Crítica - Um puzzle que desmonta a moral

**** (Muito Bom) 

Nos tempos em que o Rio Grande do Sul vicejava as telas do país com narrativas de invenção, consolidando-se como uma das jazidas mais auríferas de originalidade em formas e tramas, ao longo dos anos 1980 e da primeira metade dos 90, Carlos Gerbase surgiu como um sátiro, num Olimpo de realizadores instigados pelos gargalos políticos da época, propondo uma reflexão sobre o desejo como exceção às regras impostas. Curtas seminais como “Sexo & Beethoven – O Reencontro” (1980) e “O Corpo de Flávia” (1990) e o longa-metragem “Tolerância (2000), um marco erótico de nossa Retomada, depuraram a estética avessa a juízos morais construída por ele ainda com experiências como professor e autor de livros de sobre cinema.

Sua prosa literária, expressa em romances (“Professores”) e contos (“Como comer a pêra” é uma joia de escrita), é igualmente marcada por ensaios observacionais sobre o embate entre os verbos “desejar” e “obedecer”. E a cada mergulho dele nas telas, essa observação busca dispositivos narrativos que transgredem o lugar comum dos filmes sobre afetos, como é o caso de “Bio – Construindo uma vida”, laureado com o prêmio do júri popular de Gramado, em 2017.

Em cartaz só agora, esta produção conquistou ainda um (merecidíssimo) prêmio especial do júri oficial gramadense pela direção de atrizes e atores – são 39 estrelas ao todo, revezando-se em depoimentos num formato de mockumentário. Esse é o nome que se usa pra designar falsos .docs, como é o caso de “Zelig” (1983) e “This is Spinal Tap” (1984).

Em “Bio”, escudado pela fotografia de Bruno Polidoro, Gerbase atomiza as cartilhas da biopic ao construir a biografia de um cientista fictício. Seu nome sequer é citado, mas seus feitos, em suas pesquisas sobre símios e em suas cirandas amorosas, mexeram com a vaidade de muita gente, em seus 110 anos. Entre o fim dos anos 1950 e um futuro de 2070, parecido com o que Jia Zhang-ke esboça em “As montanhas se separam” (2015), o pesquisador criado por Gerbase protagonizou peripécias românticas e profissionais das mais inusitadas. É o que nos contam o psicólogo vivido por Marco Ricca (num show de elegância), a médica encarnada por Maitê Proença com uma ironia ferina ou a dúbia exobióloga interpretada por Maria Fernanda Cândido. Cada uma das pessoas é uma peça num puzzle sobre modos de amar, de perder e de gozar num Brasil cheio de cabrestos, incluindo sexuais.

Macaque in the trees
Maitê Proença (Foto: reprodução)

A montagem de Milton do Prado dá uma progressão aritmética à cada fala delas, criando uma contínua exponenciação de desabafos que se complementam seja pela atração, seja pela controvérsia, num filme onde a inteligência nos guia memória adentro.