Vamos cuidar da vida, que a morte é certa

Confira crítica da peça 'As crianças'

Todos vivemos em pânico com a possibilidade de acidentes extemporâneos nos tirarem a vida. Um avião cair sobre nossas cabeças, uma onda nos levar, um acidente nuclear, uma bala perdida. Vivemos na expectativa da morte, da vida que , sem qualquer explicação, pode ir embora. "As crianças", peça da jovem autora inglesa Lucy Kirkwood, encenada com enorme sucesso no West End e na Broadway, realiza a metáfora dos jogos que nos encaminham para a reflexão sobre a nossa finitude. Um acidente nuclear, um terremoto. E o maior de todos, a velhice.

No cenário de Rodrigo Portela (também diretor) e Júlia Decacche que mistura a aridez da brita no chão, com belos e simples elementos de madeira, os três atores - Mario Borges, Analu Prestes e Stela Freitas - interpretam antigos contemporâneos engenheiros nucleares - Robin, Dayse e Rose -, que agora se vêem frente à decisão sobre que caminho a tomar, ao final da estrada que lhes resta.

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Mario Borges, Analu Prestes e Stela Freitas interpretam Robin, Dayse e Rose na peça 'As crianças' (Foto: Victor Hugo Cecatto/Divulgação)

Daisy e Robin formam um casal de aposentados e agora fazendeiros, mas que ainda vivem próximos a usina nuclear, que os três construíram. Rose, como uma fantasma do passado, ressurge para, como um anjo, trombetear que chegou o momento de um juízo final.

A direção de Rodrigo Portella opta pelos atores falarem as rubricas, o que introduz

uma figura estrutural da linguagem dramatúrgica: o narrador.

Assim, Rodrigo evidencia o inusitado que um texto de composição aparentemente tradicional nos traz. "As crianças" é uma composição clássica, com mesmo cenário, tempo real e bastante verossimilhança, mas que o trabalho de direção atualiza com despojamento e sofisticada simplicidade, trazendo uma contemporaneidade ao que se presencia. Não há fortes embates, nem gritos, nada. A cena da memória da festa é absolutamente perfeita para dar o significado: existe, nas pessoas, a memória de um momento feliz, de juventude, de um instante no qual parece que seremos eternos. Esse é o ponto interessante no trabalho de Rodrigo Portella: criar a proximidade, o envolvimento.

Apesar de serem muito semelhantes aos de "Tom na fazenda" - mega sucesso também dirigido por Portella -, os figurinos criam nos atores essa mistura de ficção científica, próxima ao tema, ao mesmo tempo em que lhes retiram qualquer caráter etário.

Analu, Stela e Mario executam um balé sem qualquer tique de velhice, movem-se com rapidez e segurança. Ah! E a interpretação, o jeito com que falam, que modulam, que experimentam as sensações trazidas pelos sentimentos do outro, é marcante. São três monstros do teatro, ali, encenando um texto difícil, pois aquilo do que falam - o passado, a convivência, o perigo da usina - é tudo cortina de fumaça para pensar sobre a nossa limitação.

"As crianças" é uma prova de que o teatro se renova. Que a junção entre o antigo e o novo só o reforça, só aumenta a sua força. Três atores veteranos, um jovem diretor e uma jovem autora são o significante perfeito para o maior sentido do texto. Deixai vir a mim as criancinhas que são os jovens cientistas, que devem não se expor ao perigo da radiação. E, em um momento crucial para a arte brasileira, vale a questão: os antigos devem preservar os jovens dos perigos, ajudá-los a caminhar e a se manterem vivos. Esse é o maior legado, que ultrapassa os desastres.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras