Jornalista especializado em Moda pesquisa as referências filosóficas do vestuário

Para quem ainda encara a moda como manifestação de futilidade, um exagero consumista ou uma manifestação de ansiedade em relação às exigências de atualização da sociedade capitalista, o trabalho de um jornalista frequentador das primeiras filas das semanas de moda, pode mudar algumas opiniões.

O autor desta mudança é Tarcisio D’Almeida, professor de Moda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que defendeu ontem a tese “As roupas e o tempo: uma filosofia de moda”, no prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

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Final do desfile de Alta Costura em 2016 da dupla holandesa Viktor &Rolf, aliando a moda à arte (Foto: Divulgação)

Dos desfiles para a Filosofia

Desde os anos 1990, ao mesmo tempo em que exercia um jornalismo crítico durante as semanas de desfiles, sempre vestindo figurinos de vanguarda, Tarcisio discutia questões de Linguística e Filosofia, enquanto já completava os estudos de graduação em Letras, na Universidade Federal de Pernambuco.

“ Minhas paixões acadêmicas pela Linguística, pelo Jornalismo, pela Moda e pela Filosofia têm me alimentado intelectualmente no âmbito universitário como professor e pesquisador, assim como no âmbito do jornalismo crítico cobrindo desfiles. Estas paixões têm me instrumentalizado a pensar esse complexo fenômeno chamado moda e seus impactos nas sociedades durante séculos”, comenta Tarcisio, que já realizou a pesquisa de mestrado sobre o jornalismo de moda na ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP) e agora, para o doutorado, contou com a orientação de Olgária Matos, professora e doutora da universidade, que o conduziu para o pensamento filosófico da moda como produtora estética neste mundo de fetiches por mercadorias.

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Look do designer belga Nicolas Destino,capa da tese As roupas e o Tempo: uma filosofia de Moda (Foto: Divulgação)

Pioneirismo acadêmico

A USP registra o pioneirismo nos estudos de moda com a famosa tese “A moda no século dezenove”, de Gilda de Mello e Souza, defendida no departamento de Sociologia em 1950. A orientação do antropólogo Roger Bastide ajudou a quebrar o paradigma nas universidades brasileiras ao eleger a moda como tema de uma tese. Agora foi a vez de o departamento de Filosofia da mesma USP avaliar a primeira tese de doutorado que investiga quais pensadores produziram textos e conceitos sobre o vestuário. Desde a introdução sobre o Ethos da Moda, passando pela crítica baudelairiana até a moda e seus limites e entre Arte e mercadoria (um dos temas mais importantes do setor), o trabalho de Tarcisio D’Almeida foi avaliado pela banca composta por Marilena Chauí (Filosofia USP), Lilian Santiago (Filosofia Unifesp), Rosane Preciosa (Moda UFJF) e Suzana Avelar (Têxtil e Moda USP).

Quanto aos preconceitos contra a moda, Tarcisio lembra o medo de sair da zona de conforto da Academia. “Lidar com temas desta ultra especialidade parece ter se constituído como uma tradição nas universidades do mundo ocidental, assim como reflexo de uma leitura que posicionou a moda única e exclusivamente como objeto de consumo, que traduz apenas “frivolidade”, “efemeridade”, “futilidade”. Mas não podemos desconsiderar fatores de extremas relevâncias como a produção estética do ato criativo e as explicações históricas permitidas pelos estudos das indumentárias durante os séculos. Se resgatarmos o universo grego antigo, as pessoas sabiam conteúdos de Filosofia, de Física, de Matemática etc. Depois o universo da Academia estabeleceu as “ultra-especialidades”. Mas o importante é saber que a moda, por também ser um objeto de estudo multidisciplinar, pode se beneficiar dos rigores de todas as áreas do saber humano.

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Tarcisio DAlmeida no intervalo de desfiles, durante o Dragão Fashion, em Fortaleza (Foto: Thiago Bruno/Divulgação)

Referências e tendência

Estas duas palavras, tão típicas da moda, aparecem com bases intelectuais na tese defendida hoje em São Paulo. Em lugar das referências em cores e formas que normalmente definem as coleções, Tarcisio cita Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt, que também reuniu nomes como Herbert Marcuse e Theodor Adorno, estudiosos pioneiros da indústria cultural e da cultura de massa. Eles serão as bases da questão da gêneses da noção de gosto e das metamorfoses da moda na dimensão temporal sob os auspícios do mercado e do capital que transformam tudo em produtos descartáveis.

Quanto à tendência, depois de apresentar a tese e atingir o doutorado, Tarcisio pretende editar um livro para que o estudo saia da esfera da universidade e chegue a outros leitores. “Como continuidade de pesquisas, estou com um projeto de investigar as fronteiras da possível existência (ou não) de uma epistemologia da moda”, conclui o autor.

Para quem acha difícil saber a diferença entre um plissado e um godê, e sofre por ainda não entender o que é upcycling (reaproveitamento de materiais, que se transformam em peças de maior valor _ o contrário de downcycling), a pesquisa de Tarcisio d’Almeida traz uma qualidade a mais para o ato de escolher o que vestir. E deixa a esperança de um dia valorizarmos pela moda tanto a alegria da frivolidade como a efemeridade, renovadora da vida.



Final do desfile de Alta Costura em 2016 da dupla holandesa Viktor & Rolf, aliando a moda à arte
Look do designer belga Nicolas Destino,capa da tese As roupas e o Tempo: uma filosofia de Moda
Tarcisio DAlmeida no intervalo de desfiles, durante o Dragão Fashion, em Fortaleza