Grupo de dança Dinamosfera estreia no Cacilda Becker inspirado pelo repertório de Maria Bethânia

Semeado na convivência universitária por amigos de faculdade, o roteiro que marca os passos do primeiro espetáculo do Dinamosfera mostra seu fruto após a graduação dos colegas, em temporada que eles fazem de amanhã a domingo no Teatro Cacilda Becker.

Formados há um ano pela Faculdade Angel Vianna, mas com estrada no meio coreográfico, os três integrantes do grupo de dança conceberam “Aponte” em conjunto a partir do hábito cotidiano de uma deles, de combinar a limpeza da casa ao canto de Maria Bethânia, com o olhar no que seria um dia passado ao som de suas canções.

Macaque in the trees
Olhar para o outro convive com busca pela individualidade em "Aponte", que estreia amanhã (Foto: Bruno GN/ Divulgação)

“Sempre que fazia faxina, ouvia Maria Bethânia, para ficar mais legal”, recorda Flávia Spinardi, 31, que forma o Diamosfera com Tamires Coutinho e Dinis Zanotto, ambos de 26. “E mais dramática”, brinca a atriz coreógrafa especializada em dança contemporânea, familiar às canções que Bethânia cantava desde a sua infância - “Graças ao meu pai, aficionado por MPB”, como ela explica.

A faxina ao som de Bethânia virou assunto de conversas e risos com os colegas, que botaram uma pilha na faculdade. “‘Pôxa, então vamos montar alguma coisa a respeito’, eles sempre diziam”, conta Flávia. “É uma ideia super simples, mas que não levamos a cabo dentro da faculdade, como muitas dessas ideias que, às vezes, nascem do humor”.

Antes de colher a ideia, os três concluíram a faculdade juntos, em dezembro de 2017, com o espetáculo “Tem isso e isso também”, e fizeram o projeto “Sesc Entre Danças”, com uma compilação de trabalhos que tinham juntos. Estabelecendo-se como grupo fixo neste ano, levam a um dos teatros mais tradicionais da dança no Rio de Janeiro um espetáculo cuja coreografia, embora se baseie em músicas gravadas por Maria Bethânia, foi construída longe dos gestos e movimentos que a cantora costuma fazer em suas apresentações nos palcos.

“O espetáculo não tem nada a ver com o gestual, da Bethânia”, faz questão de advertir Dinis, com passagem pelas academias de danças de salão Jaime Arôxa e Renato Vieira. “A gente optou por não ter a movimentação dela, de fazer tudo a partir da música também para marcar a nossa linguagem”, ressalta o coreógrafo.

Dinis e Tamires, também atriz e especialista em sapateado, dividem o palco do Cacilda Becker com outros quatro dançarinos: Caroline Monlleo, Davi Benaion, Denise Guerchon e Ester França. Flávia não participa da performance por ter ido fazer um curso de dança em Israel durante quatro meses que coincidiram com o período de ensaios.

Os três dividem concepção e criação da coreografia, além da direção e figurinos. “Fizemos várias reuniões, primeiro sobre o desenrolar da carreira da Bethânia, e as sensações que traziam para a gente na ambientação”, acrescenta ele, sobre o caminho que tomaram para levar a inspiração da música, e não da performance de palco da cantora.

Macaque in the trees
Característico gestual de Bethânia foi evitado pelos coreógrafos, para se fixarem só na música (Foto: Jefferson Albuquerque Creative Commons)

A vida que dura um dia

Apesar de o trio ter estudado a carreira de Maria Bethânia, Flávia pondera que “não é um espetáculo biográfico, mesmo porque a vida dela abarca muita coisa e teríamos de fazer um laboratório muito grande”.

Em vez da vida da artista, o Dinamosfera imaginou um dia na vida, sonorizado pelas músicas de seu repertório e variações dela – um dia entrecortado, que começa à tarde e termina na manhã seguinte.

“É a vida que dura um dia – e com a primeira revolução no ser humano, que é o amor”, resume Flávia. “Começa à tarde, dentro do cotidiano massificador, achacador. Aí, tem a descoberta do amor, durante a noite, e, então desembarcamos na manhã, no despertar de ouvir a própria a voz e de olhar para o outro”, acrescenta.

Esse roteiro começa com a voz de Maria Bethânia em duas composições de Gilberto Gil, “Ele falava nisso todo dia” e “Marginália nº2”. A chegada do amor vem na declamação que ela faz de “Carta de amor”, de Tibério Azul, e prossegue com “É o amor outra vez” (Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro), entremeado por versões instrumentais criadas como trilha sonora original.

“Astronauta”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, mais “Você não sabe” e “As canções que você fez para mim” – ambas da dupla Roberto e Erasmo –, são ouvidas em adaptações feitas para o espetáculo dos músicos Gabriel Reis e João Melo.

Também é deles a variação sobre “Sorvete”, do mano Caetano Veloso, que inicia a fase seguinte, da descoberto do outro e de si mesmo, completada por “Aponte” (Lan Lan/ Nanda Costa/ Sambê) – que dá nome ao espetáculo – e “Xavante”, de Chico César.

“Focamos nossa ideia em um olhar para o outro e, ao mesmo tempo, na busca da individualidade”, reforça Flávia Spinardi, apontando ainda na escolha do repertório de uma cantora consagrada da música popular brasileira como um ponto “importante para levar a dança a pessoas não especializadas, ainda mais se tratando de uma iniciativa independente”.

------

SERVIÇO

APONTE Teatro Cacilda Becker (R. do Catete, 338 - Largo do Machado; Tel.: 2265-9933). De 20 a 23 de dezembro. Quinta a sábado, às 19h. Domingo, às 18h. Entrada: R$ 30 e R$ 15. Promoção de Natal: a entrada inteira dá direito a levar um convidado.



Olhar para o outro convive com busca pela individualidade em "Aponte", que estreia amanhã
Característico gestual de Bethânia foi evitado pelos coreógrafos, para se fixarem só na música