Dizem as más línguas que a posição do Brasil, olhando para o Atlântico, nos deixa de costas para a América Latina, o que nos transforma em seres solitários, distanciados de nosso continente e com uma identidade cultural borrada. Mas ferve, em alguns momentos, um sangue latino, uma exuberância, uma irmandade, uma solidariedade que nem sabemos de onde. Em "Antes que a definitiva se espalhe em Latino América", Felipe Hirsch se permite misturar textos, atuações, angústias, delírios e discussões continentais.
A questão da arte, do sujeito que se questiona, da negritude, do papel que desempenhamos são temas que descem uma cordilheira, deságuam em uma Floresta Amazônica, contemplam os desertos. Uma colcha de retalhos na qual cada pedaço se mistura ao outro, sem perder a sua especificidade, e que formam um lindo e belo conjunto do que seria esse sujeito latino que ainda procurar se entender e se estender. São dez autores que compõe o mosaico: André Dahmer, conhecido por seu trabalho como cartunista, Nuno Ramos e o próprio Felipe. Os textos internacionais ficaram por conta de Guillermo Calderón (Chile), Manuela Infante (Chile), Pablo Katchadjian (Argentina) e Rafael Spregelburd (Argentina).
Mas são as metáforas sobre a diversidade dos olhares, qual perspectiva, para e de onde se vê, qual é o ponto, para onde se mira (em português, apontar, mas em espanhol, olhar) é que transforma o espetáculo em um jogo no qual está claramente colocada o conceito de arte e de recepção, mas sobretudo um momento em que essa recepção é do palco, da plateia (quando André Dahmer, conhecido por seu trabalho como cartunista, Nuno Ramos e o próprio Felipe.
Os textos internacionais ficaram por conta de Guillermo Calderón (Chile), Manuela Infante (Chile), Pablo Katchadjian (Argentina) e Rafael Spregelburd (Argentina). E, em um belo recurso cênico, os atores movem as pessoas da plateia para assistir do palco, mirando quem ficou sentado,; um inverter de lugares, como se nós, latinos, pudéssemos nos observar de longe.
Debora Bloch, Guilherme Weber, Jefferson Schroeder e Renata Gaspar, com participações de Blackyva e Nely Coelho, desempenham e falam os diversos textos em tons que lhes permite exercer esse gangorra de significados. Mas está na expressão corporal e na movimentação, nos corpos que balançam e falam que se vê que a posição não é necessariamente ereto que se pode ter algum tipo de autoridade, de autoria mesmo. A direção de arte de Daniela Thomas e Felipe Tassara transforma o palco em um enorme acolchoado, formado pelos mais diversos tipos de colchão. Há que se ter uma base, macia, ainda que equilibre/desequilibre, mas que se cairmos não iremos no ferir.
Felipe Hirsch , que tem utilizado a América Latina como tema, é quem irá dar à peça aquilo que é mais importante. A contemporaneidade do cenário, dos figurinos, da mistura de textos que se interpenetram, uma cauda longa de significados é construída pelo diretor/criador/maestro que é capaz de conceituar, em 2 horas de atenção total, visão grudada no palco, uma maneira de se pensar que olhar é esse, por quanto tempo seremos vistos e veremos os assuntos que nos inquietam. E para olhar, é necessário luz. É essa luz que Felipe consegue retardar. Antes que a definitiva noite se espalhe.
*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras
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SERVIÇO
Antes que a definitiva noite se espalhe em Latino América - Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63 - Flamengo; Tel.: 3131-3060). Qui.a dom., às 20h.
Ingressos a R$ 30.
Classificação indicativa: 14 anos. Duração: 120 minutos