Quando a oportunidade não faz o ladrão: confira crítica da peça 'O inoportuno'

Um dos mais festejados autores ingleses , completando dez anos de morte, Harold Pinter constrói uma dramaturgia em que as peças não são nem claros jogos entre personagens ou digressões filosóficas sobre o ser/ou não ser. Seus personagens estabelecem suas próprias regras que, apesar do brilhante humor inglês, são tentativas deliberadas de se evitar a comunicação. “O inoportuno”, no original “The caretaker” (O porteiro) é o sexto de seus principais trabalhos para teatro e televisão, um estudo psicológico da confluência de poder, lealdade, inocência e corrupção entre dois irmãos e um vagabundo, tornando-se o primeiro sucesso comercial significativo de Pinter.

Com direção de Ari Coslov, o elenco , encabeçado por Daniel Dantas, ao lado de Andre Junqueira e Well Aguiar, conta a trama de um vagabundo Davies (Daniel) que é trazido por Aston (Well) para uma casa em total desalinho e decadência. Aston é o irmão mais velho e , apesar de não haver qualquer clareza sobre o fato, parece viver no mesmo espaço com seu irmão Mick (André). A partir de um texto, que parece com uma gangorra, pois os dois irmãos jamais estão em cena juntos, Pinter compõe um arrasador retrato da capacidade da mesquinharia humana, com pequenos detalhes sórdidos de felicidade, esperanças vãs, totalmente delirantes. Metáfora perfeita do horror da ambiguidade nos relacionamentos, O Inoportuno retrata a solidão humana, mesmo quando as pessoas vivem em um ambiente fechado e limitado.

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Sob a direção de Ari Coslov, "O inoportuno", de Harold Pinter, traz Daniel Dantas como protagonista (Foto: Divulgação)

O desempenho de Daniel Dantas, ao retratar um mendigo, um sujeito abandonado por todos os quadrantes da vida, combina de forma brilhante os ecos de comédia que o personagem exige com os trejeitos de um velho que não se deixa quebrar. Daniel realiza com muito talento os movimentos saltitantes e os olhares furtivos que sugerem o medo e a incerteza que alimentam seu medo paranoico dos “imigrantes” da casa ao lado e suas queixas rabugentas sobre a chuva que entra na sua cabeça. É Mick/Daniel é que centraliza com sua atuação o diálogo e a condução do jogo dos irmãos em que um escapou do manicômio e agora tenta ser útil para si mesmo construindo um galpão, o outro dado à ilusão de que é um grande magnata do setor imobiliário.

A tensão exigida é bem realizada pelo trabalho de Ari Coslov, pois a peça é uma contínua exposição de lamentáveis esperanças, de pequenas irritações que acontecem no que chamamos popularmente de conversas de surdos. Frequentemente desconectada, a comunicação evidencia que ninguém presta atenção ao outro. O cenário de Marcos Flaksman, cinza, triste , um casebre no qual um par de camas, um fogão não ligado, bagagens e o que mais poderia ter ser recolhido em algum lixão da cidade é o ambiente para mostrar que a sujeira, o desleixo também se repete nas pessoas. “O inoportuno” centra sua força em evidenciar que não existe complacência e empatia. Cada um dos três personagens mergulha na busca de uma chance de poder emergir da decadência que os cerca: a velhice de Davies; a insanidade de Aston e o fracasso de Mick. Desesperam-se e de forma repetitiva se esforçam para não se afogar. Não conseguem sair da armadilha que a vida lhes reservou. No way out.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

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SERVIÇO

O INOPORTUNO

Teatro dos 4 (R. Marquês de São Vicente, 52/2º piso; Tel: 2239-1095)

De sexta a domingo: sex. e sáb, às 21h; dom., às 20h

HORÁRIOS: 6ª e sábado às 21h, domingo às 20h

Ingressos a R$ 80

Capacidade: 402 espectadores

Classificação: 12 anos

Duração: 90 minutos