Autor das capas de cerca de 300 discos da música brasileira e até internacional, o fotógrafo e artista plástico Cafi morreu na madrugada de ontem, aos 68 anos. Ele sofreu um infarto durante a virada de ano, no Arpoador, e ainda foi levado para a emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu.
Nascido no Recife, em 1950, Carlos da Silva Assunção Filho estudou gravura e pintura na Escolinha de Arte do Brasil, durante a infância, e se mudou de Pernambuco para o Rio de Janeiro ainda na adolescência. Na capital carioca, ele começou a pintura imagens do Nordeste e caiu de cabeça na fotografia depois de ganhar uma câmera de presente de uma irmã, inicialmente com o intuito de que fotografasse seus quadros.
A primeira capa de disco que ele fotografou, aos 20 anos, foi a do LP “É a maior”, da cantora Marlene, em 1970.
Dois anos depois, Cafi viria a fazer a foto de capa que ficou mais famosa em sua carreira, a do LP coletivo “Clube da Esquina”, que reuniu Milton Nascimento, Lô Borges e mais um grupo tão grande quanto influente de compositores e instrumentistas mineiros e agregados, como Beto Guedes, o guitarrista Toninho Horta, o pianista Wagner Tiso e o baterista Robertinho Silva, entre outros.
A capa do “Clube da Esquina” é uma história à parte do álbum duplo lançado em 1972. Depois de fotografar pessoas indicadas por Milton e os demais músicos, em Belo Horizonte e nos estúdios da gravadora EMI, Cafi voltava, com o letrista Ronaldo Bastos, para o Rio, após uma viagem para um sítio Nova Friburgo, na Região Serrana. Durante a viagem, ainda em área rural, o fotógrafo, que estava no banco do carona, teve a ideia de registrar dois meninos que estavam sentados à beira do caminho e logo pensou neles para a capa do disco – que saiu sem nada escrito. “Para mim, esse disco tinha uma característica que fazia contraponto ao preciosismo plástico, uma coisa de morosidade, de encontro de mineiros com cariocas, etc. Tinha uma relação de Milton com Lô na capa, mas nem era essa a intenção. Era mesmo uma coisa de arame farpado, de estrada, de mineiridade”, declarou, em entrevista para o livro “Coração americano – 35 anos do Clube da Esquina”, organizado por Andréa Estanislau e lançado em 2008.
Os meninos Tonho e Cacau – José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira – foram localizados em uma reportagem 40 anos depois, morando na mesma região.
A relação de Cafi com o Clube da Esquina começara em 1968, exatamente ao conhecer Ronaldo Bastos, que o apresentou aos músicos, além de fundar com ele a produtora Nuvem Cigana – que acabou dando nome a uma das músicas do LP, de Bastos e Lô Borges.
Outra icônica capa de Cafi foi a do primeiro álbum solo de Lô Borges, conhecido “o disco do tênis”, também de 1972. Para Milton Nascimento, ele ainda fez outras capas como as de “Milagre dos Peixes” (1973), “Minas” (1975) e “Geraes” (1976).
Cafi também criou capas para artistas e bandas como Chico Buarque, Edu Lobo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Blitz, entre outros.
Além disso, foi um dos fundadores da Galeria das Artes, vinculada ao Circo Voador em sua fundação.
Atualmente, ele trabalhava no projeto gráfico do próximo álbum de Jards Macalé, com quem já havia colaborado – é dele a fotografia do músico com o letrista Waly Salomão (1943-2003), que ilustra o CD “Real Grandeza”, lançado em 2005, com releituras de composições em parceria da dupla.
Recentemente, havia escrito o roteiro de um documentário sobre ele próprio – “Salve o prazer”, do cineasta Lírio Ferreira, também recifense – e publicado o ensaio fotográfico “Religiosidade profana no asfalto do Rio de Janeiro”, com registros do carnaval de rua.
“Hoje perdemos um grande artista, fotógrafo, poeta visual e, acima de tudo, um grande amigo”, declarou Lô Borges, em sua página oficial no Facebook. “Das mais de 300 capas de discos da música brasileira, Cafi realizou várias icônicas, entre elas as dos álbuns ‘Clube da Esquina’ e do ‘Disco do Tênis’, que sou eternamente grato. Descanse em paz, meu amigo. Meus profundos sentimentos à família, amigos e fãs do grande Carlos Filho (Cafi) 1950-2019”, disse.
“Ao meu amigo Cafi, com tristeza pela partida precoce. Amor e força para a famílias e aos amigos e amigas. São muitos”, lamentou Alceu Valença, na mesma rede social, lembrando ainda que “Cafi foi fotógrafo da capa do álbum ‘Cinco sentidos’” e que foi citado por ele e seu parceiro Carlos Fernando na música “Leque moleque”.
“Cafi ! fotógrafo querido e amigo, autor da foto da capa do meu segundo disco em 1983, ´’Águas de Todo o Ano’. O ano já começa triste”, escreveu a cantora portuguesa Eugenia Mello e Castro. Cafi deixa três filhos – Miguel, Clara e Joana – e três netos: Theo, Alice e Julien.