Documentário brasileiro é premiado pela Anistia Internacional na Berlinale

Às vésperas do encerramento do 69º Festival de Berlim, que anuncia os ganhadores dos Ursos de Prata e de Ouro na noite deste sábado, o Brasil foi coroado com uma láurea de tinta política no evento alemão: “Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai, conquistou o prêmio da Anistia Internacional. No ano passado, o cinema nacional também a conquistou: o cearense Karim Aïnouz foi contemplado por “Aeroporto Central”. Essa premiação, paralela às decisões do júri oficial, celebra olhares humanistas sobre práticas de resistência e pode ser conferida a longas de qualquer seção do festival. Produção Globo News/Globo Filmes, o longa-metragem de Eliza, rodado em São Paulo, foi exibido na Berlinale na mostra Geração 14+, seção ligada à representação da juventude. Foi ovacionado em suas projeções públicas, conquistando um ardoroso boca a boca nos papos de corredor, com imagens de passeatas de estudantes, da ocupação de escolas, do congresso da UNE de 2017, entre outras.

“Ele traz uma contradição, pois, por um lado retrata uma educação absolutamente sucateada, sem crítica, e, por outro, traz a força da juventude que consegue sonhar por algo melhor e lutar por direitos básicos”, disse Eliza, conhecida por filmes como “Severinas” (2014) e “O jabuti e a anta” (2016). “É um filme falado... muito rápido... mas que mostra uma realidade muito maior. Uma realidade de luta que está acontecendo agora no mundo”.

Macaque in the trees
"Espero tua (re)volta" rende para o Brasil o prêmio da Anistia Internacional na Berlinale (Foto: Divulgação)

Esta noite, na festa de encerramento, “Espero tua (re)volta” vai estar concorrendo ao troféu Glashütte Original, prêmio da Berlinale dedicado a narrativas documentais. No filme, três jovens ex-secundaristas que participaram das ocupações das escolas paulistas em 2015 - Lucas “Koka”, Marcela Jesus e Nayara Souza - revisitam a história recente do país, num papo com Eliza. “Tomara que agora, com o prêmio, as pessoas se reúnam em torno desse filme e assistam cultura”, disse a diretora, que, a partir de uma vertiginosa estrutura de linguagem documental, capta as lembranças do trio acerca dos eventos de 2013, até chegarem ao processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e à vitória do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro em 2018.

Na tela, otrio propõe diferentes olhares e vivências, mas têm em comum o ativismo em prol de um ensino público de qualidade. A diretora brasiliense Maria Augusta Ramos (de “O processo”) é uma das juradas da seção.

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A cineasta Eliza Capai com o Prêmio da Anistia Internacional dado no 69º Festival de Berlim a Espero Tua ReVolta (Foto: Rodrigo Fonseca)

Favorito ao Urso de Ouro, o longa da Macedônia “God exists, Her name is Petrunya”, de Teona Strugar Mitevska, ganhou pela manhã deste sábado duas láureas em Berlim: o prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio do Sindicato de Exibidores de Filmes de Arte da Alemanha. Na trama, uma historiadora sem emprego que é hostilizada ao tocar numa cruz em que só homens poderiam pegar. O longa alemão “System crasher”, de Nora Fingscheidt, foi laureado com o prêmio dos leitores do jornal Der Berlinelr Morgenpost, por sua narrativa inquieta, clipada, com foco nas angústias de uma garotinha que precisa ser adotada.

Na sexta, o Teddy, a láurea LGBTQ, foi para uma coprodução do Brasil com a Argentina: “Breve história do planeta verde”, de Santiago Loza. Outro longa já premiado aqui foi “Synonymes”, do israelense Nadav Lapid, que recebeu o Prêmio da Crítica Internacional.



"Espero tua (re)volta" rende para o Brasil o prêmio da Anistia Internacional na Berlinale
A cineasta Eliza Capai com o Prêmio da Anistia Internacional dado no 69º Festival de Berlim a Espero Tua ReVolta