Crítica - Elegia de um Crime: Testamento de dor

*** (Bom)

O diretor Cristiano Burlan vem trilhando um caminho curioso e também corajoso no cinema. Sua trajetória como cineasta é nunca menos que ambiciosa, com projetos requintado ao lado de ícones como Helena Ignez e Jean Claude Bernadet, sempre buscando em um certo hermetismo a saída para contar histórias de uma maneira única dentro da nossa produção atualmente. Mas Burlan também caminha, paralelo a isso, numa trilha de expurgo de dor familiar, concebendo uma trilogia do luto.

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Elegia de um Crime (Foto: Divulgação)

Ao lado de 'Construção' e 'Mataram meu Irmão', respectivamente sobre o assassinato de seu pai e de seu irmão, Burlan encerra aqui essa história de crime e sofrimento pelo qual sua família é assolada. Sua mãe foi morta pelo namorado, foragido há anos, e o diretor não vive em paz com esse trauma sobre si. Parte da narrativa aqui é a própria busca que ele empreende por esse homem nos cantos do país, parte é reconstrução da memória dessa mulher e da família que ela formou, parte é um íntimo retrato pessoal sobre os segredos que o próprio autor carrega, desnudados na produção. De impacto inegável, o filme não poderia estar estreando em momento mais propício.

Assolado pelo feminicídio de maneira avassaladora, o país encontra 'Elegia de um Crime', um filme que é tudo isso acima e também um relato sobre a impunidade no Brasil contra mulheres e contra a população da periferia, que sobrevive às margens do que decidem governo, polícia, e organizações paralelas, que seguem cada qual a sua maneira, exterminando minorias e se livrando de figuras indesejadas por eles.

Burlan cria um objeto de cinema muito tenso e importante, que sacode a poeira sobre um sistema covarde, e utiliza de sua experiência na abordagem da ficção e do experimental para embalar com brilho suas imagens, que evocam James Banning e Sarah Polley em suas investigações documentais sobre a família e morte. Tirando alguns ligeiros excessos que engordam o filme, 'Elegia de um Crime' é fundamental para o hoje.