Desassossego que faz crescer

Um dos mais aclamados atores do Brasil, Chico Diaz vai protagonizar, em Portugal, a versão para as telas de O ano da morte de Ricardo Reis, em que Saramago relê Fernando Pessoa

Rodeado de poemas, ensaios e anotações avulsas de Fernando Pessoa (1888-1935), em seu ateliê, no Jardim Botânico, entre pinturas e desenhos de sua autoria, Chico Diaz puxa o livro “Quando fui outro”, onde se lê encontra uma pista fundamental para o que pode ser o mais radical trabalho do ator, hoje com 60 anos, nas telas: “Dizem que finjo ou minto/ tudo o que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto/ com a imaginação./ Não uso o coração./ Tudo o que sonho ou passo/ o que me falha ou finda,/ é como que um terraço/ sobre essa coisa ainda. Essa coisa que é linda”. A lindeza que espera o astro de cults das telas nacionais como “Corisco & Dadá” (que lhe deu o troféu Candango, em Gramado, em 1996) é o papel principal de “O ano da morte de Ricardo Reis”, versão para as telas do aclamado romance publicado em 1984 por José Saramago (1922-2010), o único prêmio Nobel de literatura da Língua Portuguesa.

“É uma história que remonta a um momento histórico no qual ventos fascistas sopram sobre Portugal, de um jeito parecido com que o mundo vive na contemporaneidade”, alerta Chico.

Macaque in the trees
ator Chico Dias (Foto: Jose Peres)

Suas leituras para o projeto, um empreitada luso-brasileira, produzida cá por Clélia Bessa e, lá, por João Botelho, cineasta de Lamego, começaram faz tempo. As notas e reflexões de Chico se espalham por rodapés de antologias poéticas e cadernos. Mas é nesta quinta que ele embarca para Lisboa, para filmar sob a direção de Botelho, cineasta que lotou salas em seu país com “Os Maias: Cenas da vida romântica” (2014). “Sei que Botelho me viu fazendo teatro lá em Portugal, vivendo Drummond, numa peça que o Cassiano Carneiro montou. Mas, ainda assim me pergunto por que chamaram um ator brasileiro para um projeto dessa importância? Há que se cuidar, há que estudar. O Saramago se apropriou de Pessoa e deu carnalidade a ele, uma vida própria. Fora isso, ele se aproximou de uma série de temas da realidade portuguesa daquele tempo, meados dos anos 1930, como o avanço de Mussolini na Europa, o que gera uma série de poemas furiosos. A lusofonia é cheia de símbolos. E há aqui, no roteiro, uma quantidade inenarrável de texto pra se memorizar. A palavra escrita precisa ser bem dita nos cinemas”, diz Chico, que nasceu no México, filho da tradutora Maria Cândida e do teórico de comunicação paraguaio Juan Díaz Bordenave.

Caberá ao ator ser Ricardo Reis, um dos heterônimos de Pessoa (Alberto Caieiro e Álvaro de Campos são os outros igualmente famosos). Interessado em ter uma persona mais cientificista, racional, Pessoa deu a ele o direito de assinar versos como “Quando há alguma coisa de belo a dizer em vida, esculpe-se; quando há alguma coisa de belo a dizer em alma, faz-se versos”. Na trama de Saramago, adaptada por Botelho, Reis dá adeus à sua estada no Brasil, para onde se muda em 1919, e volta para a Lisboa de 35, para se despedir de seu criador, que acaba de morrer. Mas este, tem uns nove meses sobre a Terra, antes de ser esquecido, que espera gastar com seu alter ego. 

Botelho vê em Chico uma força cênica singular.

"Para um grande romance do Saramago é preciso um grande actor. O Saramago permite que o actor que faça de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, tenha sotaque brasileiro, pois viveu 16 anos no Brasil. Chico Dias é um grande ator de novelas, de teatro e de cinema. Gostei imenso da peça que ele fez cá em Lisboa com encenada pelo António Pires. Gostei imenso do método de trabalho e dedicação dele em palco. É um monstro de trabalho. Não havia melhor escolha", diz o cineasta português.

Para Chico, atuar é um ojo de heteronímias. "Como ator, eu convivo com heterônimos de mim mesmo desde os 18 anos. Fui outros Chicos ligados a geografias bem diferentes da minha”, diz Chico, um aluno de Arquitetura da UFRJ que começou a atuar num dos grupos para jovens de Carlos Wilson, o Damião (1950-1992). “Não tive uma formação tradicional de escola de artes dramáticas, formal, como ator. Aprendi com o Damião, numa turma que tinha a Dora Pellegrino e o Antônio Breves. Depois fiz cursos de voz, de dança... fui me preparando. E fui filmando. No fim da faculdade, já tinha uma série de longas no currículo”.

Produtora de fenômenos comerciais a granel, Mariza Leão esteve ao lado de Chico em seus primeiros passos e, recentemente, voltou a produzir um longa com ele, “Em nome da lei”, de 2016. “Começamos juntos no cinema, em ‘O sonho não acabou’, de 1982, o primeiro filme de ficção que Sergio e eu fizemos. Chico já era um grande ator ali, já era alguém comprometido com a arte de atuar no palco e na vida. Voltamos a filmar juntos em ‘O Homem da Capa Preta’ e no ‘Em Nome da Lei’, todos do Sergio”, diz Mariza. “Chico é intenso e incansável. Entra no set como num ritual. Estar a seu lado é respirar profunda e concentradamente”.

O cronograma de “O ano da morte de Ricardo Reis” se espalha por dois meses, coordenado pelo produtor António Botelho, filho do diretor. “Filmamos de 25 de março a 27 de maio, entre Lisboa e Coimbra, e, no elenco, destacam-se portugueses como Luís Lima Barreto, Catarina Wallenstein e Victória Guerra”, diz. Mas depois de 38 anos de experiência em sets, Chico tem a percepção precisa do que o set precisa dele. É o que explica a atriz Maria Padilha, com quem ele estrelou um marco do cinema brasileiro dos anos 1990: “Os matadores”, de Beto Brant, cravejado de elogios em sua estreia internacional, no Festival de Toronto de 1997.

“Arquiteto de formação, Chico constrói um personagem desde as fundações. Ele é muito profundo, não vai no truque, nem no raso, nem no que já fez. Ele vai no desafio: o prédio não pode cair”, diz Maria Padilha, que conhece Chico desde o início de sua carreira, mas só veio a trabalhar com ele nos sets de Brant e, depois, em “Praça Saens Peña” (2009), pelo qual eles conquistaram o troféu de melhor atriz e ator no Cine PE, em Recife. “Chico tem o tom do cinema. É fácil fazer cinema bem com ele por isso: basta responder no tom dele”.

No audiovisual, Chico também brilhou na TV, em novelas como “Paraíso tropical” (2007) e “Velho Chico” (2016), e será visto este ano, na HBO, na minissérie “The american guest”, de Bruno Barreto, como Marechal Cândido Rondon (1865-1958), o defensor dos índios. “É uma figura que sempre vi como um grande herói brasileiro”, diz o ator que, nos palcos, participou de montagens lendárias como “O que diz Molero”, romance de Dinis Machado (1930-2008) encenado por Aderbal Freire Filho em 2003, e “A lua vem da Ásia”, baseado em Campos de Carvalho (1916-1998), com o qual ele ficou dois anos viajando pelo Brasil. “Tentei durante muito tempo filmar esse texto. Foi uma experiência definitiva pra mim. Não vejo um vínculo direto dele com ‘O ano da morte de Ricardo Reis’, mas sinto que o mergulho em Campos de Carvalho me deu preparo físico e tranquilidade para saber que vou conseguir encarar a obra de Saramago. Técnica é tudo. Quanto mais velho, mais você percebe que os arroubos de paixão criativa não são nada perto da técnica”.

Ainda este ano, Chico será visto no filme “Montanha-russa”, de Vinícius Reis (“é um roteiro poderoso”, diz). Ele sonha com uma exposição de seus quadros (fez uma recentemente, na Lapa) e prepara um documentário sobre seu pai. “Preciso entender as chaves que ele me deu para codificar o espírito humano”, diz Chico, que promete chegar para o set de Botelho no apogeu de seu desejo de criar. “Eles não conhecem a minha musculatura, mas eu estou muito fascinado com tudo o que leio de Pessoa, e com o roteiro, e pretendo suprir tudo de que eles precisarem e, até, surpreender. Esse convite de Botelho, envolvendo Pessoa e Saramago, traz para mim um reconhecimento que nunca tive mesmo na seara do cinema de autor. Tem uma galera muito interessante filmando aqui, um cinema de arte. Mas vai ser bom ter, também, esse lado artesanal do cinema de autor português”.