Com um pé na Itália, sua pátria natal, e na França, terra onde debutou nos cinemas, em 1986, e consagrou-se como uma das maiores atrizes de sua geração, Valeria Bruni Tedeschi às vezes precisa de oxigênio, em meio à sua prolífica produtividade à frente das telas: daí fazer um projeto como "A casa de veraneio", no qual é ela quem grita "ação!". Não que ela, irmã mais velha da modelo Carla Bruni (ex-Primeira-Dama da França, na gestão Nicolas Sarkozy), tenha tido problema com os grandes cineastas com quem trabalhou. E filmou com medalhões como Claire Denis ("Nenette e Boni"), Patrice Chéreau ("A rainha Margot"), Ridley Scott ("Um bom ano"), um tal de Steven Spielberg ("Munique") e François Ozon, com quem fez "5x2 - O amor em cinco tempos", pelo qual ganhou o prêmio Pasinetti de melhor atuação no Festival de Veneza, em 2004. Atuar é uma questão de disciplina para a loura de 54 anos, nascida em Turim. Mas dirigir é uma questão de reciclagem.
"Tem coisas que vão me subindo na garganta e me fechando a glote e que precisam sair das minhas palavras e ir para a direção. Tenho um filme para fazer ainda neste semestre com o diretor Dominik Moll, mas já vou escrevendo um longa novo, paralelamente, para dirigir. A vontade que me levou a fazer 'A casa de veraneio' é a curiosidade de discutir esse ambiente de crueldade e doçura, de calor humano e de violência que a gente chama de família, seja aquela em que nascemos, seja aquela que montamos", disse Valeria ao JB em Paris, no Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, num apressado (mas gentil) papo de corredor, na correria para deixar o evento dedicado à promoção da indústria audiovisual da França e ir para um set. "Há um aspecto curioso quando eu penso na minha familiaridade com os personagens desse meu novo filme: o fato de eu me sentir parte de uma família com a qual não tenho laços de sangue, mas sim, estéticos: a família dos profissionais de cinema".
Romance acabado
Nessa referência, Valeria faz alusão à protagonista de "Les estivantes" (título original de "A casa de veraneio"), vivida por ela: a cineasta Anna. Nos primeiros minutos do filme, ela percebe que seu romance com Luca (papel de Riccardo Scamarcio) está com os dias contados, ao ser dispensada por seu amado segundos antes de entrar numa reunião de financiamento para seu novo projeto. No encontro, onde está o aclamado documentarista americano Frederick Wiseman ("Near death"), ela cai no choro, ao passar por uma arguição acerca de soluções de roteiro e opções narrativas. Resultado: sair dali e se isolar no colo de seus parentes, incluindo a matriarca de seu clã, Louisa (Marisa Borini, mãe de Valeria na vida real). Mas a decisão pode não ter sido das mais felizes.
"Gosto de narrativas com muitos atores, pois é uma herança das velhas comédias italianas, como as de Dino Risi, que eram doces e cruéis em sua ironia. Mas gosto de explorar o lugar de fragilidade que leva alguém a buscar seu berço", disse Valeria, que foi premiada em Cannes em 2007 por seu trabalho na direção do filme "Atrizes". "Gosto da incorreção política e tento dar um toque de acidez à relação entre as pessoas que, naquela casa, à beira do mar, soltam o que há de mais verdadeiro em seus corações".
Ex-mulher do ator e cineasta Louis Garrel, a quem dirigiu em "Um castelo na Itália" (2013), Valeria lançou "Uma casa de veraneio" no Festival de Veneza, arrebatando elogios da crítica. "Nos meus filmes, busco sempre dar voz aos personagens paralelos, aos amigos, parentes, e isso já no roteiro", diz a diretora e atriz. "Todos precisam ter acesso à luz. Assim é a vida".
*Roteirista e crítico de cinema