Entrevista - Sérgio Tréfaut, cineasta: Ecos de Graciliano, lutas do Alentejo

Elogiado na Europa por seu requinte visual, 'Raiva' consolida o prestígio do cinema português contemporâneo e coloca o diretor Sérgio Tréfaut sob os holofotes autorais

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Entre todos os lançamentos do fim de semana no circuito exibidor carioca, nenhum tem uma fotografia tão requintada - e, ao mesmo tempo, tão esturricada - quanto a de "Raiva", longa-metragem com CEP português, ambientado no Alentejo dos anos 1950, mas que parece um trecho de "Vidas secas", de tão Graciliano que é em sua reflexão sobre a exploração da força de trabalho no universo rural. Premiado no Festival de Moscou de 2018, o filme chega aqui sob uma felpuda manta de elogios colhidos na Europa pela secura que o cineasta Sérgio Tréfaut imprimiu em sua adaptação para o romance "Seara de vento" (1958), de Manuel da Fonseca (1911-1993). Há um quê de faroeste, no modo como o camponês Palma (Hugo Bentes, um ator não-profissional, que surpreende pela intensidade de sua interpretação) pega em armas a fim de desafiar a injustiça que o cerca entre os donos de terra de uma região faminta. Nascido em São Paulo, sob ascendência lusa, e respeitado como realizador pela crueza com que aborda a iminência da morte em "Treblinka" (2016), Tréfaut tem um histórico de cerca de duas décadas como documentarista, o que se faz notar no enfrentamento do real nesta produção enxuta em sua duração (1h e 24 minutos) mas farta de significados. Sua aposta em uma estética instigada por filmes hoje míticos, como "Terra" (1930), de Aleksandr Dovzhenko, ampliou o prestígio de Portugal na seara autoral, afirmado nos últimos anos por cults como "Cavalo dinheiro", "Colo", "A fábrica de nada", "Ama-san" e o recente "A portuguesa", sensação do Festival de Berlim, no mês passado. Na entrevista a seguir, ao JORNAL DO BRASIL, Tréfaut - hoje empenhado em um novo projeto, a ser filmado no Rio, chamado "Triste Brasil" e definido como um afresco de nossa sociedade - fala sobre o que encontrou de universal na prosa de Manuel de Fonseca.

JORNAL DO BRASIL: Seu filme tem uma fotografia impressionante, que retrata um ambiente de camponeses com elementos que podem evocar o neorrealismo de Roberto Rossellini e Vittorio De Sica, mas apostando em um senso trágico, avesso a redenções sociais, que parece avesso ao legado dos grandes mestres italianos. Qual é o Alentejo que você buscou e o que há de neorrealista nele?

Sérgio Tréfaut: Tenho um amor enorme por Pasolini em sua maneira seca de olhar a realidade social. Mas não citaria os neorrealistas como minha predileção ou inspiração, tendo ido mais para o cinema mudo e para um autor como Dovzhenko, embora sempre respeitando a voz autoral de Manuel da Fonseca, que foge da estética tradicional de seu tempo em "Seara de vento". Gosto de Pasolini e de Buñuel, que era espanhol. Mas o Alentejo que está ali em "Raiva" é o que foge do Alentejo turístico, dando lugar a rugas, a uma paisagem de luta, onde o silêncio é um elemento central.

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Sérgio Tréfaut promoveu sessões experimentais do filme no Alentejo para sentir a reação do público diante da obra (Foto: Divulgação)

O título do livro de Manuel da Fonseca dá protagonista a um elemento natural, o vento, que é quase um personagem em "Raiva", pois ele parece desenhar a aridez nas terras e nas almas de seus personagens. Qual é o papel da natureza nesse filme?

Antes de lançar o filme, eu resolvi passar por uma prova de fogo, fazendo algumas sessões pelo Alentejo e tive um choque na maneira como o público local reagia ao filme, sentindo o que existe de perpétuo naquela representação do passado. Existe uma metafísica ali e que vem de uma natureza árida, onde certas manifestações, como uma aranha que aparece, surgiram por acaso. Este é um filme que tenta fugir de arquétipos ao mostrar a luta de um homem injustiçado que se revolta.

Que western ou anti-western seria "Raiva": algo mais John Ford ou mais Clint Eastwood?

O que existe do cinema de caubóis é o esforço de Palma em recorrer à Justiça à sua maneira, pelas armas, mas num gesto que gera um evento trágico incapaz de explicar ou de resolver aquela opressão social que o gera. Fiz nos dias de hoje um Alentejo de época, que corresponde ao que está no livro de Manuel da Fonseca mas que carrega um universal. Para isso, escolhi como caubói um intérprete como Hugo Bentes, que não tem formação acadêmica como ator, mas que canta, que tem um histórico como técnico de som. Alguém cuja origem tem laços com as famílias que viveram a realidade que retrato ali.

Qual é o saldo que você tira dessa visita ao Alentejo?

Uma percepção da luta pela dignidade que se dá em meio à rudeza.

* Roteirista e crítico de cinema



Sérgio Tréfaut promoveu sessões experimentais do filme no Alentejo para sentir a reação do público diante da obra
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"Raiva"