Crítica - Raiva: 'Vidas secas' do Alentejo

**** (muito bom)

Gracilianamente trágico em sua mirada para a exploração de um universo rural, com secura à altura da aspereza do escritor de "Memórias do cárcere" - e de seu correspondente audiovisual, na obra de Nelson Pereira dos Santos -, "Raiva" disseca poeticamente, em seu PB sombrio, sem sociologices, as seculares estruturas de poder e forma de resistência que fazem da miséria um meio de controle. O que se vê de Portugal neste curtíssimo, mas exasperante trabalho de Sérgio Tréfaut ("Teblinka") é uma espécie de fantasmagoria: mesclam-se sombras de um cinema ancestral, meio Carl T. Dreyer ("A palavra"), meio Aleksandr Dovzhenko ("Terra"), em uma combinação do alucinatório de um com o realismo exasperado do outro.

Macaque in the trees
Hugo Bentes encara a injustiça social a chumbo quente no Alentejo desta tragédia de visual estonteante (Foto: Divulgação)

Temos, de um lado, a pobreza e a lei dos latifúndios do campo. Temos, do outro, um camponês de espingarda na mão, Palma (Hugo Bentes), a buscar justiça como um pistoleiro solitário. Entre essas instâncias, há um romance, "Seara do vento", de Manuel da Fonseca, que media a reflexão sobre as armadilhas do trágico... o trágico como uma baliza da lógica institucional da contradição financeira.

Nascido em São Paulo, sob ascendência lusa, Tréfaut, hoje um dos mais requintados poetas da imagem do cinema português, utiliza a prosa de Manuel e sua experiência prévia em documentários para produzir uma espécie de "Vidas secas" alentejano, reconstruindo o espírito da primeira metade do século 20 como se fosse algo milenar, e universal.

Seu fotógrafo, Acácio de Almeida, dá aos enquadramentos uma beleza singular, mas asfixiante, retratando a natureza como um palco para brutalidades que são delineadas por silêncios e pelo onipresente uivar da ventania. Nessa paisagem quase expressionista, nasce um anti-western: cansado de ser oprimido, Palma pega em armas para reagir. Mas sua conversão em justiceiro, ao matar seus opressores, gera um fardo de ódio que sua família não é capaz de suportar. Não é um filme sobre a transcendência pela pedra, e sim sobre os grilhões da fome. (R.F.)