Corredor polonês no Oscar

Com estreia no Brasil em 7 de fevereiro, 'Guerra Fria' faz de Pawel Pawlikoski concorrente ao Oscar de melhor diretor, com a história de um amor impossível

Pátria de mestres da imagem como Krzysztof Kieslowski, Andrzej Wajda e Roma Polanski, a Polônia conseguiu, graças ao virtuosismo de "Guerra Fria" ("Zimna wojna"), que estreia aqui no dia 7 de fevereiro, um espaço até então inimaginável para ele na disputa pelo Oscar 2019, apesar de todo o prestígio de sua filmografia aos olhos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

À força do sucesso internacional de "Cold War", título internacional do drama romântico pilotado por Pawel Pawlikowski, o cinema polonês está disputando em três das principais categorias dedicadas a longas-metragens de ficção na festa hollywoodiana: melhor filme estrangeiro, melhor fotografia (em PB, clicada por Lukasz Zal) e melhor direção.

Macaque in the trees
Joanna Kulig e Tomasz Kot vivem um amor ameaçado pelo estado no filme de Pawlikowski, que já venceu Oscar de melhor filme estrangeiro por 'Ida', em 2015 (Foto: Divulgação)

Na ativa desde 1987, quando começou a dirigir, fazendo documentários para a TV, ainda sob a influência da União Soviética sobre sua nação, Pawlikowski ganhou fama internacional em 2015, quando seu longa anterior, "Ida", ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Agora, em disputa com medalhões dos EUA como Spike Lee ("Inflitrado na Klan") e Adam McKay ("Vice"), o cineasta nascido em Varsóvia, há 61 anos, terá uma merecida consagração aos olhos do cinemão, o que coroa a estrada de sucesso iniciada em Cannes, onde seu filme, em luta pela Palma de Ouro, deu a ele o troféu de melhor diretor.

"Distraídas pela tecnologia, com a cara enfiada no cineasta, as plateias de hoje perderam a conexão com a simplicidade, o que me levou a querer construir uma narrativa que pudesse ser sintetizada pela lógica das histórias de amor. Uma história sobre a perseverança da paixão", disse Pawlikowski ao JB na coletiva de imprensa de "Guerra Fria" na Croisette, onde esta história de amor cheia de contratempos políticos e afetivos entre o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig) começou uma trajetória internacional de premiações - já são 26, até agora. "Já escrevi o roteiro pensando nas soluções visuais que pretendia tomar na pós-produção, entre elas a aposta em um visual em preto & branco cheio de contrastes, diferente do que Lukasz e eu construímos em 'Ida'. Não queria me repetir ao narrar uma história sobre duas pessoas que lutam para superar os obstáculos do amor".

Macaque in the trees
Pawel Pawlikowski dirige o coro de cantoras de 'Guerra Fria': aos 61 anos, cineasta polonês disputa o Oscar de melhor direção (Foto: Divulgação)

No anúncio dos concorrentes ao Oscar, a classe cinematográfica esperava ouvir o nome o ator Bradley Cooper entre os indicados a melhor diretor, por seu desempenho no comando de "Nasce uma estrela", um fenômeno de bilheteria (custou US$ 36 milhões e faturou US$ 409 milhões) coroado com oito indicações. No entanto, Pawlikowski foi citado em seu lugar. Raras vezes um diretor que não seja americano, nem radicado lá, foi indicado na categoria relativa aos cineastas: foi o caso do argentino (naturalizado brasileiro) Hector Babenco (por "O beijo da mulher-aranha"); de Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), também do Brasil; e do austríaco Michael Haneke ("Amor"). Desta vez, a disputa inclui ainda um grego, Yorgos Lanthimos, por "A favorita", e Cuarón, do México, por "Roma". Mas estes dois já eram esperados; o atual artesão do P&B da Polônia, não, apesar de toda a boa acolhida, de público e crítica, a seu doído romance, ambientado no auge da Cortina de Ferro na Europa.

"Escrevi este filme há anos, antes de 'Ida' sair, querendo homenagear meus pais e o tempo deles. Amar é um exercício de superação de obstáculos. E, para quem vem da Polônia, a era da Guerra Fria, a partir dos anos 1950, foi uma época de percalços, políticos e morais. Mas não fiz uma narrativa nostálgica, nem na idealização nem na demonização do passado. O passado tem seu lugar. A Polônia de ontem tem seu lugar. O meu lugar é outro: é o lugar de uma língua que, mesmo numa diáspora pelo mundo, preserva-se em sua identidade nacional, como memória de corpos, de sensações. 'Guerra Fria' é a viagem do polonês pelo mundo, na pele de duas pessoas que se amam, e que se atraem e se repelem pelas vaidade do amor", diz Pawlikowski, que rodou Guerra Fria com um orçamento de €4,3 milhões, e já viu o filme somar US$ 15 milhões nas bilheterias, até agora.

Realizador de filmes multinacionais de boa acolhida na Europa, como o thriller anglo-francês "Estranha obsessão", de 2011, com Ethan Hawke e Kristin Scott Thomas, Pawlikowski se fez notar, pela primeira vez, em 2004, com "Meu verão do amor", sucesso no Festival de Berlim com a relação homoafetiva de duas jovens (Natalie Press e a atual Mary Poppins, Emily Blunt), ao som de Gilberto Gil e Caetano Veloso ("Três caravelas"). "Tenho gostos muito católicos, ou seja, muito bem comportados na música... mas, às vezes, eu surpreendo. Enchi de ruídos a trilha de 'Guerra Fria' para ilustrar a tensão do casal", disse Pawlikowski, cujo atual projeto é a adaptação do romance "Limonov", de Emmanuel Carrère, sobre um poeta russo que se torna um revolucionário.

Existe uma centelha revolucionária na relação apaixonada entre Wiktor e Zula em "Guerra Fria": é dele a responsabilidade de reger um espetáculo musical que marque época no Leste Europeu sob o jugo soviético. Em meio à produção de uma peça teatral de canto e dança, com um coro de mulheres, Wiktor descobre Zula e tomba de amores por ela, mesmo sob a rígida vigilância do Estado, que não quer um envolvimento capaz de comprometer a execução de uma obra de arte encomendada pelo governo. Mas quem disse que o coração sabe obedecer? Apaixonados, os dois ganham o mundo, em fuga, indo parar na França e em outros países, em um périplo marcado por desavenças e reconciliações, que se estende por 30 anos.

"A França tem um lugar no imaginário do cinema como uma terra de paixões, uma casa para os casais de refugiados. Quis desconstruir esse lugar comum, colocando lá um rival para Wiktor, mostrando o desencanto de Zula, fazendo de Paris um ambiente que destrói amores", contou Pawlikowski. "Tenho muito respeito pela tradição polonesa do cinema moderno, feita dos anos 1960 em diante, sobretudo a obra de Andrzej Wajda, mas não me integro com alguns de meus conterrâneos que lutam para reviver as lições dos mestres. Estou mais próximo da obra de um tcheco radicado nos EUA, como Milos Forman, do que dos grandes diretores poloneses. Passei anos radicado fora da Polônia, no mundo, em diversos países. Isso me faz querer buscar um cinema universal, ainda que fiel à língua que me formou".

*Roteirista e crítico de cinema



Pawel Pawlikowski dirige o coro de cantoras de 'Guerra Fria': aos 61 anos, cineasta polonês disputa o Oscar de melhor direção
Joanna Kulig e Tomasz Kot vivem um amor ameaçado pelo estado no filme de Pawlikowski, que já venceu Oscar de melhor filme estrangeiro por 'Ida', em 2015