Depois do fogo

'Arqueologia do resgate' mostra, no CCBB, peças que foram recuperadas do Museu Nacional após incêndio

Com 103 peças resgatadas do incêndio que destruiu seu prédio principal, há quase seis meses, e outras 77 que estavam em outras unidades ou foram emprestadas, o Museu Nacional exibe a partir de amanhã, no Centro Cultural Banco do Brasil, exposição com itens que puderam salvos ou recuperados das chamas e do calor que destruíram o palácio na Quinta da Boa Vista, em 2 de setembro do ano passado. Logo no térreo, destaca-se o meteorito Santa Luzia, uma das principais atrações do museu sediado em São Cristóvão e que, por sua natureza, composto de diversos metais, resistiu ao fogo. Descoberto em 1922, em Luziânia, e batizado em homenagem ao antigo da cidade, no interior de Goiás, o meteorito mede 1,36 metro de comprimento, por 80 cm de largura e 40 cm de altura, pesando cerca de 2 toneladas, compostos por 95,33% de ferro, mais níquel, cobalto, fósforo, cobre e outros elementos. O segundo andar do CCBB abriga os demais itens do total de 180 da exposição "Museu Nacional vive - Arqueologia do resgate", que segue até 29 de abril. Quem entra na sala principal, dá logo de cara com uma harpia empalhada como se estivesse caçando um macaco. Trata-se de uma das maiores aves de rapina brasileiras, chegando a 2 metros de envergadura. Logo atrás, outros pássaros nacionais, como tucano e arara, são expostos, também refeitos pelo processo de taxidermia, aplicado a animais que vão da fauna local, como a pacarana - mais conhecida simplesmente como paca - à da Austrália, como a equidna e o ornitorrinco.

Macaque in the trees
Segunda sala da exposição mostra de peças históricas da Corte Imperial a fotografia do incêndio de setembro (Foto: João Pequeno)

"A gente começou a achar, em vários lugares, um monte de arames retorcidos estranhos. Aí, depois, a gente começou a achar alguns mais inteiros e percebeu 'nossa, são os animais taxidermizados'", conta a arqueóloga Claudia Carvalho, que lidera a equipe de cerca de pessoas dedicadas ao resgate e à recuperação de peças do Museu Nacional, como as desses animais, representados pelas coberturas naturais de seus corpos, como peles e penas e alguns outros tecidos, que recobrem armações de metal.

Entre fósseis que vão de répteis ainda existentes, como tartarugas, a extintos, como o osso de um mastodonte (espécie de elefante gigante pré-histórico), um destaque é a exposição do crânio de um jacaré-açu resgatado dos escombros do Museu Nacional, junto à mesma parte do corpo de outro exemplar da espécie, que não estava no prédio incendiado. Além da diferença de tamanhos, relativos às idades, chama a atenção a comparação entre o item intocado ao que foi atingido.

Macaque in the trees
A arqueóloga Claudia Carvalho lidera a equipe que vem resgatando peças do Museu Nacional dos escombros (Foto: João Pequeno)

"Depois da ação do fogo, as peças ainda foram expostas a outros fatores que as tornaram frágeis para o manuseio. Por isso, o trabalho tem que ser feito com muito cuidado", ressalta Claudia Carvalho.

Além da história natural, a exposição ainda reúne itens de outras áreas do Museu Nacional, como vasos, ânforas e lamparina romanos e etruscos, além de peças mochica e chimú, do Peru, que faziam parte das coleções de Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina.

Mais antigas, há esculturas de 1380 a.C., do Egito Antigo, que também se salvaram do incêndio. Chamadas de "Shabti", elas são pequenas estatuetas que eram colocadas nas tumbas de servos, os quais passavam a representar.

Já o trono de Daomé, proveniente da atual Benin, na África, ganhou uma réplica empapier maché, feita por Miguel Monteiro Nunes, um aluno do ensino fundamental que se comoveu com a destruição, e a doou ao museu.

Outra doação parcialmente presente na exposição no CCBB é a de 2 mil insetos, cedidos pelo médico Luiz Cláudio Stawiarski, da coleção iniciada pelo pai dele, Victor Stawiarski, morto em 1979.

Com todos os setores do Museu Nacional - antropologia, botânica, entomologia, geologia e paleontologia, invertebrados e vertebrados -, a mostra ainda não tem previsão para ser exibida nas outras unidades do CCBB (Brasília, São Paulo e Belo Horizonte), como é de costume nas exposições do Centro Cultural Banco do Brasil. Segundo o diretor do museu, Alexander Kellner, ainda não há previsão financeira suficiente.

Até o momento, os ministérios Ciência e Tecnologia e da Educação destinaram, R$ 12,5 milhões e R$ 5 milhões, respectivamente, ao Museu Nacional, segundo sua direção que ainda contabiliza apoio do BNDES no valor de R$ 20 milhões - somando R$ 37,5 milhões.

Ainda há previsão de mais R$ 55 milhões para a reconstrução, através de emendas ao orçamento da União de parlamentares das bancadas do Rio de Janeiro no Senado e na Câmara, mas esse dinheiro só tem previsão de vir a ser liberado a partir do segundo semestre deste ano.