ASSINE
search button

A hora e a vez de Julia Katharine

Conheçam a mulher que abalou Tiradentes por dois anos consecutivos

Divulgação -
Julia Katharine diz que mulheres trans realizadoras no cinema brasileiro é algo ainda muito novo
Compartilhar

Ano passado, Gustavo Vinagre esteve na Mostra Tiradentes com sua estreia em longas, “Lembro mais dos corvos”, que deu o troféu Helena Ignez a sua atriz e co-roteirista Julia Katharine. Foi o momento maior até ali da jovem carreira de uma atriz trans. De lá pra cá, Julia alçou voo do ninho que Gustavo construiu para acalentar seus projetos. Além dos curtas “Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos”, “Filme catástrofe” e o ainda inédito “Medo, medo, medo”, ela rodou seu primeiro filme em 2018 como diretora, “Tea for two”. A estreia foi no Festival de Goiânia e agora chaga à competição de curtas da mostra mineira. No espaço de um ano, Julia provocou o momento de ebulição em que se encontra.

Macaque in the trees
Julia Katharine diz que mulheres trans realizadoras no cinema brasileiro é algo ainda muito novo (Foto: Divulgação)

A seguir, uma entrevista onde Julia fala sobre seus filmes, sua história com Gustavo e da iniciativa da distribuidora Vitrine Filmes de lançar “Lembro mais dos corvos” e “Tea for two” juntos no circuito dia 7 de fevereiro.

JORNAL DO BRASIL - Como foi a ideia pro “Lembro mais dos corvos” e como a sua relação com o Gustavo influenciou o processo?

JULIA KATHARINE - Gustavo sempre dizia que minha vida daria um filme, mas eu nunca levei a sério, achava graça. Nos conhecemos há mais de dez anos, mas por conta da vida, perdemos o contato por alguns anos, e um dia ele me achou no Facebook. Foi uma surpresa, e logo ele me chamou pra fazer ‘Os cuidados...’, ‘Filme Catástrofe’, ‘Medo, medo, medo’ e aí surgiu a ideia do ‘... Corvos’. Me senti muito segura de fazer o filme com Gus, pois confio nele como pessoa e como artista. Ele é extremamente corajoso, impulsivo e bom caráter, três coisas que admiro muito em qualquer pessoa.

Esse fluxo contínuo de trabalho e a proximidade afetiva com tanta gente ligada ao cinema fez nascer a diretora Julia, ou isso sempre esteve nos planos?

Sempre quis ser diretora, roteirista e atriz. Quando eu era menina, dizia para todo mundo que seria uma artista de cinema, mas as pessoas riam e diziam que uma pessoa como eu jamais seria coisa alguma. Isso teve um efeito devastador sobre mim, desenvolvi uma insegurança que ainda hoje me afeta. Claro que com a terapia, a parceria com o Gustavo, outros trabalhos no cinema e agora para outras áreas como TV e teatro, me ajudam a desconstruir essa ideia de que por ser uma mulher transexual, não posso ser nada. Posso sim e sou, mas o processo de auto confiança e amor próprio ainda está no início. Sofro muito quando estou sem fazer nada, me dá a impressão de que estou de novo naquele lugar onde sou nada e sem valor, é um lugar desumano, feio e que te mata aos poucos.

Como você encara essa volta a Tiradentes um ano depois do “...Corvos”, com a consagração que foi, e agora com uma nova função? Tem mais exposição, você se sente mais cobrada?

Hoje mesmo comentei que voltar a Tiradentes um ano depois do ‘... Corvos’ e de vivenciar toda aquela experiência linda é algo que tem me causado muita alegria, mas também muita ansiedade. Não sinto expectativas e cobranças de fora, sinto de mim mesma, me cobro e me judio muito, mas porque eu sei que esse lugar de realizadora e mulher transexual é algo muito novo na história do cinema brasileiro. Sinto obrigação de não desapontar e manter esse espaço para que inspire outras mulheres trans e travestis a estarem aqui como eu.

Macaque in the trees
Julia em cena de seu "Tea for two" ao lado de Gilda Nomacce (Foto: Divulgação)

“Tea for two” nasce em que condições e como foi o processo como um todo?

Foi no Japão, em 2007, em um momento que eu me sentia muito só, e queria fazer algo que não fosse trabalhar como operadora de máquinas. Mas era outro filme, eu tinha devaneios de que seria um longa estrelado pela Marília Pera, por mim e pelo Juca de Oliveira, tinha mais personagens e tal. Em 2016, abriu um edital na SP Cine, voltado para o público LGBTQI+ e o Gustavo me incentivou para que eu me inscrevesse com algo meu, para fazer um filme como eu quisesse. Me inscrevi com uma versão reduzida; do roteiro original, mantive o trio protagonista e desenvolvi a primeira parte do longa. Durante o processo de pré-produção, resolvi fazer outra mudança e aí o protagonista, que era um homem cis hetero, se transformou em uma mulher cis lésbica com os mesmos conflitos que o protagonista anterior. Foi lindo poder trabalhar com a Gilda Nomacce, que é uma atriz que eu amo, sou fã e também é uma grande amiga.

Como são os primeiros passos de uma profissional mulher trans no nosso cinema ainda tão restrito em relação a possibilidades e representatividade?

Sou uma mulher transexual de certa forma privilegiada, porque desde que me inseri nesse universo do cinema, tenho trabalhado com pessoas que eu amo, admiro e respeito. Alguns se tornaram amigos e outros ótimos parceiros de trabalho, mas a verdade é que para mulheres e homens trans e travestis ainda é complicado, temos pouca representatividade na frente e atrás das câmeras. Isso tem que mudar, temos que incentivar os que querem trabalhar com cinema, criando empregos, qualificando e dando suporte para se desenvolver na área.

O que o cinema brasileiro ainda pode esperar de Julia Katharine pro futuro? Novos curtas, quiçá um longa?

Antes de ser atriz, roteirista e realizadora, eu sou uma cinéfila, amo cinema profundamente, o cinema brasileiro pode esperar uma profissional apaixonada pelos seus ofícios, uma dedicada aprendiz e, sobretudo, uma defensora da liberdade criativa que esse governo que está aí não respeita.

* Membro da Associação de críticos de cinema do Rio

Divulgação - Julia em cena de seu "Tea for two" ao lado de Gilda Nomacce