cujo corpo ela integrava. Seção: Semana da Crítica
“Atlantique”, de Mati Diop: Única diretora negra já indicada à Palma dourada nos 72 anos de história de Cannes, esta realizadora francesa de origem senegalesa faz uma radiografia de múltiplas camadas da realidade de Dakar a partir de uma história de amor ausente: com a promessa de ter se casar com alguém com quem não ama, uma adolescente espera rever o namorado, um operário que cruzou o Atlântico atrás de uma vida melhor. Seção: Competição Oficial
“J’ai perdu mon corps”, de Jérémy Clapin (França): A protagonista deste divertido desenho animado é uma mãozinha, tipo aquela da Família Addams, mas sem humor. Ela quer achar o corpo de seu “dono”, hoje envolvido num caso de amor delicado. Seção: Semana da Crítica
“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Brasil): O cinema brasileiro deu um olé na Croisette com este enervante estudo sobre controle e vigília, construído como um thriller de Walter Hill, com ação ininterrupta e uma fotografia preciosa de Pedro Sotero. Num texto da revista “Indiewire”, o resenhista David Ehrlich define o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles como uma mistura de “Os sete samurais” com “O albergue”, meio Kurosawa, meio Eli Roth. Analogia precisa. Tradição e pós-modernidade convivem na saga de um vilarejo para frear uma horda de caçadores de pobres: um grupo de estrangeiros liderados pelo alemão Michael (Udo Kier, em estado de graça) mata habitantes de uma cidadezinha do Nordeste, em um Brasil do futuro com drones em forma de disco voador. Silvero Pereira, no papel do poeta bárbaro Luga, é um dos destaques entre a trupe de talentos dramáticos, assim como Bárbara Colen, como Teresa. Seção: competição oficial
“Beanpole”, de Kantemir Balagov (Rússia): Nos escombros da II Guerra Mundial, em solo soviético, duas mulheres buscam reinventar suas vidas e buscar um sentido para explicar a tragédia que se abateu sobre elas. Montagem impecável. Seção: Un Certain Regard
“Litigante”, de Franco Lolli (Colômbia): Em fase de ascensão na Pangeia latina, o cinema colombiano meteu um golaço em Cannes com este belo tratado acerca do empoderamento feminino, centrado nas múltiplas tarefas de uma advogada numa rotina de mil cansaços cotidianos. Seção: Semana da Crítica
“Les Misérables”, de Ladj Ly (França): De descendência maliana, Ladj Ly, francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Seção: Competição oficial
Rocketman, de Dexter Fletcher (Reino Unido/ EUA): Na quinta-feira, sir Elton John foi à Croisette para conferir a pré-estreia mundial de sua biopic e aplaudir o desempenho de Taron Egerton Dirigido pelo ator Dexter Fletcher, o longa-metragem, que chega ao Brasil no dia 30 deste mês, é uma cinebiografia do músico, nos moldes do fenômeno popular “Bohemian Rhapsody”, sobre Freddie Mercury, que custou US$ 52 milhões e faturou US$ 900 milhões nas bilheterias, além de conquistar quatro Oscars. Há uma torcida por um destino similar para a produção de US$ 40 milhões que põe o britânico Taron Egerton (herói da franquia “Kingsman”) num desempenho luminoso na pele de Reginald Kenneth Dwight, o nome verdadeiro de Elton. Seção: Hors-Concours