Como vai você agora?

Exposição no Posto 6 reúne 14 remanescentes da Geração 80, cuja mostra inaugural completa 35 anos

Já são praticamente três décadas e meia desde que sete mil gaivotas de papel voaram na piscina interna do casarão do Parque Lage. A performance, com os aviõezinhos dobrados por Carlos Mascarenhas abriu a exposição que, em 14 de julho de 1984, se consagrou como uma espécie Marco Zero do impulso que renovou as artes plásticas brasileiras naquela década e que segue em movimento.

Na recém-inaugurada mostra reunindo 14 de seus remanescentes, a própria concepção do espaço quebra com o usual - ainda assim casando bem, visualmente. Casada com um dos participantes, Augusto Herkenhoff, a médica e historiadora da arte Isabela Simões fundiu, desde setembro passado, seu consultório com uma sala de exposições, na entrada, no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana.

"A ideia foi fazer um espaço de bem estar", conta Isabela, que abriu a galeria Zagut em paralelo à última edição do evento Art Rio. Segundo ela, a exposição "Somos da Geração 80 - alguns anos depois", aberta na quarta-feira passada, "não teve uma curadoria, apenas uma organização. Como é um espaço pequeno, pedimos que fizessem quadros com tamanho de acordo. Nada de instalações de 2 metros".

Macaque in the trees
Peixes marcam a maior obra exposta na galeria: quadro de Augusto Herkenhoff que ocupa a parede do corredor para o consultório

Passando a antessala, um quadro do marido, no corredor para o consultório, é a maior obra da galeria, com quase toda a parede ocupada por pinturas de peixes em torno de um sol. Mas ela é fixa do espaço. Para a exposição recém-aberta, Augusto Herkenhoff selecionou um quadro menor, recente - de acordo com o espírito da mostra, de trazer o que os expoentes da Geração 80 andam fazendo hoje. A mostra na Galeria Zagut, que também reúne Alexandre DaCosta, Clara Cavendish, Daniel Senise, Delson Uchôa,Hilton Berredo, Jorge Duarte, Lucia Vilaseca, Marcus André, Ricardo Basbaum, Roberto Tavares, Sergio Romagnolo, Walter Barja, Xico Chaves.

São alguns dos representantes da ebulição que, em 1984, reuniu 123 artistas, incluindo ainda Adir Sodré, Ana Horta, Barrão, Beatriz Milhazes, Gonçalo Ivo, Jorginho Guinle, Leda Catunda e Luiz Zerbini, entre outros, sob curadoria de Marcus de Lontra Costa, Paulo Roberto Leal e Sandra Magger, na EAV (Escola de Artes Visuais), então dirigida por Luiz Áquila, no Parque Lage.

Começando pelo titular do espaço, cinco dos 14 expositores explicam como fizeram suas obras e os motivos pelos quais as escolheram para a exposição:

Augusto Herkenhoff - 'Dr. Visual'

"Não tem a ver com a exposição ser em um espaço misto de consultório médico, isso é só coincidência. Esse quadro é de 2014, mas de uma série que comecei em 1998 e que expus no Palácio Gustavo Capanema, com 40 trabalhos. É um símbolo de pintura, que voltou com força na nossa geração, porque, dos anos 1960 até meados dos anos 1970, a vanguarda pendeu mais para artes conceituais, empíricas, com esculturas em determinados tipos de objeto, e a pintura andou ficando meio de lado. Como acho que trouxemos isso com força de volta, achei bem apropriado, bem representativo um quadro com muita matéria, muitas cores. Tem relevo, porque é um óleo sobre tela com muitas camadas. Devo ter usado uns 50 tubos de tinta, pesa uns 6 kg."

Clara Cavendish - 'Devaneios da uva'

"É um quadro de 2018, em frente e verso

A gente pressupõe uma euforia, uma visão dionisíaco, transgressão teletransporte para uma outra realidade. Então, eu acho que tudo isso tem a ver com os 1980, quando a transgressão era o clichê. Todo mundo transgredia (...) a gente não tinha muito essa questão das regras, de respeitar os limites ou aquilo que era o esperado. Era você embarcar em uma viagem e ir com força total e ver o que ia acontecer... 'Vem comigo que no caminho eu te explico."

Macaque in the trees
Na abertura, visitantes observam quadros como "Urubu na árvore dos chifres de ouro" (2017), acrílica sobre tela em 40x50 cm, de Jorge Duarte (Foto: Fotos: João Pequeno)

Roberto Tavares - 'Minha casa, minha vida'

"Participei da Geração 80 há 34 anos. Tenho 59, faço 60 neste ano. Foi um grande barato na minha vida profissional. A partir dali, participando de outras exposições, trabalhando também na área de gravuras, até hoje me envolvendo nessa coisa tão apaixonante que é a arte.

Já passei por diversas áreas de trabalho, tanto na pintura quanto na área gráfica. Na década de 1980, eu tinha uma linguagem mais figurativa e, aos poucos, fui enxugando e chegando ao trabalho que eu faço.

Ele [o quadro, uma pintura] é baseado nos aspectos construtivos das plantas baixas. Isso foi a partir de um rascunho feito a partir da planta baixa da minha casa quando pequeno. Então, é uma visão aérea da planta baixa que me permite, dentro dessa construção, trabalhar a questão da cor, a questão da matéria

Eu morava em uma casa em Mariópolis, construída pelo meu próprio pai. Ele trabalhava em construção civil, então eu tinha facilidade pegar essas plantas dele

Hélio Berredo - (ainda sem nome)

'Qual é o nome do quadro? Boa pergunta. Uma figura com fundo, com algo amarelo. É desse ano mesmo, tem a ver o tipo de forma. Esse gestual orgânico. Gosto de trabalhar com improviso, com a linha que risca e depois vai construindo o quadro. É uma figura de formas orgânicas e espero que seja engraçado."

Alexandre DaCosta - 'Basculante'

Meu trabalho, o Basculante, é um "poema-objeto"

"Tenho feito exposições com essa temática, autopoética. Como o Augusto e a Isabela não especificaram que seria pintura - porque eu também sou pintor -, então eu quis fazer uma coisa que tenho feito mais recentemente

O basculante é um desses trabalhos, de 2012 a 2014, que eu expus no Oi Futuro em Ipanema, em uma exposição de poesia visual, e no Paço Imperial

Especialmente no "Como vai você, Geração 80?", eu coloquei uns cartazes. Que eram um círculo vermelho, tipo uma placa de trânsito, em que entrava com uns desenhos pequenos ou pincelava. É um estilo construtivo na minha pintura, no meu trabalho geométrico, que permanece e é o que está me envolvendo, hoje, nas artes visuais."

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SERVIÇO

SOMOS DA GERAÇÃO 80 - ALGUNS ANOS DEPOIS

GALERIA ZAGUT (Av. Atlântica, 4240, loja 315, Copacabana - Tel: (21) 99253-2024. Seg. a sex., das 10h às 18h. Sáb. das 10h às 13h. Até 13/4. Entrada Franca



Roberto Tavares explica seu quadro ‘Minha casa, minha vida’, no canto, ao lado de ‘Dr. Visual’, de Augusto Herkenhoff
Peixes marcam a maior obra exposta na galeria: quadro de Augusto Herkenhoff que ocupa a parede do corredor para o consultório
Na abertura, visitantes observam quadros como "Urubu na árvore dos chifres de ouro" (2017), acrílica sobre tela em 40x50 cm, de Jorge Duarte