A verdade está lá...na música

Ídolo da TV nos anos 1990 e 2000, como o agente Fox Mulder da série 'Arquivo X', David Duchovny aposta numa carreira paralela como cantor, lotando casas de show da Europa

Ao montar um repertório adequado para um show na capital alemã no último dia da Berlinale, quando as atenções da cidade se voltavam para a vitória de "Synonymes", de Nadav Lapid, na disputa pelo Urso de Ouro, David Duchovny propôs uma releitura gutural de "Heroes", hit de David Bowie usado em várias celebrações da queda do Muro, em 1991, e em muitos filmes exibidos aqui.Para evitar erros e não dispersar o público do Astra Kulturhaus das outras canções de "Every third thought", novo disco de sua atual carreira, a de cantor, o eterno Fox Mulder de "Arquivo X" fez um teste com cobaias austríacas. Na última terça-feira, apresentou um show num inferninho cult de Viena e disparou Bowie quando o público começava a se embalar em sua mistura musical de rock, folk e balada romântica. Resultado: houve choro, ovação e pedidos de bis para o ator nova-iorquino de 58 anos, que vem lotando casas de espetáculo na Europa, sem dar bola para o cinema ou para a mídia que consagrou sua fama, a televisão. "Vou pedir desculpas a vocês, mas trago aqui canções que falam de solidão. Se pesar muito, a gente pula e descarrega", dizia ele à plateia vienense, antes de saltar no palco austríaco da Arena Wien esbanjando uma disposição de garotão. "Tem horas que a gente precisa ir para o rock'n'roll".

Macaque in the trees
primeira foto (Foto: Reprodução do site oficial)

Revelado em "Twin Peaks" (1990) como a trans Denise Bryson, Duchovny bateu a cabeça no cinema, atrás de um bom papel, muitas vezes, até fazer "Kalifórnia" (1993), de Domic Sena, com um ainda pouco conhecido Brad Pitt e a então estelar Juliette Lewis. Foi ofuscado por Pitt, mas provou ter talento e carisma, um binômio essencial para a televisão numa época em que seriados, embora bem-sucedidos, ainda não eram o coração da indústria do entretenimento nos EUA. Foi aí que veio "Arquivo X", projeto do jornalista e roteirista da Disney Chris Carter para explorar a mística em torno de ETs. Duchovny foi escolhido para ser Mulder, um agente "chave de cadeia" do FBI, daquele tipo que coleciona encrencas, escolhido para encampar uma divisão nova, dedicada a explorar fenômenos sobrenaturais. Nascia ali um mito da telinha, celebrizado por um bordão: "A verdade está lá fora".

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David Duchovny ao lado de Gillian Anderson em "Arquivo X", um marco da TV dos anos 1990. Abaixo, a capa do álbum que ele está promovendo na Europa (Foto: Divulgação)

"Eu sei que alguns aqui vieram atrás de Mulder, mas vamos ouvir música agora", diz ele no palco, ao cantar seu hit, "Hell or highwater", que disfarça sua alma melancólica numa batida pop. "Minha ideia é levar ao público uma batida como a das baladas dos roqueiros dos anos 1970. Tento compor minhas músicas sendo o mais universal possível, sem especificar temas. Só tento ser o mais pessoal possível", disse ele ao site AXS.com.

Cantar letras como "Hell or hiighwater" ou "Someone else's girl", uma das canções mais pedidas do CD "Every third thought", hoje é mais significativo para Duchovny do que relembrar a trajetória que fez dele um fetiche das fãs da ficção científica, coroado com um Globo de Ouro, em 1997. A seu lado, havia Gillian Anderson, a cerebral agente Dana Scully. Mulder era pura crença: em ETs, em lobisomens, em fantasmas e na irmã que seres do espaço levaram. Dana era o ceticismo em pessoa, incumbida em impedir o parceiro de fazer loucuras, até perceber que ele tinha razão. Essa percepção fez o seriado multiplicar sua audiência e inspirar um longa, lançado em 1998, que faturou US$ 189 milhões - menos do que o esperado.

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capa do disco (Foto: Reprodução)

Duchovny e Dana ficaram no ar até o fim dos anos 1990, quando o astro pediu à Fox para sair, ensaiando um protagonismo em Hollywood que nunca colou. O ator Robert Patrick (o T-1000, androide de metal líquido, de "Exterminador do Futuro 2") ficou em seu lugar, como agente John Doggett. Ele foi fazer filmes como a comédia romântica "Feitiço do coração" (2000), com Minnie Driver, e a chanchada sci-fi "Evolução" (1991), que fracassou fragorosamente. Acabou voltando para encerrar a saga de Mulder. "Hoje o que me mais interessa é ser um músico em evolução, que se arrisca a compor com dedicação", disse ele ao lançar "Every third thought", repetindo nos shows um outro bordão, que não o "A verdade está lá fora" de Mulder, mas sim o xingamento "Motherfucker!", gritado por seu segundo personagem mais famoso, o escritor mulherengo Hank Moody, de "Californication", que lhe valeu outro Globo de Ouro, em 2014.

Em 2016, ele e Gillian reabriram o "Arquivo X", mas sem o mesmo êxito. A concorrência com séries de canais de streaming, como "Strangers things", da Netflix, era incontornável e desleal. E a cabeça de Duchovny não está mais "lá fora", entre extraterrestres, mas nos livros que escreve (lançou o romance "Miss Subways", em 2018) e nos acordes de suas melodias. "Estou buscando uma relação com as boas velhas canções americanas", disse ao AXS Duchovny, que canta hoje em Utrecht, na Holanda, e terça em Manchester, na Inglaterra. "O importante é fazer o público se mexer".

*Roteirista e crítico de cinema



primeira foto
capa do disco
David Duchovny ao lado de Gillian Anderson em "Arquivo X", um marco da TV dos anos 1990. Abaixo, a capa do álbum que ele está promovendo na Europa


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