Entrevista - Nadav Lapid, diretor: Sucesso, sinônimo de céu e de inferno

Ganhador do Urso de Ouro em Berlim, cineasta fala como sua vida mudou com a consagração de seu filme sobre os dilemas da identidade israelense

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Dois sábados atrás, quando era apenas uma promessa de renovação narrativa para o cinema de autor, Nadav Lapid, um diretor israelense de 43 anos, viu sua fama se consolidar aos olhos da classe cinematográfica, após ganhar o Urso de Ouro do 69º Festival de Berlim. Ao derrotar medalhões como Agnieszka Holland, François Ozon e Fatih Akin dá a ele prestígio, mas também um certo fardo, pelo menos, em seu lar.

Desde o dia 16, quando sua vitória foi anunciada pelo júri presidido pela atriz Juliette Binoche, encantada pelas reflexões de tom existencial feitas por ele no filme "Synonymes", Lapid vem sendo tratado em Israel como celebridade.

"Parece que ganhei a Copa do Mundo, não um prêmio de cinema, pois passei a ser tratado como um herói nacional, o que é o pior adjetivo possível para alguém que fez um filme crítico a certas questões de sua cultura", diz Lapid, por telefone, ao JORNAL DO BRASIL. "O filme estreia lá agora, e, depois que as pessoas conferirem o que busquei fazer, elas devem mudar a forma como estão me tratando. De qualquer forma, é tocante ver como Israel estava carente por um reconhecimento estético como esse, de Berlim".

Encarado como uma grife criativa desde 2011, quando ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Locarno com "Policeman", Lapid conquistou os críticos quando Cannes rasgou-se em elogios para seu "A professora do jardim da infância" (2014), que foi refilmado nos EUA há um ano. "Synonymes" é o retrato de um imigrante israelense que busca um lar em Paris, às custas do apagamento de seu passado, de suas raízes, de sua língua. Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega à França cheio de sonhos e de aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade pela outra é uma tarefa carregada de um ônus existencialista: ele tem de ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar de sua língua natal e se vê cercado de sombras xenófobas. É o preço do pertencimento.

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O cineasta Nadav Lapid exibe o maior prêmio do Festival de Berlim (Foto: John MacDougall/ AFP)

Na entrevista a seguir, Lapid fala dos simbolismos políticos da cruzada de Yoav.

JORNAL DA BRASIL - É inusitado ver um representante do dito cinema autoral contemporâneo dar à palavra o valor que você reserva à ela, a ponto de assumir um conceito gramatical, “sinônimos”, para ser o título do filme que lhe deu o Urso de Ouro. Em geral, a palavra é tratada como muleta para a plenitude da imagem. Mas, com você, não é assim. Por quê?

NADAV LAPID - Porque o cinema é aquilo que mais se assemelha, na arte, à potência da vida, da existência. E as palavras são parte da experiência de existir. São uma parte sensorial, o que dá a elas uma dimensão física. Há críticos e cineastas que consideram a palavra um elemento da televisão, mas eu encaro as palavras pela essência delas, não apenas pela matéria: o som, as letras. Palavras são signos. As minhas palavras são reminiscências de Israel, elas me conectam à terra de onde venho. Seu personagem principal em “Synonymes”, o jovem Yoav, usa um dicionário como amigo, pois quer morrer para Israel e renascer como francês, precisando de novas palavras para isso.

Como alguém, em terra estrangeira, enterra seu passado pela palavra?

Abrir mão de sua língua materna é um sacrifício, que começa com o gaguejar de novas expressões, vai para o sussurro de novos verbetes. Isso, na tela, na imagem, dá para a linguagem verbal uma dimensão cinemática, que eu expresso a partir de enquadramentos, de movimentos de câmera. Na nossa língua natal, tudo sai automaticamente. Nas línguas que nós adotamos, cada palavra é pensada para se adequar às imagens que desejamos transmitir. O cinema é uma língua, com códigos próprios. Quando eu expresso Israel nessa língua, a das imagens em movimento, alternos momentos de quietude com trechos barulhentos, de muita fala. Às vezes, personagens como Yoav falam como metralhadoras e, às vezes, refugiam-se no silêncio absoluto. É o processo da linguagem.

Que tipo de herói é Yoav?

Um super-herói. Super pelo fato de ser cheio de carisma, de dançar bem, de ser atraente, de ter virtudes heroicas. Ele é a encarnação da falta de pertencimento. É herói por encarar os padrões da cultura de seu país. O herói não é aquele que não erra: herói é aquele que tenta fazer o impossível, maculado pelas doenças do mundo.

Ele foge do fantasma de uma cultura que o agrilhoa. O que “Synonymes” espelha do cinema israelense contemporâneo?

O meu incômodo diante dessa expectativa de que nós, artistas, temos de agir como embaixadores de nossos países. Odeio fazer esse papel, mas a vitória na Berlinale tem levado muita gente a me olhar dessa forma, como um porta-voz de Israel. Minha relação com a minha pátria é daqueles cães que mordem a mão de quem os alimenta. Fiz, na França, um filme que, sim, pode ser chamado de israelense, pois trata do que é ser israelense. Tenho lá minhas críticas, mas tenho minha conexão de berço. Para a “Cahiers du Cinéma”, revista que é bíblia dos cinéfilos desde os anos 1950, você é um xodó.

O que existe nesse seu olhar demolidor contra as convenções de sua cultura que tanto mexe com os franceses?

Pelo que vejo, eles não enxergam um parâmetro específico de outros modelos de cinema no que eu faço, por considerarem que tenho uma estética que aborda os temas de modo frontal, direto ou, como eles dizem, “cru”.

E como essa perspectiva “crua” se aplica ao registro de Paris em “Synonymes”?

No meu esforço, jogar para escanteio as referências da tradição cinematográfica francesa em retratar a si mesmo, buscando um olhar de estranhamento que fosse vibrante e não incomodado. Existe, no meu filme, uma Paris secular, mas ela é vista sem beatificação: eu não santifico a cidade que acolhe Yoav. Não quero um cartão-postal, um cenário de filme. A busca é pelo coração de um lugar que recebe pessoas do mundo todo. Assim como Yoav, você é um estrangeiro que buscou um porto seguro em Paris.

O quanto há da sua experiência nesse olhar do seu protagonista?

Às vezes, um estrangeiro que diz “ter se encontrado” em Paris age não como se fosse um francês, mas como se fosse o próprio Napoleão. O entusiasmo frente ao que há de novo é grande e ele te blinda do que existe na realidade. Minha tentativa foi buscar alguma moderação e, como já disse, fugindo da perspectiva cinematográfica romantizada de Paris. Há talvez algo de Jacques Tati, comediante cujo cinema eu adoro e que traz uma estranheza bem-humorada em sua forma física de se relacionar com esse espaço. 

Quais seriam os melhores sinônimos para “solidão” na cartilha do seu cinema?

Desconexão, falta de entendimento. Personagens como Yoav são capazes de fazer longos monólogos e até de fazer espetáculos em público, mas não são hábeis pra travar um diálogo com outra pessoa, sobretudo um diálogo afetivo.

*Roteirista e crítico de cinema



O cineasta Nadav Lapid exibe o maior prêmio do Festival de Berlim
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