Já na fila da entrada, duas beatas convocam o público a entrar para ouvir a palavra divina. Dentro do templo, a mensagem é passada em verso e prosa pelo sacerdote que dirige o culto. O santuário é montado dentro do Teatro dos Quatro, onde Eduardo Wotzik reestreia hoje sua "Missa para Clarice - Um espetáculo sobre o homem e seu Deus", em que materializa sua devoção pela escritora, cujo centenário de nascimento se completa no próximo ano e que, na peça, representa a própria divindade. Nascida em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, Chaya Pinkhasovna Lispector tornou-se Clarice aqui, no Brasil, para onde veio antes de completar dois anos de idade, trazida pela família judaica, que fugia da 1ª Guerra Mundial e dos conflitos que marcavam o nascimento da União Soviética. Essa escritora, que viveu até 1977, tendo Brasil como sua única pátria e ressaltando nunca ter pisado na Ucrânia - de onde viera carregada de colo, - é tida por Wotzik como essencial para descrever as identidades brasileiras ao longo do século passado, com um olhar especialmente atento para a relação entre as pessoas do Nordeste - onde viveu sua infância e adolescência, entre Maceió e Recife - e as cidades grandes do Sudeste, como o próprio Rio de Janeiro, para onde ela se mudou, aos 14 anos.
Trata-se de parte do argumento que norteia "A hora da estrela", um de seus últimos livros e do qual vem a Criação na "Missa para Clarice", a partir de seus personagens principais Macabeia - jovem nordestina recém-chegada ao Rio -, e Olímpico de Jesus, seu namorado."Olímpico e Macabeia, seres fundamentais na obra e na gênese do brasileiro, correspondem a Adão e Eva", aponta Wotzik, que escreveu o espetáculo "em formato de missa, mesmo", com "todas as palavras da Clarice", sem nenhum acréscimo.
Combinando trechos de "todos os romances" de Clarice Lispector e, "em especial de 'A hora da estrela'", o diretor ressalta esse aspecto, quando questionado se foi muito difícil montar um texto teatral inteiro somente com textos literários diferentes um do outro e que não foram originalmente concebidos para o teatro - nem para uma missa.
"Muito", enfatiza ele, que estreou a peça em 2016, após sentir que descobrira, dentro de si, uma busca pela citação ao sagrado na literatura da escritora, que ele fazia por prazer (e devoção) ao ler seus textos.
"Durante muitos anos, fui 'editando' escolhas dentro da obra da Clarice, muitos daquelas em que ela fala de Deus, do sagrado, do homem, e percebi que havia feito uma edição extraindo o sagrado, como se fosse uma grande celebração da obra espiritual da Clarice. Muitos anos depois de começar é que eu percebi isso", conta o dramaturgo, com histórico de mais de 40 peças, incluindo premiações como o "Molière", por "O pássaro azul", de Maurice Maeterlinck; e Minc de Contribuição ao Teatro, com "Bonitinha mas ordinária", de Nelson Rodrigues.
Brincando por já ter "celebrado mais missa do que muito padre na paróquia", durante os três anos de montagem, com 300 apresentações e 45 mil espectadores, Eduardo Wotzik, além de costurar o texto final e dirigir o espetáculo, encarna seu protagonista, "um arauto clariciano, que traz a mensagem". Ele divide o palco com Cristina Rudolph e Natally do Ó, "as duas beatas claricianas". Neste culto cênico, "elas narram suas experiências e contam como foi que se tornaram claricianas", explica o diretor.
No fundo, elas é que mais parecem dar voz mais próxima à experiência pessoal que ele conta ter tido com a escrita da inspiradora. "Clarice costura para dentro de si mesmo, da alma humana, como ocorre, talvez, com Dostoievski, ou Kafka um mergulho extraordinário. Ela transcende seu tempo, sua nacionalidade, além de ter uma acuidade com a palavra, inclusive nas pausas as pausas claricianas, os silêncios que ela ocupa com tanta propriedade", derrama-se o diretor.
A direção de arte é de Analu Prestes, a iluminação de Fernanda Mantovani e a música é transposta da obra do polonês Henrik Górecki (1933-2010).
------
SERVIÇO
MISSA PARA CLARICE: UM ESPETÁCULO SOBRE O HOMEM E SEU DEUS
Teatro dos Quatro. R. Marquês de São Vicente, 52 (Shopping da Gávea, 2º piso). Tel.: 2239-1095. Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h.
De hoje a 31/3. Ingressos a R$ 80 (inteira), que estão à venda na bilheteria local, diariamente, a partir das 14h, ou online, pelo site ingresso.com.
MISSA PARA CLARICE: UM ESPETÁCULO SOBRE O HOMEM E SEU DEUS
Teatro dos Quatro. R. Marquês de São Vicente, 52 (Shopping da Gávea, 2º piso). Tel.: 2239-1095. Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h.
De hoje a 31/3. Ingressos a R$ 80 (inteira), que estão à venda na bilheteria local, diariamente, a partir das 14h, ou online, pelo site ingresso.com.