Crítica - Diários de classe: De posse de um horizonte

*** (bom)

Contundente com seu tema e falando de forma abrangente sobre seus personagens, o longa dirigido por Maria Carolina e Igor de Souza é daqueles casos onde a importância do que é contado e mostrado é inferior a forma como isso se dá. Estreantes em longa, os cineastas baianos demonstram aqui como (ainda que se forma tímida) a Bahia está se revelando atualmente no nosso cinema, conseguindo um espaço com contundência e de forte expressão, depois de anos de discrição. Aqui, em particular, o poder de sua mensagem e de seu trio central de personagens elevam os percalços e excessos de um projeto que carecia de mais tempo em sua metragem.

Macaque in the trees
Maria José é uma das protagonistas de 'Diários de Classe' (Foto: Divulgação)

O longa é um grito de alerta a favor da educação. Acompanhamos três mulheres negras e suas relações com o estudo: Tiffany é uma adolescente trans que vive em um lar para órfãos; Maria José é uma líder nata, que estuda no supletivo; Vânia está em cárcere à espera da revisão de sua pena. Três mulheres negras que estão, cada uma à sua maneira, usando o aprendizado adquirido para mudar suas realidades. E o que poderia surgir como algo didático e panfletário, vem como uma força irrefreável do poder individual através do saber institucional, que amplia nossos horizontes e nos transforma.

Apesar dos excessos de linguagem atribuídos à produção, Maria Carolina e Igor conseguiram acompanhar três exemplos de tormenta social dos mais preciosos, conseguidos efervescer seu interior para melhorar seu exterior. Com a ajuda dos diretores, elas tendem a expandir sua voz e seus valores, com ao menos uma cena já nascendo clássica, a de Maria José em sala de aula em um poderoso debate a unir e questionar as outras alunas. Ainda bem que o filme é feito de outras cenas tão poderosas quanto essa. (F.C.)