Sob o domínio do poder: confira crítica da peça 'Venus Ex Libris'

O termo sadomasoquismo é empregado cotidianamente para falar de relações na qual um maltrata quem quer ser maltratado. Base do segundo estágio de afeto na teoria freudiana, F65.5 da Classificação Internacional de Doenças, o sadomasoquismo é muito mais do que um jogo sexual de perversão. A questão de submissão/dominação está presente no processo educativo de se criar filhos, nas escolas. A atualização é se compreender as relações de poder, de um querer se mais forte do que o outro. O corpo, o chicote, a excitação são apenas os sintomas do dilema de se impor ao outro o que se deseja. Venus ex-libris, ainda que pareça tratar de um momento entre dominatrix e dominado, reconstitui natureza de qualquer relação no jogo dos diálogos.

Macaque in the trees
"Venus Ex Libris" traz Ana Carolina Godoy e Rafael Steinhauser sob a direção de Luiz Fernando Marques (Foto: Divulgação)

A partir da história de “A Vênus das Peles”, de Leopold von Sacher-Masoch, a criação coletiva de “Venus Ex Libris”, com direção de Luiz Fernando Marques e atuação dos atores Ana Carolina Godoy e Rafael Steinhauser, relaciona o que está no livro com um momento de encontro entre um homem e uma mulher. Ex libris a expressão que significa, literalmente, “dos livros de” ou “faz parte de meus livros” está na título para acentuar como o que acontece na vida real, no palco da vida, está além do que se escreve, além da imaginação.

A disposição da plateia sentada em uma sala, sofás, poltronas, transforma os olhares em privilegiado voyeurismo do embate entre Wanda e Severin, do qual não se sabe o começo, nem o status do relacionamento. Sem palco, a quebra da quarta parede não está por se ter algum tipo de participação ativa de quem assiste. A principal escolha da encenação é fazer com que se acompanhe o que se diz, o que se faz através da movimentação dos atores e da transformação dos dois ao longo do tempo. No início, ela está com um figurino explicitamente sexual, do imaginário sadomasoquista, ele de camisa social, cueca branca é a expressão acabada do homem comum, careta. A mudança é interessante pois, normalmente, os atores se desnudam. Aqui se vestem. Ele de terno formal. Ela de branco com casaco de peles.

A partir do instante em que estão vestidos e o jogo se inicia, também se desvenda o quadro de Ticiano “A Vênus de Urbino”, no qual a deusa está enquadrada dentro de um ambiente fechado. Ana Carolina Godoy faz a dominatrix sem gritos, sem ataques. A voz é de quem sabe o que está fazendo, qual o seu papel. O corpo altivo com a expressão de quem sabe o que quer. Rafael Steinhauser não é um Severino fraco, medroso. Ao contrário, interpreta um homem mais velho que está lá para fazer parte e com isso também ter poder.

Macaque in the trees
A peça está em cartaz até domingo na Casa Quintal das Artes Cênicas, na Lapa (Foto: Divulgação)

A coragem de se abordar um tema popular sob um novo olhar, além do próprio livro, do quadro e de outros textos herdeiros, está em se escolher não reforçar a prática de igualar prazer e dor, mas de se construir o caminho da inversão. Homem , mulher, dominador, dominado não são papéis cristalizados. Podem ser alterados, trocados. A bela metáfora sobre o poder de Venus ex-libris deixa claro que ser dominado também é se ter poder e que só permitimos que nos dominem se o quisermos.

* Professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

----------

SERVIÇO

VENUS EX-LIBRIS Casa Quintal das Artes Cênicas (R. Silvio Romero, 36 – Lapa, próximo aos Arcos e a Rua Riachuelo)

Até 16/12, às 20h; sessão extra na sexta, às 23h59

Ingressos: R$ 30 (valor sugerido para o “pagamento consciente”)

Duração: 90 min

Classificação: 16 anos

Capacidade: 30 lugares



"Venus Ex Libris" traz Ana Carolina Godoy e Rafael Steinhauser sob a direção de Luiz Fernando Marques
A peça está em cartaz até domingo na Casa Quintal das Artes Cênicas, na Lapa