Bibi Ferreira, uma vida dedicada à arte

Atriz, diretora e cantora morreu no Rio, aos 96 anos, meses depois de se aposentar dos palcos

A atriz e diretora carioca Bibi Ferreira morreu na manhã de ontem, aos 96 anos, em seu apartamento no Flamengo, cinco meses depois de ter anunciado a aposentadoria dos palcos, ao final da turnê "Por toda a minha vida. O comunicado do afastamento da atriz, diretora e cantora se deu através das redes sociais: "Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada!", informou ela, em 10 de setembro, depois de sair de uma nova internação hospitalar em junho, devido a um quadro de desidratação, e se ver obrigada a se manter em repouso. O velório será hoje, no Theatro Municipal, das 10h às 15h. A cremação está marcada para as 17h30 no Cemitério da Penitência, no Caju. 

O geriatra Renato Diniz Kovach, que anunciou a morte da atriz pela rede social, informou ontem que cuidou dela por 30 anos e se tornou seu amigo íntimo. "Em 2017, ela rodou o Brasil fazendo shows. Mas, em 2018, foram dez semanas de internação em meses alternados, mas nada ligado ao coração, pequenas infecções, problemas intestinais. Sua saúde começou a se deteriorar, ela já não queria mais sair da cama, comer ou beber. Hoje (ontem), a cuidadora Laila me ligou dizendo que ela estava passando mal. Mandei imediatamente uma ambulância do Pró-Cardíaco para a casa dela, mas chegando lá já não tinha sinais vitais. Foi uma morte sem sofrimento. Se eu fosse definir uma causa, diria que foi por tristeza de não poder estar mais no palco". 

Macaque in the trees
Por "Piaf - A vida de uma estrela", Bibi recebeu os prêmios Molière, Mambembe e da APCA (Foto: Divulgação)

A filha Teresa Cristina, mais conhecida como Tina, conta que Bibi amanheceu bem, tomou o café da manhã, porém se queixou de falta de ar, apresentando pulsação fraca. "A ambulância veio muito rápido, mas, quando chegaram, ela já tinha partido." Tina lembra que a mãe sempre falava que, para representar bem algum personagem, era preciso observar a vida e as pessoas. "É a melhor escola". De acordo com ela, nem os médicos entendiam como Bibi conservava a voz, apesar da idade avançada. "É um fenômeno da natureza", diziam. 

Jalusa Barcellos, atriz que trabalhou muito tempo com Bibi, está escrevendo uma biografia dela, intitulada "A saga de uma diva". Conta que a ideia surgiu há 20 anos: "Estávamos tomando um café quando disse que queria contar a sua história. Aí, ela falou que primeiro eu tinha de reparar uma injustiça e escrever sobre seu pai. Acabou saindo uma fotobiografia chamada 'Procópio Ferreira, o mágico da expressão'. Só em janeiro de 2018, o assunto veio novamente à tona. "Fui visitá-la na primeira vez que foi internada e brinquei, dizendo que ela precisava se animar, afinal tinha aquele livro que há séculos estava me enrolando. Ela me disse: 'Faça porque está na hora, mas faça uma biografia afetiva'", lembra Jalusa, que teve ainda sete encontros com Bibi, quando comentou sobre os depoimentos que estava colhendo para o livro. "Eu contava para ela que Fulano tinha dito isso e perguntava se era verdade. Ela respondia: 'Disso, eu não quero tratar!'. Teve um colega a quem perguntei se houve um affair entre eles e ele respondeu que 'Um cavalheiro não pode responder isso'. Já estava respondido, né? Perguntada sobre isso, Bibi apenas falou: 'Então não, né?'", relata.

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A atriz brilhou como Joana em "Gota d'água" (1975), de Paulo Pontes e Chico Buarque (Foto: Reprodução)

O livro terá dez capítulos, cada um dedicado a duas décadas. Jalusa pretendia entregar em abril, mas ainda está escrevendo o quinto capítulo, porque sofreu recentemente um acidente e precisou interromper o trabalho. "Foram 50 anos de amizade e fico muito orgulhosa de ter contado com a confiança de Bibi. Há coisas que me comprometi a nunca falar, mas o livro terá uma revelação: o nome de seu grande amor. A única coisa que ela me pediu foi para 'ir com cuidado'", diz. 

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Desde bebê em cena

Foi uma vida inteira dedicada ao palco. Filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi entrou em cena com menos de um mês de vida para substituir uma boneca, que desaparecera, na montagem de "Manhãs de sol", do padrinho Oduvaldo Vianna. Com a separação dos pais, foi viver com a mãe, que se integrou a uma companhia de teatro de revista da Espanha. Até os quatro anos, só se comunicava em espanhol. Veio a aprender o português e a admirar a ópera depois, com o pai. Em sua volta ao Brasil, passou a se dedicar ao balé na escola de dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi aluna de Maria Olenewa. Aos nove anos, se viu impedida de estudar no tradicional Colégio Sion, no Cosme Velho, por ser lha de artistas, mas conseguiu concluir o secundário no Colégio Anglo-Americano e fazer cursos em Londres. Em 1936, integrou o elenco do lme "Cidade Mulher", de Humberto Mauro, em que canta o samba "Na Bahia", de Noel Rosa e José Maria de Abreu.

Sua estreia profissional foi com a peça "La locandiera" (1941), de Carlo Goldoni, como Mirandolina. Em 1944, abriu a sua própria companhia, reunindo nomes que se tornariam a nata do nosso teatro, a exemplo de Cacilda Becker, Maria Della Costa, Henriette Morineau e Sérgio Cardoso. Bibi também foi uma das primeiras diretoras de teatro no Brasil. Depois das turnês pelo país com suas produções e de atuar no cinema, inaugurou a TV Excelsior em 1960, como apresentadora do programa "Brasil 60" e, anos depois, na mesma emissora, em "Bibi sempre aos domingos". Em 1968, comandou na igualmente extinta Tupi o musical "Bibi ao vivo", com a orquestra do Maestro Cipó e coreógrafa as de Nino Giovanetti no auditório da Urca. Consagrou-se atuando, cantando e dançando nos anos 1960 nos musicais "Minha querida dama" (versão brasileira de "My fair lady"), de Frederich Loewe e Alan Jay Lerner, ao lado de Paulo Autran e Jayme Costa, e "Alô Dolly" (Hello Dolly!), com desempenhos irrepreensíveis. Nos anos 1970, dirigiu "Brasileiro, Pro ssão: Esperança", (1970) de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho, primeiro com Ítalo Rossi e Maria Bethânia e, em seguida, em uma produção maior e de enorme sucesso com Paulo Gracindo e Clara Nunes, no Canecão.

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Bibi Ferreira dirigiu alguns shows da cantora Maria Bethania (Foto: CPDoc JB)

Fez "O homem de la Mancha" (1972), contracenando com Paulo Autran e Grande Otelo, com texto traduzido por Paulo Pontes e o diretor Flávio Rangel, que teve as versões das canções assinadas por Chico Buarque e Ruy Guerra. Em 1975, recebeu o Prêmio Molière pela comovente atuação como Joana, no musical "Gota d'água", adaptação da tragédia "Medeia", de Eurípedes, pelo marido Paulo Pontes e o compositor Chico Buarque. Assinou a direção de "Deus lhe pague", de Joracy Camargo, estrelado por Marília Pêra, Marco Nanini e Walmor Chagas e grande elenco, e shows de Maria Bethânia. Há 35 anos, Bibi foi aclamada por "Piaf - A vida de uma estrela", com uma interpretação considerada "mediúnica" por muitos, foi aplaudida por mais de um milhão de espectadores, no Brasil e na Europa, e recebeu praticamente todos os prêmios por este trabalho: Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte, Governador do Estado e Pirandello.

Ainda interpretou a fadista Amália Rodrigues, brilhou nos recitais "Bibi in concert" e "Bibi in concert pop", e cantou sucessos de Frank Sinatra, acompanhada por orquestra. Em 2007, voltou aos palcos com "Às favas com os escrúpulos", com texto de Juca de Oliveira e direção de Jô Soares. Aos 95, fez a turnê de despedida com "Bibi - Por toda minha vida", espetáculo de música brasileira. Ela deixou um disco inédito gravado, intitulado "Bibi canta Sinatra", que ainda não tem data de lançamento.

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DEPOIMENTOS

"Posso afirmar que, hoje, morreu um Brasil. Um Brasil de comprometimento com seu ofício, um Brasil que sempre honrou os palcos, um Brasil que praticava o amor pelo coletivo. Morreu Bibi. Morreu um Brasil brasileiro."

Aloisio de Abreu, ator e cantor

"A Bibi é um ícone, um ponto de referência para minha carreira e um exemplo de imersão no mundo do teatro. Tive a honra de ser dirigido por ela em 'Deus lhe pague' [de Joracy Camargo, em 1974] e ainda conheci o pai dela, o grande Procópio Ferreira [1898-1979]. Bibi, além de grande atriz, foi uma grande empreendedora. Fomos muitas vezes ao Bixiga [tradicional bairro boêmio de São Paulo] juntos, fechamos restaurantes conversando - ela falando, eu aprendendo."

Marco Nanini, ator

"Foi-se a imensa Bibi Ferreira. Devo à ela meu primeiro encantamento com o palco assistindo sua perfomance em 'Alô Dolly' quando era um menino de oito anos. Obrigado por tudo, mas principalmente obrigado por honrar o palco sempre."

Miguel Falabella, ator e diretor

"Quando cheguei no Rio, já encontrei Bibi Ferreira na atividade, sempre presente nos palcos do Brasil. Tive a honra de cantar 'Rio Antigo' com ela no Programa Brasil Pandeiro e, depois,'Sino de Belém" no CD 'Natal em família: Bibi e convidados. Tenho essas histórias para contar! Me lembro muito do espetáculo "Brasileiro Profissão Esperança" com Clara Nunes e Paulo Gracindo, sob a direção dela... Perdemos a maior personalidade do teatro brasileiro. Vá em paz, Bibi. Obrigada por tudo que você fez pela cultura brasileira!"

Alcione, cantora

"A maior artista do Brasil nos deixou hoje. Que dia triste. Obrigado por tudo, Bibi Ferreira! Bibi Ferreira é a pessoa que mais entende de teatro no Brasil, vitoriosa como atriz, diretora e mulher" #rip #bibiferreira""

Maria Bethânia

"Bibi Ferreira, a mais completa atriz brasileira de nossos tempos, de quem fui fã e amigo, desde que a assisti em "My fair lady", em 1962, foi para a luz... já era um estrela..."

Fernando Bicudo, produtor cultural

"Partiu a grande feiticeira do teatro brasileiro! 80 anos de carreira enfeitiçando os espectadores do país, lutando pelo reconhecimento da profissão, por melhores condições de trabalho, pela liberdade de expressão e pela comunidade LGBT! Uma carreira gloriosa e inspiradora! Nem todos os obrigados dariam conta, Bibi! Nem todos os bravos!" Guilherme Weber, ator e diretor



Por "Piaf - A vida de uma estrela", Bibi recebeu os prêmios Molière, Mambembe e da APCA
A atriz brilhou como Joana em "Gota d'água" (1975), de Paulo Pontes e Chico Buarque
Em 1973, no papel de Dulcineia, ao lado de Paulo Autran e Grande Otelo, em "O Homem de La Mancha"
Bibi Ferreira dirigiu alguns shows da cantora Maria Bethania
Bibi desfilando na Unidos do Viradouro, escola que a homenageou em 2013
Bibi Ferreira
Com o ex-presidente Lula na entrega da Medalha ao Mérito Cultural no Theatro Municipal, em 2010