Um Oscar pra gringo brilhar

De mãos dadas ao apogeu da Netflix, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fez de “Roma”, produção de maior prestígio do serviço de streaming, o campeão de indicações ao Oscar 2019, empatado com a comédia de intriga palaciana “A favorita”: ambos disputam em dez categorias. Com estreia marcada para esta quinta, a trama sobre a corte do século XVIII de uma Inglaterra em guerra com a França é um projeto com tudo o que a Meca do cinema gosta: ambientação de época, cenografia sofisticada, grandes atrizes (Olivia Colman é uma rainha com crise de gota e as coadjuvantes Rachel Weisz e Emma Stone, suas cortesãs... e amantes). Já o drama mexicano escrito, fotografado (em preto e branco), montado e dirigido por Alfonso Cuarón vem de um formato de produção para a internet que a Academia nunca havia reconhecido antes. E vale destacar que, embora tenha apenas cinco indicações, “Green book – O guia”, que entra em cartaz também nesta quinta, pode virar o jogo para si (e para as reflexões sobre inclusão racial nos EUA) depois de ter conquistado o troféu do Sindicato de Produtores da América no último sábado. Historicamente, quem leva o prêmio costuma conquistar o Oscar de melhor filme, dada a onipresença do PGA na massa votante da Academia. Porém, há surpresas na lista de indicados que foi divulgada na manhã de ontem: a valorização de talentos estrangeiros nas categorias técnicas de maior relevo da festa. A mais notável é a aclamação do cineasta polonês Pawe Aleksander Pawlikowski, pela love story “Guerra Fria”, que estreia aqui no dia 7 de fevereiro.

Macaque in the trees
Joanna Kulig e Tomasz Kot vivem um casal às voltas de um amor impossível no longa polonês "Guerra fria" (Foto: Divulgação)

Esperava-se ouvir o nome de Bradley Cooper, por seu desempenho no comando de “Nasce uma estrela” (fenômeno de bilheteria coroado com oito indicações), na seleção de indicados ao Oscar de melhor direção, mas Pawlikowski foi citado em seu lugar. Raras vezes um diretor que não seja americano, nem radicado lá, foi indicado na categoria relativa aos cineastas. Desta vez, a disputa inclui ainda um grego, Yorgos Lanthimos, por “A favorita”, e Cuarón, do México, por “Roma”. Mas estes dois já eram esperados; o artesão do P&B da Polônia, não. Laureado em 2015 por “Ida”, Pawlikowski vem arrebatando corações com um drama romântico mediado por um impasse histórico.

“Períodos governados pela brutalidade e pela intolerância favorecem grandes histórias de amor, pois eles não comportam distrações, não permitem encantamentos que se descolam do contexto político, ao contrário do que vivemos hoje, imersos num mar de imagens, presos aos telefones celulares, entorpecidos por ruídos”, disse Pawlikowski ao JB, em Cannes, de onde saiu com o prêmio de melhor diretor, por “Cold War”, título internacional de uma produção indicada ainda aos Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor fotografia (assinada por Lukasz Zal).

Seu visual em preto e branco é um passaporte sensorial para uma viagem aos anos 1940, 50 e 60 de uma Europa imersa num clima de paranoia seja no lado comunista, seja na porção capitalista. Orçado em €4,9 milhões, o longa tem uma trama se espalha por diferentes países, saindo da Polônia e voltando a ela, atrás de um casal ligado pela música. Por quase 20 anos, o maestro e compositor Wiktor (Tomasz Kot, em sublime atuação) vai fazer de tudo para ficar ao lado de uma cantora, a jovem Zula (Joanna Kulig), que ajudou a revelar. Mas o Estado polonês vai atrapalhar os sonhos dos pombinhos. “Carrego esta história comigo há décadas, antes mesmo de ‘Ida’, como um tributo aos meus pais e às dificuldades que os dois enfrentaram. Seu enredo parte da percepção fatalista de que quase tudo na vida acaba mal, menos a paixão. O amor é uma forma desafiar os obstáculos que nos atrapalham”, diz o cineasta.

Nessa onda de empoderar profissionais estrangeiros na cerimônia da Academia, um filme alemão, de um diretor europeu outrora decadente, destronou concorrentes a indicações cobiçadas: “Nunca deixe de lembrar”, de Florian Henckel von Donnersmarck, oscarizado há uma década por “A vida dos outros”. A história de um jovem pintor que luta para construir sua própria estética, assombrado por um fantasma do nazismo, foi indicado aos prêmios de filme estrangeiro e de fotografia, assinada por Caleb Deschanel. Há holofotes para produções vinda de outros continentes também entre as animações. De CEP asiático, “Mirai” põe a japanimation na rota do Oscar, coroando o cineasta Mamoru Hosoda numa seara antes dominada pela Disney. Quem deve ganhar é o sucesso “Homem-Aranha no Aranhaverso”. Mas só em ser indicado, Hosoda já passa para o Panteão do cinema. *Jornalista e crítico de cinema

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