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Tabu, a fronteira final?

Francesa Claire Denis desafia as convenções da ficção científica ao filmar High life

Divulgação -
Aclamada por suas histórias que revelam o empoderamento feminino, a cineasta surpreendeu ao levar tabus como desejo e morte a um gênero onde o militarismo costuma falar mais alto
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Assistente de direção de mestres como Wim Wenders (em “Paris, Texas”), Costa-Gavras (em “Hanna K.”) e Jim Jasmusch (“Daunbailó”), no início de sua carreira, a cineasta parisiense Claire Denis desfruta hoje de um prestígio à altura daquela alcançada pelos realizadores com quem trabalhou: em bíblias cinéfilas como a revista “Cahiers du Cinéma”, a diretora de “35 doses de rum” (2008) e “Nenette e Boni” (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996) merece reverência não apenas pela contribuição que deu às atuais discussões sobre empoderamento feminino - em sua forma libertária de representar as mulheres na tela - mas pelos debates sociais e raciais que abriu, em cults como “Minha terra, África” (2009). Mas até seus fãs mais ardorosos estranharam quando ela decidiu focar suas atenções no espaço sideral e se arriscar pelas veredas da ficção científica em “High Life”, um ensaio psicanalítico em forma de excursão pelas estrelas que deu a ela o prêmio da crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) no Festival de San Sebastián, em setembro. Ainda inédito no Brasil, o longa-metragem foi tratado como a mais fina iguaria do 21º Rendez-vous Avec le Cinèma Français, evento organizado pelo órgão audiovisual do ministério da Cultura da França, a Unifrance, que usou o Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles, como fórum para a promoção do cinema de autor. O encontro terminou ontem envolvendo 75 filmes. O dela foi o mais bajulado pelos críticos.

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Aclamada por suas histórias que revelam o empoderamento feminino, a cineasta surpreendeu ao levar tabus como desejo e morte a um gênero onde o militarismo costuma falar mais alto (Foto: Divulgação)

No trabalho mais ousado de sua carreira, Claire acompanha a jornada de um astronauta (Robert Pattinson, o vampiro romântico de “A saga Crepúsculo”) e sua filha bebê em uma nave onde os passageiros morreram sob circunstâncias misteriosas, mas que podem estar ligadas aos experimentos de fertilização de uma médica (Juliette Binoche). É uma sci-fi onde o sexo e as neuroses sexuais contam mais do que a tecnologia, como a diretora explicou nesta conversa com o JB, no sábado, no Rendez-vous da Unifrance.

JORNAL DO BRASIL - Apesar de cults “2001 – Uma odisseia no espaço”, de “Solaris” e de “Blade Runner”, a ficção científica raramente é filmada por cineastas com um perfil autoral como o seu, famosa por dramas de cunho social, por debates raciais. O que te leva à sci-fi agora?

CLAIRE DENIS - Existe alguma coisa mais fascinante do que uma dimensão, como o espaço, da qual pouco conhecemos, ainda, e a qual não podemos alcançar quando queremos? Leio ficção científica desde garota. Isaac Asimov ia comigo para a escola: “Eu, robô” e seus outros livros me fascinavam. Galileu é sci-fi. A questão não é o espaço sideral, mas a condição humana. Tenho curiosidade por saber como as pessoas se comportam num ambiente de silêncio absoluto, de solidão. Mas eu tentei fugir de algo na ficção científica, sobretudo a americana, que me assusta.

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Robert Pattinson desafia a solidão no espaço (Foto: Divulgação)

O que lhe dá medo no gênero?

A associação da sci-fi ao militarismo, ao futuro cheio de soldados, à ideia de que estar no espaço significa conjugar o verbo “conquistar”. Eu não filmo heróis. Os personagens aqui estão às voltas com o desejo e com a morte, ou seja, dois tabus. Não há heroísmo ali, nem conquista. Há a percepção de nós mesmos.

Daí um filme tão silencioso?

Sim, porque eu estou trabalhando numa história sobre pessoas que estão há anos juntas, num só lugar, vendo-se todos dias num mesmo ambiente, numa mesma missão, onde não há possibilidade de novas dramaturgias. Não há motivos para uma pessoa virar para a outra e perguntar: “O que você fez hoje?”. Ela fez o hoje o mesmo que fez nos últimos meses sem mudar nada. Não por acaso, o personagem vivido por André Benjamin, a certa altura, diz: “Esses nossos corpos juntos estão fedendo”. É o fedor da mesmice, do confinamento. Podem existir várias dramaturgias diferentes no interior de cada uma daquelas pessoas. Mas isso não se diz com palavras. A câmera diz.

O que a presença de um astro como Robert Pattinson, hoje cada vez mais ligado a pequenas produções, representou para o filme?

A beleza... a beleza de um ator que se arrisca. Ele me procurou. Ele queria estar nesse filme. É um filme sobre condenados, sobre pessoas sem vida. Inicialmente, o papel não era dele, e sim de um ator mais velho. Philip Seymour Hoffman (morto em 2014) era a minha ideia inicial, quando o projeto começou. Queria alguém mais velho, que encarnasse a ideia de uma perda total de laços. Mas Robert, com seu talento imenso, foi capaz de me convencer de que o papel era dele. O papel do condenado que, sozinho no espaço, entre mortos, tem um bebê nas mãos para cuidar. Que vida é essa que nasce ali? E que tabu nasce com ela?

Em seu filme anterior, “Deixe a luz do sol entrar” (“Un beau soleil intérieur”), o semiólogo Roland Barthes foi seu guia para explorar os signos do amor. Que filósofo guiou a excursão pelos signos do espaço?

Foi Aurélien Barrau, um astrofísico francês jovem, foi meu acompanhante. Com base nos estudos dele, eu fui estudando a ideia de buraco negro, de espaços aparentemente vazios, que nos transportam para dimensões no qual as noções de velocidade e gravidade que nos sustentam são outras.

Seu diretor de arte em “High life” foi o artista plástico dinamarquês Ólafur Eliasson, famoso por obras de larga escala, como um sol gigante instalado na Tate Modern, em Londres. O que ele trouxe para um experimento narrativo tão intimista quanto a sua sci-fi?

Ele queria que eu filmasse tudo no estúdio dele, na Alemanha, mas não haveria como criar uma nave ali. Mas ele se adaptou ao estúdio onde filmei e trouxe uma luz meio amarelada para a cenografia que me revelou outra percepção do espaço, pela imersão. Este filme foi uma experiência em muitos níveis, sobretudo, sensoriais, pois é uma história de moral, de limites morais.

* Roteirista e crítico de cinema

Divulgação - Robert Pattinson desafia a solidão no espaço