Os originais do reggae

Ras Bernardo e Da Ghama recriam núcleo criativo da primeira formação do Cidade Negra e excursionam pelo país

"Vamos falar a verdade pra vocês / Ei, ei, estamos aí (pro que der e vier)". No clima dos primeiros versos de "Falar a verdade", o guitarrista Da Ghama solta o alerta. No rastro do relançamento dos dois primeiros CDs da banda nas plataformas digitais, o Cidade Negra retoma o núcleo criativo de sua formação original e começa a excursionar pelo país agora com o nome Originais Cidade. A ideia de reunir a banda partiu do vocalista Ras Bernardo. O baixista Bino e o baterista Lazão foram sondados e ainda estudam a possibilidade de se juntar ao projeto. A dupla iniciou por Brasília, em dezembro, uma temporada de shows tendo como repertório as canções de "Lute pela vida" (1990) e "Negro no poder" (1991). "São os dois primeiros discos da história do reggae no Brasil, abriram o mercado para o gênero por aqui", diz o guitarrista, lembrando dos tempos em que a banda surgiu na Baixada.

Macaque in the trees
Ras Bernardo e Da Ghama juntos no palco, durante o primeiro show da dupla de volta, em Brasília (Foto: Divulgação)

"Embora o Gilberto Gil e os Paralamas tocassem reggae lá atrás, não eram uma banda da estética roots, com dreadlocks, e uma mensagem social direta, de afirmação do povo negro", compara. "O Gil, por exemplo, é um cara da MPB que era fá do Bob Marley e sempre gostou do reggae. Mas a gente veio como uma banda totalmente nesse clima", reforça.

Da fato, a cena reggae era muito tímida no país, mais restrita a pequenas bandas de Salvador e o movimento de São Luis do Maranhão, com sua tradição de sound system. "O Sérgio Lopes, da CBS (atual Sony) pirou quando recebeu recebe a nossa fita cassete. Ele dizia que aquela era a tendência que estava rolando na Europa, nos Estados Unidos, com bandas que vinham do gueto, da perfiferia. O olhar dele de empresário viu a possibilidade de um grande produto e isso realmente.aconteceu", lembra. "Falar a verdade" foi o grande hit do primeiro álbum, que obteve grande execução nas rádios e até hoje é pedida nos concertos. O CD ainda trazia participação de Jimmy Cliff em "Mensagem".

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'Negro no Poder', último álbum com Bernardo (Foto: Divulgação)

Daí para ingressar na nata do reggae internacional foi um pulo. A banda, que nasceu em Belford Roxo, acabou tocando no Reggae Sunsplash Festival, em Montego Bay, na Jamaica; tornando-se a primeira banda de reggae de um país latino a participar do evento. Em 1992, gravaram "Negro no poder", ainda mais politizado. Seria o último disco de Bernardo com a banda e em seu lugar entraria Toni Garrido, um cantor e letrista com acento mais pop que marcaria a banda nos anos seguintes até sua saída definitiva em, 2014. Entre 1994 e 2006, a banda acumulou sucessos e premiações.

Agora, os Originais querem pretendem resgatar essa história e apresentar esse reggae de raiz para os filhos de uma geração que viu a banda iniciando a carreira. "Está sendo bem interessante ver uma galera já adulta, que até tem os nossos CDs ou estão curtindo a banda nas plataformas digitais, mas nunca tinha nos visto tocando", avalia Da Ghama, referindo aos shows já realizados em Santa Catarina - onde Ras Bernardo radicou-se há alguns anos - e Rio Grande do Sul. A próxima parada será a Baixada Santista, no início de fevereiro. E a volta ao Rio deverá ocorrer após o Carnaval, possivelmente no Circo Voador.

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'Negro no poder' foi o segundo e último disco do Cidade Negra com Bernardo (Foto: Divulgação)

Mesmo sendo uma banda de reggae nativo, o Cidade Negra dos anos 1990 já flertava com outros estilos, chegando a regravar em estilo reggae "Mosca na sopa", de Raul Seixas. Atento a novas tendências e escutando as novas bandas do gênero, Da Ghama demonstra interesse pela fusão que alguns grupos fazem com o hip hop, outro ritmo de afirmação da negritude. "Nossos temas são muito parecidos e essa tendência de juntar a poesia falado com a base rítmica do reggae é natural. Vejo com bons olhos esse movimento que acaba rejuvenescendo o estilo e também é resistência", comenta.

Além dos shows, o Originais Cidade pretende lançar um documentário e talvez um livro que registre a trajetória da banda. "Ainda não definimos roteiro; apenas a ideia central. Vamos montar o projeto e buscar captação. Afinal, o Cidade Negra não foi uma banda que fez algum sucesso lá atrás. Nossa história e a do reggae se confundem", conclui. Com as bençãos de Jah.



Ras Bernardo e Da Ghama juntos no palco, durante o primeiro show da dupla de volta, em Brasília
'Negro no poder' foi o segundo e último disco do Cidade Negra com Bernardo
'Negro no Poder', último álbum com Bernardo