Alien, 40 anos de terror e sucesso

Metáfora para a xenofobia, a criatura celebrizada por Ridley Scott, em 1979, será objeto de debates em sessão de gala do Festival de Miami

Aos 81 anos, envolvido com um projeto sobre a Roma antiga (espécie de sequência para seu oscarizado "Gladiador") e com um épico sobre a formação política da Inglaterra, o diretor Ridley Scott tem um aniversário importante para comparecer nesta sexta-feira, nos Estados Unidos, a fim de comemorar não apenas um marco da ficção científica, mas também um ponto de apogeu de sua irregular carreira: o 40º aniversário de "Alien - O oitavo passageiro". Em meio a uma maratona de produções autorais de novos diretores de diferentes nacionalidades - como Eva Ionesco ("Une jeunesse dorée"), Hans Weingartner ("303"), Zhang Yimou ("Shadow") e Olivier Assayas ("Vidas duplas") -, o Festival de Cinema de Miami arrumou um espaço para celebrar as quatro décadas de um monstro bilionário. Foi em 1979 que a criatura de saliva ácida, inspirada em pinturas e referências gráficas surrealistas do suíço Hans Ruedi Giger (1940-2014) chegou às telas pela primeira vez, faturando em torno de US$ 104 milhões - quase nove vezes mais do que seu custo de produção. Era um tempo assolado por "Star Wars", que estreou em 1977, fazendo Hollywood desejar tramas espaciais a granel. Eis que Scott somou, com competência invejável, dois filões: sci-fi e filme de monstro. Nascia ali um fenômeno.

Macaque in the trees
Poster estilizado com o rosto de Sigourney Weaver, como a tenente Ripley, e da criatura desenhada por H. R. Giger (Foto: Divulgação)

Quando a Fox idealizou o projeto, realizadores como Peter Yates, Jack Clayton e Robert Aldrich foram considerados como potenciais pilotos para a jornada espacial da tenente Ripley, papel que celebrizou Sigourney Weaver. Mas o roteirista Dan O'Bannon e os produtores precisavam de um jovem talento com mais estilo, para impedir que o projeto de US$ 11 milhões pudesse parecer um filme B. Eis que o sucesso de "Os duelistas" (1977), que deu Ridley um prêmio de melhor filme de estreia em Cannes, fez desse publicitário britânico a escolha precisa. Parte de seu processo de seleção para o longa será revisitado na sexta, na projeção de gala que Miami preparou para comemorar os 40 anos de "Alien" e seu legado. Afinal, é graças a ele que hoje existem longas como "Capitã Marvel", que estreia hoje com a promessa de virar a sensação desta temporada nas bilheterias.

Somando-se as bilheterias dos seis filmes da série Alien, mais os dois (desastrosos) derivados nos quais o Predador é o algoz, totaliza-se uma receita de US$ 1,5 bilhão para os cofres da Fox e da própria ficção científica, que tem do monstrengo uma mina de ouro, mas também de controvérsia. Controvérsia essa que Ridley deve comentar, caso confirme sua esperada participação no Festival de Miami, ao lado de Sigourney.

O que existe nessa franquia de mais precioso - ou melhor, de perverso -, nestes tempos de Donald Trump no poder nos Estados Unidos, é o refinado tratamento que o veterano diretor inglês dá à questão dos "estrangeiros", das invasões bárbaras, não esquecendo que tudo nesta grife milionária começou com a ideia do oitavo passageiro, ou seja, do intruso de outra nacionalidade. No filme original, uma obra-prima sci-fi com ecos de terror, uma nave com sete tripulantes se dava conta de um membro número oito, de outra origem territorial, que ali entrava para explorar os "recursos naturais" da embarcação - ou seja, comer e se reproduzir. Foi uma abordagem politizada, embalada em uma direção de arte sofisticada, que acabou sendo coroada com um Oscar de cenografia.

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O bote de uma franquia bilionária - Ridley Scott firmou seu nome com a ficção cujos 40 anos o Festival de Miami celebra agora (Foto: Divulgação)

Seu lançamento se deu em dias de extrema direita na América. Era o fim dos anos 1970, encerrados numa ressaca de ideologias e desbundes. Nada mais adequado, portanto, do que um filme carregado da paranoia que ditaria as regras da política nos anos seguintes: invadir sempre que possível; ser invadido, nunca.

É um período em que a América vira um porto para os degredados cubanos e para desertores eslavos. Mas qualquer presença "alienígena" é um sinal de alerta. Hollywood e a TV até apostam nos alienígenas "do Bem", tipo o ET de Spielberg e Alf - da série homônima de TV, o ETeimoso, aqui dublada por Orlando Drummond. Mas mesmo eles são ilegais, causam alarde, mudam regras, quebram normas de conduta. Eram tempos de Reagan. Agora são tempos de Trump. Há semelhanças, vis simetrias. Eis o Alien de volta, para fazer o trabalho sujo de nos lembrar que a ameaça maior é biológica, viva. E, por outro lado, menos visível, indicar que esta "sensação de ameaça" é um traço xenofóbico, racista, totalitário. Nada mais adequado, em meio ao totalitarismo atual, do que sua volta aos cinemas. Depois de Miami, o longa vai rodar alguns festivais. Estima-se que vá integrar o menu da seção Cannes Classics, em maio, antes de regressar ao circuito, e há quem diga que Ridley tem uma nova sequência a caminho.

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Cena emblemática de "Alien, o oitavo passageiro", de 1979, em que a tripulação da Nostromo se depara com o monstro (Foto: Fotos: Divulgação)

Faz sentido: a fome de Alien é grande. Só não é maior que seu prestígio popular.

O  Festival de Miami vai até o dia 11. Do Brasil, o evento vai exibir os longas "Divino amor", de Gabriel Mascaro; "Domingo", de Clara Linhart e Fellipe Gamarano Barbosa, e "Sócrates", de Alexandre Moratto, além dos curtas "O órfão", de Carolina Markowicz, e "A lua nunca morre", de Mariona Lloreta.

*Roteirista e crítico de cinema



Poster estilizado com o rosto de Sigourney Weaver, como a tenente Ripley, e da criatura desenhada por H. R. Giger
Cena emblemática de "Alien, o oitavo passageiro", de 1979, em que a tripulação da Nostromo se depara com o monstro
O bote de uma franquia bilionária - Ridley Scott firmou seu nome com a ficção cujos 40 anos o Festival de Miami celebra agora