Companhia de balé Dançando para não dançar supera crise e apresenta espetáculo gratuito "Refavela" no Centro

São 24 anos superando com piruetas, graça e poesia todas as dificuldades de milhares de crianças nascidas nas comunidades do Rio — muitas, hoje, integrantes de celebradas companhias de dança do Brasil e do mundo. Mesmo quando a crise bateu à porta, com o cortes do patrocínio da Petrobras, a coordenadora e fundadora da companhia Dançando para não dançar, Thereza Aguilar, usou o poder de resistência da arte e, com o apoio da sociedade civil e novos parceiros, levará terça-feira, às 19h, ao palco do Teatro João Caetano, o espetáculo “Refavela”, uma mensagem sobre amor, paz e educação que transforma a vida de 150 crianças e jovens de oito comunidades do Rio (Rocinha, Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Mangueira, Chapéu-Mangueira, Babilônia, Borel e São Carlos).

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A escola forma bailarinos que partem para companhias internacionais (Foto: José Peres)

“A inspiração é o “Orfeu do Carnaval” (filme de Marcel Camus adaptado da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes), o sonho de uma menina apaixonada, em busca de afeto, amor. Uma das canções é “Por que você não vem morar comigo”, de Chico César. É um solo, um momento lindo, outra visão do cotidiano da comunidade. Temos alunas que não conseguem sair de casa para vir à escola, são obrigadas a faltar porque tem tiroteio, caveirão, cachorros na rua. Elas relatam isso”, diz Thereza, inspirada pela história de Vinicius que deu o que falar nos anos 50 ao apresentar Orfeu e Eurídice, personagens da mitologia grega, transportados para uma favela carioca.

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Catavento no telhado é obra do cartunista Nani (Foto: José Peres)

Mais de 60 anos após o sonho do poeta, a versão moderna de Eurídice ganha vida na pele da solista da companhia, Samara Mello. Nascida na comunidade do Cantagalo, entrou no projeto aos cinco anos e hoje viaja o mundo com a empresa de dança Tui Cruise. Samara já teve a oportunidade de cursar a Escola de Dança Maria Olenewa, do Theatro Municipal, o Ballet Stagium, em São Paulo, e, em dezembro, faz novo intercâmbio na Staatilicher Balletschule Berlin, na Alemanha, escola que tem convênio com a companhia fundada por Thereza.

“Hoje dizem que sou um espelho para as crianças que entram para o projeto e para minha própria família”, orgulha-se Samara.

São muitas histórias de superação vividas sobre as sapatilhas que ganham o mundo através do Dançando para não dançar. Após cinco anos de especialização na Staatliche Ballettschule Berlin, na antiga Alemanha Oriental, e trabalhar na Companhia de Ballet “Tanztheatre”, em Hamburgo, Thereza estudou mais três anos no Balé de Camaguey e no Balé Nacional de Cuba. Ao chegar ao Brasil, realizou o sonho de criar uma escola de dança. Em 1994, a diretora convocou, através das associações de moradores, crianças do Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo para formar a turma de balé. Vieram 250 pequenos candidatos para apenas 40 vagas.

“A arte e o esporte acolhem, viramos pai e mãe, somos muito presentes na vida deles. Esta escola é meu grande objetivo de vida. Após fechar a porta da sala, acabaram-se os problemas. É a hora de dançar e crescer ”, define Thereza, que hoje conta com apoio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro através da Secretaria Municipal de Cultura.

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Geraldo Azevedo é um dos apoiadores famosos da companhia, que atende cerca de 150 crianças de comunidades (Foto: José Peres)

Quando se viu sem o patrocínio da Petrobras, que financiou a companhia através da Lei Rouanet por 19 anos, Thereza encontrou parceiros na sociedade civil e nos padrinhos famosos, como o cineasta Walter Salles, para o projeto. Fez uma campanha pelo site, pedindo doações de R$ 30 mensais para formação dos alunos.

“O Waltinho me perguntou: ‘Quanto você precisa para acabar o ano?’. Fora todas as pessoas enviando doações”, emociona-se Thereza, que depois recebeu patrocínio da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, além do apoio de personalidades de várias áreas, como Ana Botafogo e Geraldo Azevedo. No projeto, as crianças têm a oportunidade de aprender guiadas por mestres, como Paulo Rodrigues, primeiro bailarino Theatro Municipal.

“Quando parei de dançar e a Thereza me convidou para dar aulas, eu me descobri educador, é uma outra vida. Sempre digo que eu que aprendo com as crianças, o projeto que me ajudou”, define Paulo, encantado com o trabalho de Samara e Gabriela Aguilar, filha de Thereza e herdeira de sua paixão pelas sapatilhas, como coreógrafas do espetáculo “Refavela”.

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Thereza comemora 24 anos de fundação do projeto (Foto: José Peres)

Professora de alemão no projeto, Gabriela, que também estudou balé e línguas na Alemanha, se encanta ao dar aulas para as crianças:

“Elas não têm vivência, no cotidiano, do balé profissional, então, ao chegar aqui, as referências são as professoras e bailarinas da companhia. É lindo”.

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SERVIÇO

REFAVELA Teatro João Caetano (Praça Tiradentes s/nº, Centro, Tel.: 2332-9257). Terça, às 19h. Entrada Gratuita



A escola forma bailarinos que partem para companhias internacionais
Catavento no telhado é obra do cartunista Nani
Geraldo Azevedo é um dos apoiadores famosos da companhia, que atende cerca de 150 crianças de comunidades
Thereza comemora 24 anos de fundação do projeto