No compasso do desejo

Christophe Honoré volta às telas esta semana com drama de tons românticos sobre dois homens assombrados pela Aids e pela ansiedade

Respeitado no universo da literatura, por romances como “Tout contre Léo” (1995), e elogiado nos palcos em seu trabalho como encenador, Christophe Honoré virou um quindim pra crítica francesa, arrebatando uma legião de fãs, quando lançou o musical “Canções de amor” (2007), aos 37 anos, sendo definido como um herdeiro de Jacques Demy (1931-1990). A comparação com o mestre por trás de “Os guarda-chuvas do amor” (1964) veio pela maneira como ambos redefiniram o uso não realista da música como diálogo, reinventando o lirismo a partir de um diálogo com problemas concretos (e existenciais) do dia a dia. A diferença é que Honoré deu uma mão de tinta a mais nas cores homoafetivas de seu universo de desamor e de paixões condenadas pela Aids, como se viu em “Bem amadas” (2011), no qual ele dirigiu Catherine Deneuve e o diretor Milos Forman.

Agora, aos 48 anos, ele volta às telas sem música, mas carregado de romantismo, naquele que muitas resenhas definem como seu melhor filme: “Conquistar, amar e viver intensamente” (“Plaire, aimer et courir vite”). Estreia quinta no Brasil. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, de onde saiu ovacionado, o longa rendeu um duplo prêmio de melhor ator a Vincent Lacoste e a Pierre Deladonchamps no Festival de Sevilha. Eles protagonizam um romance com prazo de validade vencido desde o começo, em parte por imposição da moral francesa, em parte pelos medos de ambos, que passa pelo HIV.

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Honoré (centro) dirige Deladonchamps (direita) e Lacoste (direita) em "Conquistar, amar e viver intensamente" (Foto: Divulgação)

Na trama, o bem-sucedido Jacques (Deladonchamps) é um escritor e dramaturgo de Paris, já maduro e bem resolvido com seu prazer. Já Arthur (Lacoste) é o contrário dele: mais jovem, cheio de gás, ele vem da região de Rennes, com mil sonhos ligados ao cinema. Os dois se esbarram nas ruas, na arte e na cama. Mas o querer é um verbo manhoso. Na entrevista a seguir, dada ao JORNAL DO BRASIL em Cannes, em maio, Honoré disseca essas manhas.

JORNAL DO BRASIL: Muitos de seus filmes abordam o cotidiano dos soropositivos, uma escolha autoral sua que se torna mais do que oportuno neste momento em que pesquisas médicas apontam um aumento do contágio da Aids. O que torna a doença um assunto central no seu cinema?

CHRISTOPHER HONORÉ: A caminho dos 50 anos, eu pertenço a uma geração que escapou de se infectar, mas que viveu suas primeiras experiências sexuais à sombra da Aids, com medo da contaminação, vendo nossos ídolos gays morrerem doentes. A Aids sempre este coma gente, como um fantasma, mas também como um balizador do desejo. E cinema vem do desejo.

Você ganhou fama nos anos 2000 como um artesão do musical, apostando num registro não realista. Mas “Conquistar, amar e viver intensamente” é uma narrativa quase naturalista em seu registro do cotidiano. Como dirigiu Pierre Deladonchamps e Vincent Lacoste?

Embora eu venha da literatura, não tenho obsessão pelas vírgulas ou pelos acentos agudos do meu texto: meu roteiro existe para ser reinventado no set. Por isso, não ensaio, pois prefiro trabalhar com a matéria viva da descoberta. Janto com os atores, converso com eles, dou referências do que ver ou ler e parto para um processo de interação no qual os atores personalizam a história que tenho para contar.

E o que existe de singular nesta história?

A diferença do tempo dos afetos. De um lado, há um homem com ânsia de viver, de descobrir, de gozar. Do outro, há alguém que para, respira e analisa antes de decidir que caminho seguir. Essa característica dos protagonistas se materializou nos sets na forma como os atores de beijavam. No começo, havia uma timidez, um confronto de bocas meio apressado, típico da alegria da descoberta. Mais adiante, depois de beijos de língua, os dois ficaram mais à vontade, assim como os protagonistas, que caminham para a melancolia. Este filme conta a história de um amor ameaçado por impasses e fantasmas que não anda, por mais que os dois amantes se desejem.

De alguma maneira, a sua maturidade pessoal e profissional pesa na amargura que há em torno dos personagens?

Estou no momento em que vejo uma série de jovens de 20 e poucos anos que me responsabilizam por sua escolha em fazer cinema por conta de terem visto meu “Canções de amor” quando eram muito garotos. Eu já estou num momento de perceber uma distância geracional entre mim e uma nova linhagem de diretores. De fato, este é um filme mais pessoal, mas por várias razões, a começar por uma reflexão sobre o que foi os anos 1990. O que fomos nos anos 1990.

Qual é o seu lugar hoje no cinema francês?

Um lugar de preservação da ideia de que nem todo filme precisa ser “para todos”. Há um lugar comum na França que se opõe a uma arte mais intelectualizada, em oposição a narrativas mais sofisticadas, com a proposta de que a troca de ideias comum em nossa tradição cinéfila não tem mais lugar. Há um culto ao cinema de gênero, uma defesa de que todos nós, cineastas, precisamos investir em “produtos” de adesão coletiva em vez de apostarmos em histórias pessoais. Mas as histórias que tenho para contar não são pensadas por número de espectadores. Venho da literatura, da experiência solitária do leitor e do livro. Fazer cinema, pra mim, sempre foi uma experiência solitária, cercada de emoções conflitantes. Mas, aqui, a sensação de algo que não caminha, de uma paixão num impasse, é o que mais me interessa. E é o que eu tenho para dizer, com o máximo de sinceridade.

*Roteirista e crítico de cinema