Inédito e bem acompanhado

Músicos da geração atual colaboram com Jards Macalé em "Besta fera", com 12 músicas novas

É de uma sequência constante de parcerias que sai, agora, o primeiro álbum totalmente de composições inéditas de Jards Macalé, meio século após o músico, que completa 76 anos em 3 de março, estrear para o grande público, defendendo "Gothan City", dele e de José Carlos Capinam, 4º Festival Internacional da Canção.

Composto e gravado com músicos da cena pós-2000 que colaboraram com Jards Macalé nesta última década, o novo álbum, "Besta fera", é lançado nas plataformas digitais através da Natura Musical. O trabalho reúne 12 faixas que combinam participações de músicos principalmente de São Paulo, como Tim Bernardes, Rômulo Fróes e Rodrigo Campos, além dos integrantes do trio Metá Metá.

O outro vértice fundamental é formado pelo baixista Pedro Dantas e o baterista Thomas Harres que, junto com o guitarrista Victor Gottardi e um naipe de metais levaram Jards Macalé, em 2012/2013, a se apresentar em uma temporada de shows com arranjos mais próximos até do rock, saindo do formato voz e violão que ele vinha fazendo. Era a banda Let's Play That, batizada com o nome da canção que ele compôs com Torquato Neto.

Coma saída de Gottardo, em "Besta fera", a guitarra é geralmente de Guilherme Held. Uma exceção é "Buraco da Consolação", onde quem toca é Tim Bernardes, da banda O Terno e agora também em carreira solo. Aos 27 anos, ele é ainda bem mais novo do que a maioria dos participantes do álbum - a maioria, em torno dos 40 - e assina a letra, além de dividir a música com Macalé. "O Tim, que vem do rock, demonstrou um interesse em uma música brasileira mais antiga. Mostrei um disco do Jamelão interpretando Lupicínio Rodrigues, com arranjos do Severino Araújo, da Orquestra Tabajara. De repente, ele conhecia esse disco e a gente ficou entusiasmado com isso e combinou de fazer uma música à la Lupicínio. Ele escreveu a letra eu fiz a música junto com ele", adiantava Jards Macalé ao JB, em outubro, quando o álbum era mixado, em São Paulo, por Gustavo Lenza.

A produção ficou a cargo do baterista e do Kiko Dinucci, do Metá Metá - que também toca violão e samplers em diversas faixas -, enquanto Romulo Fróes ficou com a direção artística. Os quatro assinam junto "Meu amor, meu cansaço". Com letra de Fróes e música de Harres, Dinucci e Macalé, esse samba-ruma romântico remete, inevitavelmente, a "Meu amor me agarra e geme e treme e chora", do primeiro LP de Macalé (mais uma dele com Capinam), pela temática, mas não pelo estilo musical, bem mais sereno.

Por falar em Capinam, o velho parceiro comparece novamente, com a letra do pesado baião "Pacto de sangue".

Outro poeta de cabeceira de Macalé, o americano Ezra Pound (1885-1972) - de quem ele já tirara versos para a canção "Luz", em 1998 -, teve seu "Canto I" musicado, a partir da tradução de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, como "Trevas", que intercala bossa nova e rock-terror. Ela foi a primeira canção de "Besta fera" a ser lançada via digital, de forma avulsa.

Já a faixa-título é composta sobre o poema "Aos vícios" do baiano Gregório de Matos (1636-1696). "Sempre fui muito de musicar poemas", frisa Jards Macalé, que, desta vez, fez a letra de três das 12 faixas. Em voz e violão, a introspectiva "Valor" foi trazida, na íntegra, de uma fita cassete gravada por ele em 1981, em meio a um hiato de lançamentos que uma década - entre "Contrastes" (1977) e "Quatro batutas e um coringa" (1987).

As outras ele fez especificamente para o novo trabalho: o samba quebrado, pesado e acelerado "Tempo e contratempo" e a triste "Obstáculo" - adaptada de Renô, um antigo amigo dele e de Hélio Oiticica, a quem é dedicada. Perdas recentes de amigos, aliás, não foram raridade. Em 2017, foi Luiz Melodia (de quem fez a primeira gravação de "Farrapo humano" e a quem dedicou "Negra melodia", com Waly). Nesta virada de ano, durante a festa de Ano Novo, foi o fotógrafo Cafi - autor das capas de mais de 300 discos, ele vinha trabalhando nas fotos de "Besta fera". Em abril do ano passado, havia sido o cineasta Nelson Pereira dos Santos, com quem atuou e fez a trilha de "Amuleto de Ogum" (1974).

Somando amigos

Entre os amigos mais recentes, há músicas em diversas combinações. Também com Harres e Dinucci, Jards Macalé fez o sambão "Longo caminho do sol", que ele canta em dueto com Fróes e coro de Laurinha, Clara e Irene, da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde, escola de samba da zona leste paulistana. Elas também fazem coral em "Vampiro de Copacabana", de Macalé, com letra de Dinucci, que abre o álbum, em mais referência de terror-ficção à la "Gothan city", porém com arranjo bem mais atual - e pesado.

Rodrigo Campos entregou a letra de "Peixe", para música de Dinucci e Macalé, que também a entoa em dueto, com Juçara Marçal - também do Metá Metá, que ainda cede Thiago França, tocando sax barítono.

Já Ava Rocha fez a letra da melancólica "Limite", mas não participou da gravação.

Quase como nos acréscimos de um tempo de futebol, é aos 47 - anos de carreira fonográfica - que Jards Macalé lança seu primeiro álbum 100% de composições inéditas, considerando-se que mesmo sua estreia, no álbum homônimo de 1972, incluía um pequeno trecho de "Vapor barato", gravada no ano anterior por Gal Costa (no ao vivo "Fa-tal - A todo vapor", em que ele fez a direção musical).

"Aprender a nadar" (1974) e "Contrastes" (1977), além de canções próprias, incluíam versões de compositores que iam de Paulo da Portela a Louis Armstrong, enquanto, dez anos depois, "Quatro batutas e um coringa" foi dividido entre obras de Geraldo Pereira, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues.

"O Q faço é música" (1998) e "Amor, ordem e progresso" (2003) traziam versões de outros compositores, algumas inéditas e regravações de composições próprias antigas, tal como "Let's play that", gravado em 1983, em duo com o percussionista Naná Vasconcelos, mas lançado somente em 1994, em CD, pela finada gravadora Rock Company.

Mesmo "Real Grandeza" (2005), dedicado a regravações de numerosas parcerias com o poeta Waly Salomão, teve uma inédita, "Olho de lince".

Do início ao fim, porém, só agora, na esteira da sequências de colaborações com novas gerações. "Eu queria há um tempo fazer um disco de inéditas e a Rejane (Zilles, cineasta), minha mulher, me incentivava. Até que ela entrou no edital da Natura ano retrasado, não fui escolhido, mas no ano passado saiu - e tinha que ser para disco de inéditas", ressalta Macalé. "A (banda) Let's Play That, através do Thomas Harres, que me apresentou, tinha me levado a conhecer mais músicos novos, como os do Metá Metá. Toquei com eles algumas vezes e fui me aproximando desse pessoal, como um todo. Então, acabou sendo um processo meio simultâneo. Enquanto rolava o edital, eu estava pedindo letras, músicas. Fomos trocando e construindo nesse tempo", conta o músico que, além de cantar, toca violão na maioria das faixas de "Besta fera" - incluindo um bom improviso no final de "Limite" - e que, nos últimos 15 anos, também também já dividiu palcos com Simone Mazzer, Chico Chico, Mombojó, Dorgas, O Terno, Emicida, Thais Gulin e também com outros veteranos, como o sambista Elton Medeiros e seus parceiros do quarteto Dobrando a Carioca - que ele formou em 2002 com Guinga, Zé Renato e Moacyr Luz.

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