Inspiramais, a moda nos acessórios

Referências até 2021 incluem desconstrução e bom humor

São Paulo - Nas primeiras edições, o Inspiramais trazia ideias e propostas para o setor de acessórios de couro e aviamentos para bolsas, calçados e cintos. A edição 2020-1, realizada na semana passada, indicou, só pelo nome, o objetivo de ir além de sugerir cores e texturas pesquisadas pelo consultor e designer Walter Rodrigues.

Em dois dias no Centro de Convenções Pró Magno, em São Paulo, foi possível conferir os acertos do painel de tendências montado no salão de abertura: mesmo tendo começado a pesquisa no ano passado, Walter acertou na cartela que prioriza tons próximos do Coral Vivo, indicado agora pela Pantone como a cor de 2019. Outra aposta importante, o brilho, tanto o derivado do paetê como o metalizado ou o furtacor, estes dois inseridos no conceito holográfico.

Macaque in the trees
Lucius Vilar, designer e consultor do projeto de estampas que seguem para salões internacionais (Foto: Ines Rozario)

“Confesso que dá medo, a pesquisa feita seis meses antes. Fica aquela dúvida: será que ainda dá certo?”, comentou Walter, que propõe as proporções para o sucesso de uma coleção. “São 60% de know how, 30% de estratégia e 10% de pesquisa.”

Nos painéis do salão, nos 10% figuram as propostas da linha chamada de Play, com cores claras, estampas pinceladas, texturas amassadas. Nos 30%, a Alquimia, que vai desde os clássicos xadrezes escoceses até os glitters e laqueados. E nos 60%, a Resistência, que inclui o folclore, animal print colorido, o folclore dos floridos em fundo preto, detalhes que lembram tatuagens. O pesquisador demonstrou a inovação até na forma da palestra: a plateia se deslocava, munida de headphones para ouvir melhor as histórias, e Walter falava da influência de obras de arte (como Jean Michel Basquiat), de designers como Craig Green, Jacquemus e Rock Owens, e das redes sociais, citando os principais blogs e instagrams mais influentes.

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Sergio Pinheiro, designer da Ciclo Pré, marca de solados de Minas Gerais (Foto: Ines Rozario)

“Não há mais tribos. Um dia você quer ser punk, no outro, hippie. Você configura seu corpo, com as escolhas pessoais. As pessoas se expressam sem marcas, gostam de referências de humor, de brincadeira. É uma reconfiguração que traz coisas novas e atemporais, que admite a alfaiataria, desde que desconstruída. Importante é saber trabalhar tanta informação que nos chega na palma da mão”.

Pisando com conforto

Nos mais de mil produtos mostrados por 183 expositores, entre solados, saltos, aviamentos, tecidos, quase não se viu o escarpin, o salto altíssimo e fino. O conforto do tênis é a base das coleções.

“Por exemplo, uma rasteirinha: ela cansa quem usa porque não tem salto. Colocamos a palmilha de amortecimento, típica do tênis. Um processo que retroage o tradicional chique com o conforto” contou Sergio Pinheiro, designer da Ciclo Pré, de Minas Gerais. Suas apostas de estilo indicam os saltos cobertos de corda, em modelos anabela ou mais grossos e altos. E a maior mudança é a forma quadrada, que possibilita a adaptação das botas estilo country para os pés brasileiros. “A magia do desenvolvimento, baseado na análise dos pés de várias regiões do país, resulta na largura maior e o bico mais para o quadrado na fôrma” explicou Sergio.

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Walter Rodrigues lidera as pesquisas de previsões do Inspiramais, com patrocínio da Assintecal (Foto: Ines Rozario)

O fachete, antigamente chamado de salto-sola, volta dos anos 1960 com novos desenhos. É uma espécie de capa que cobre saltos com tiras ou recortes de couro. Na empresa R&S Fachetes, de Santa Catarina, a montagem inclui recortes geométricos e tingimentos, além das tirinhas em tons naturais.

Caravana para o mundo

O Inspiramais invade a moda do têxtil. Além das inspirações no painel geral, um projeto reúne oito marcas de designs de estampas, com a organização do consultor e designer Lucius Vilar. A parceria com a Abit e a Apex leva as coleções para o salão Première Vision de Paris e Nova York, e feiras na índia e na Colômbia.

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Lenny Matos escolheu as peles para suas bolsas na Arte da Pele (Foto: Ines Rozario)

“O grupo inclui desde a pioneira Alexandra Ward, da marca Capim Santo, até o Grupo Dash, de Santa Catarina, que já vendeu para a Zara e Adriana Boulos, criadora em linhos, e a Oficina Lamparina, que também já foi para Paris”, destaca Lucius.

A preocupação com o sustentável aparece em quase todo o Inspiramais. Lucius encara com realismo as ações do setor. “Sempre digo que tudo é culpa do designer! Porque o descarte é inevitável. Nos materiais alternativos, como os laminados que substituiriam o couro, temos que lembrar que laminados é poliuretano, derivado do petróleo. Quando lavadas, as fibras feitas com garrafas PET soltam uma micropartícula altamente poluidora. De nossa parte, os participantes deste projeto estão reaproveitando as bandeiras das estampas (N.R. bandeiras são os pedaços de tecidos que fazem parte do mostruário) para fazer lenços e até vestidos, quando a metragem é maior. Imagina o valor desta ação, se uma coleção chega a reunir 600 bandeiras por temporada.”

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Detalhes típicos das tatuagens clássicas estão entre as referências (Foto: Ines Rozario)

Ainda as cobras

Karl Lagerfeld aboliu as peles exóticas (cobras, jacarés, crocodilos) das coleções Chanel. Stella McCartney jamais usa couros animais na sua marca. Mas por enquanto as pythons e najas devidamente acompanhadas pelos certificados do Ibama, continuam prometendo enfeitar bolsas e sapatos. A Tre Anytry apresentou cobras tingidas em cores fluo. A Arte da Pele contou com um visitante famoso, o estilista Lenny Matos, encantado com a qualidade das peles de pythons e pirarucu. “Tenho clientes que mal chegam da Europa e encomendam bolsas. E querem modelos grandes, que chegam a exigir três peles de cobra!”

Enfim, há embalagens sustentáveis, palmilhas de fontes renováveis e sapatos de materiais biodegradáveis da Insecta e baixo impacto ambiental da Química Carioca.

Que os 30% de estratégia previstos pelo Walter Rodrigues deixem um bom espaço para as belezas de uma moda menos poluente.

A competência e abrangência fazem do Inspiramais um dos eventos mais importantes da América Latina.

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As peles de cobra continuam na moda, agora em tingimentos fluo na Tre Anytry (Foto: Ines Rozario)



Lenny Matos escolheu as peles para suas bolsas na Arte da Pele
Lucius Vilar, designer e consultor do projeto de estampas que seguem para salões internacionais
Sergio Pinheiro, designer da Ciclo Pré, marca de solados de Minas Gerais
Walter Rodrigues lidera as pesquisas de previsões do Inspiramais, com patrocínio da Assintecal
A bota country, da Ciclo Pré, desponta como best-seller de inverno e verão, graças ao acabamento de furinhos
As peles de cobra continuam na moda, agora em tingimentos fluo na Tre Anytry
Detalhes típicos das tatuagens clássicas estão entre as referências