Entrevista - Paul McCartney: 'É tempo de falarmos a verdade'

Bertrand Guay/AFP
Credit...Bertrand Guay/AFP

A voz era mais rouca que em "Helter skelter", sem os agudos de "Oh, darling" nem a adolescência de "A hard days night". A gentileza na entonação soava a "Hey Jude", mas algum cansaço remetia a dias de "Let it be". Uma vida inteira em uma frase dita na última quarta-feira, no momento em que o homem mais popular do planeta apanhou o telefone do assessor em seu escritório em Londres, para falar antes de sua próxima vinda ao Brasil. Os shows em São Paulo serão dias 26 e 27 de março, no Allianz Parque. Um terceiro será em Curitiba, dia 30 de março. A sequência parece cansativa para um senhor que, embora teorias sustentem o contrário, se trata de um ser humano. Aos 76 anos, amigos seus estão em casa brincando com os netos. Segundo o The Sunday Times, Paul segue sendo o artista mais rico do Reino Unido, com 780 milhões de euros, algo como R$ 3,2 bilhões. "Gosto das grandes plateias, estar com os fãs pelo mundo me dá energia, e consigo passar um bom tempo com os netos. É possível viver as duas coisas. Não tenho que fazer isso o tempo todo, mas é o que faço desde garoto."

Ao mesmo tempo que os brasileiros ficam felizes com sua vinda, uma multidão de fãs não pode pagar pelo ingresso. Não seria a hora de fazer uma apresentação gratuita por aqui?

Paul McCartney - Sabe que uma vez, há poucos anos, fizemos um concerto e liberamos sua transmissão para a TV no Brasil. Já cantei assim em Roma para mais de um milhão de pessoas nas ruas e, no México, para umas 500 mil. Seria ótimo conseguir o mesmo no Brasil.

O mundo parece dividido entre esquerda e direita. O rock já foi acusado dos dois: direita, alienando os jovens; e esquerda, rebelando-os. Os Beatles eram de esquerda ou direita?

É uma pergunta difícil, mas acredito que os dois. Não fazíamos essa distinção. Não era nosso interesse assumir um partido, uma ideologia. Se lutar pelos direitos humanos é ser de esquerda, então éramos de esquerda. Se fazer músicas que falavam de amor e de família era algo de direita, éramos de direita.

Macaque in the trees
Paul McCartney fará turnê no Brasil em março (Foto: Divulgação)

Ainda hoje, John Lennon é considerado o rebelde da banda e você, o conservador. Existe algo de certo nessa percepção?

De alguma forma, sim. Mas as pessoas interpretaram a história de muitas formas. Às vezes, eu me tornava um homem conservador e, em outras, eu era revolucionário. E foi assim também com John. Mas ele também podia ser bem "right wing" (direita). Tive algumas experiências que mostraram que não devemos julgar alguém tendo como base apenas um período de sua vida. Os dois lados conviviam nos Beatles, e é por isso que conseguimos falar com todo mundo.

Seu disco mais recente traz uma história que se passa no Brasil na música "Back in Brazil". Uma parte soa como crítica social quando diz que a garota sente medo e que "a esperança começa a desmoronar e seus sonhos, a desaparecer". Você quis dizer algo?

Essa música é uma história de amor. Não pensei em outra coisa quando a fiz. Mas gosto quando a canção abre portas para outras leituras. Se quiser, pode levar para esse entendimento.

Vai tocá-la no Brasil?

Estamos ensaiando, não sei se teremos tempo de aprendê-la até lá. Espero que sim.

Paul, uma banda dos sonhos... Não vale colocar ninguém dos Beatles.

Ah, ok, deixe-me ver. Na bateria: John Bonham (baterista do Led Zeppelin, morto em 1982). Nos teclados... Billy Preston (músico que toca órgão em "Let it be", morto em 2006). No baixo (faz silêncio): John Entwistle (baixista do The Who, morto em 2002). Na guitarra, Jimi Hendrix (morto em 1970). E no vocal, Elvis Presley (segundo Paul, o imortal).

Você tem uma música no disco novo ("Despite repetead warnings"), que fala de um capitão de um navio que, sem se preocupar com as advertências do aquecimento global, caminha para o fim com sua tripulação. O presidente do Brasil é, coincidentemente, um capitão com inspirações em Donald Trump, a quem você dedicou a música.

Não sei o suficiente sobre seu presidente para fazer comentários, mas, olhando para o mundo, há um infortúnio no ar. As pessoas estão assustadas, com medo, e uma grande preocupação com relação à questão dos imigrantes e refugiados. Vejo nações com pensamentos de antissemitismo e políticas anti-imigratórias. Não posso falar do Brasil, mas vejo claramente a ascensão de políticos que causam medo.

Roger Waters foi vaiado ao falar sobre suas convicções políticas. O que vale? Estar ao lado dos fãs que pagam para vê-lo ou ao lado do que você acredita ser a verdade?

Sempre ao lado do que você acredita. A situação política em muitos países está difícil e aqui no Reino Unido não é diferente. É tempo de falarmos a verdade.

O fim dos Beatles foi precoce ou eles acabaram no tempo certo?

Foram uma grande banda, tocaram pelo planeta e poderiam muito bem estar tocando agora.

Um dia, Paul. Se tivesse de escolher apenas um para viver de novo, qual seria?

Hoje. Eu sou um homem feliz.

E no final, o que fica? O avô que curte os netos ou o artista que canta para 80 mil pessoas?

São o mesmo homem. O que fica é o amor. (Estadão Conteúdo)



Paul McCartney fará turnê no Brasil em março
Paul McCartney fará turnê no Brasil em março