Foco no debate racial

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Laureado com o Grande Prêmio do Júri em Cannes, coroado com US$ 90 milhões de bilheteria, "Infiltrado na Klan" é o maior sucesso de Lee nesta década e um de seus filmes mais elogiados, embasando uma tônica que marca o Oscar 2019: aumento de espaço para representações da população negra. Antes ele era visto como o favorito para a estatueta de direção, mas perdeu fôlego para Cuarón. O termômetro são as votações sindicais hollywoodianas, pois quem ganha os troféus das associações profissionais de cada classe do audiovisual é quem costuma ganhar o troféu da Academia: e, este ano, o Sindicato de Diretores (Directors Guild of America) coroou o mexicano.

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"Pantera negra". de Ryan Coogler: maior arrecadação e sinais de uma nova mitologia (Foto: Divulgação)

Porém, o debate racial que Lee abriu acerca da realidade americana sob a explosiva gestão de Donald Trump incendiou múltiplos pleitos por maior representatividade afrodescendente na premiação de Hollywood. Daí o boom de "Pantera negra", dirigido por Ryan Coogler (um fã de Spike), e centrado numa África de superação das contradições sociais pela tecnologia e pelo respeito às tradições. "A gente pode ir longe, bem longe, pois todo mundo como nós, negros, que crescemos com poucos referenciais de matriz africana no cinemão, sobretudo o de heróis, temos agora uma opção, uma nova mitologia", disse Chadwick Boseman, que vive T'Challa, quando o longa estreou, faturando US$ 1,3 bilhão, maior receita entre as produções indicadas a melhor filme.

Ao ganhar o prêmio principal da festa do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores, maior massa votante da Academia, "Pantera Negra" disparou como favorito, driblando a tese de que, numa política de boa vizinhança, Hollywood coroaria "Roma", em reverência à Netflix. O único sindicato de tanto peso quanto o SAG, o Producers Guild Awards (PGA), canteiro dos produtores, preferiu um outro painel racial: "Green Book", de Peter Farrelly. Famoso por chanchadas como "Quem vai ficar com Mary?" (1998) e "Debi & Lóide" (1994), codirigidas por seu irmão, Bobby, Farrelly surpreendeu a ala autoral e o povão ao rodar uma comédia dramática, baseada em fatos reais, sobre a amizade entre um motorista ítalo-americano (Viggo Mortensen) e um pianista negro (Mahershalla Ali, o mais cotado ao prêmio de coadjuvante). É um sinal de evolução do cineasta na direção, um marco na celebração das diferenças, mas o fato de seu realizador ser branco gerou uma grita de muitas alas que falam em controvérsia racial e usam a expressão "tolerância de butique" para o longa. Mas, polêmicas à parte, a noite pode ser de Farrelly.

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Bradley Cooper e Lady Gaga em "Nasce uma estrela": favoritismo em melhor canção (Foto: Divulgação)

Hegemonia Marvel sobre o cinemão

Da mesma forma, neste bonde de debates sobre dramas ligados à violência contra os negros, Regina King ganhou um (merecido e, de certa forma, tardio) reconhecimento ao disparar com a potencial ganhadora do prêmio de melhor coadjuvante por "Se a rua Beale falasse": ela é a mãe de uma jovem grávida cujo namorado acaba de ser preso, num gesto racista. Inclua ainda nesse bloco "Homem-Aranha no aranhaverso", aventura animada que adota o adolescente Miles Morales, negro e de origem hispano-americana, como protagonista. Fora o simbolismo, "Aranhaverso" e "Pantera negra" sinalizam a hegemonia da Marvel sobre o cinemão atual: as maiores cifras do mercado exibidor são baseados nos quadrinhos de Stan Lee (1922-2018) e os talentos dos gibi enfileirados por ele na editora que virou sinônimo de fortuna certa.

Há quem reclame que os quadrinhos infantilizaram o cinema e que o Oscar dá um ar mais adulto ao audiovisual quando vem com filmes como "Vice", história real de Dick Cheney, o político que convenceu Geroge W. Bush a declarar guerra ao Iraque pós-11 de Setembro de 2001. O galês Christian Bale ganhou o Globo de Ouro de melhor ator pelo papel de Cheney e, hoje, pode ser o maior rival de Rami Malek, encarado como favorito por seu desempenho como Freddie Mercury em "Bohemian rhapsody".

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Christian Bale: incrível metamorfose para viver o ultraconservador Dick Cheney (Foto: Divulgação)

"Aula de cinema, 'Vice' é uma metralhadora giratória atirando para todos os lados do Governo Trump, ultraconservador, homofóbico, xenófobo e racista. Pela sátira, o filme expõe a sociedade americana de uma forma constrangedora e faz o espectador refletir sobre os caminhos que a humanidade está seguindo", diz o cineasta Hsu Chien, que organiza o bolão da Cavídeo com Cavi.

Palpites pra cá palpites pra lá, este é um Oscar que demonstra fragilidades da Meca do cinema diante das transformações de comportamento do mundo e das práticas de consumo. Que os melhores vençam...

 



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Christian Bale: incrível metamorfose para viver o ultraconservador Dick Cheney
Bradley Cooper e Lady Gaga em "Nasce uma estrela": favoritismo em melhor canção