De volta aos cinemas com A voz do silêncio, Marieta Severo fala do desespero da classe artística com o possível fim dos fomentos

Paquetá, ilha que serviu de cenário ao romance “A moreninha”, terra de 4,1 habitantes (pelas contas do Censo), anda recebendo Marieta Severo com muita frequência. A esta hora, a atriz carioca de 72 anos - que encantou o Brasil na TV, por 14 anos a fio, como a Dona Nenê de “A grande família”; que iniciou a Retomada de nosso cinema em 1995, com “Carlota Joaquina”, e que deu aos palcos nacionais interpretações seminais em peças como “Roda viva” (1968), “No Natal a gente vem te buscar” (1980) e “Incêndios” (2012) – vai estar por lá, ostentando cabelos grisalhos, com um cinza de quem viveu a vida no limiar da luta. O visual é o da personagem que ela cria agora no projeto chamado “Noites de alface”, filmado em solo paquetaense.

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Marieta Severo (Foto: Nana Moraes/Divulgação)

Acabado o set, o viço de seu visual volta a ser o que era e ela tira férias. Se sentir falta do talento que ela depura desde 1965 – quando debutou no teatro fazendo “As feiticeiras de Salém”, de Arthur Miller, sob a régia de João Bethencourt, e emendou com “O labirinto”, de Arrabal, dirigida por Luiz Carlos Maciel – não se preocupe: a partir de hoje tem filme inédito dela nos cinemas de todo o país, o drama “A voz do silêncio”. O visual dela ali também tá mais envelhecido e mais doído do que o do perfil de Paquetá.

No longa-metragem de André Ristum, laureado no Festival de Gramado com os Kikitos de melhor direção e montagem, ela vive uma amargurada senhora que busca no álcool, nos programas de pastores eletrônicos da TV e no delírio uma forma de esquecer um erro do passado: a decisão de expulsar o filho (Arlindo Lopes) de casa, ao saber que o rapaz é HIV positivo. Seu drama vai cruzar com o de outros solitários numa São Paulo onde afeto é ruído. E isso num momento em que a arte brasileira agoniza em conflitos políticos relativos ao debate público sobre a possível extinção de dispositivos de fomento à cultura, como a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual. Na entrevista a seguir, Marieta solta o verbo, com indignação, e sabedoria.

JORNAL DO BRASIL: A que altura fala “A voz do silêncio” e que notícias ela traz para o Brasil?

MARIETA SEVERO: Fazer arte sempre me dá prazer, pelas consciências que a gente desperta. Sempre deu. Mas, agora, vivo um momento no país em que fazer arte me dá dor, muita dor, e não pelo ofício da arte em si, mas pelo desprezo com os artistas. O filme do André fala sobre os preconceitos que muita gente tem pelo outro: mas, neste caso, o preconceito é contra as próprias pessoas que o praticam. Pelo menos na minha personagem, uma mulher que botou o filho pra fora de casa... seu preconceito é contra ela mesmo. O André sempre me falava que ela tinha um traço de perturbação psicológica, o que me levou a estudar a dra. Nise da Silveira e usá-la para compor uma pessoa que chafurdou na culpa, que delira. Delira, pois a ficção salva. Ou, no mínimo, atenua a dor. 

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No longa inédito de André Ristum, Marieta Severo interpreta uma senhora perturbada por um erro do passado (Foto: Divulgação)

Mais uma vez você se associa à ideia da maternidade. Digo “mais uma” porque, na TV, de 2001 a 2014, você foi “a” mãe do Brasil, na pele da Dona Nenê, de “A grande família”. E teve a mãe do Cazuza, no sucesso de 2004, a mãe do premiado “Vendo ou alugo” (2013). O que essas mães te ensinam sobre a condição feminina, sobre a sua própria condição de mãe?

Ser mãe é uma opção: há mulheres que optam por isso; outras, não; e cada uma é feliz a seu modo, cada uma tem seu caminho. Pra quem optou por ser mãe, como eu fiz, a maternidade revela à mulher uma condição curiosa: é o único caso em que o outro é mais importante do que você. Se você é mãe, o bem das filhas ou filhos é sempre a sua prioridade. É incondicional. Eu fiz a escolha de ser mãe. E, nessa escolha, vivi a experiência maior da minha vida. Eu nunca pensei essas mães todas que interpretei como um bloco, mas, de fato, a ficção me escolhe, com recorrência, para ocupar esse lugar, ainda que eu não saiba o porquê. Cada personagem abre novos espaços de conhecimento para uma atriz, até mesmo espaços de autoconhecimento. É claro que, de alguma forma, essas descobertas me afetam, inclusive na maternidade, pois, a cada papel desses, eu mergulho em territórios distintos do meu. Mas não necessariamente esse afetar passa pelo afeto.

Qual é o afeto possível neste momento do que você chama de “desprezo pelos artistas”? O que você vê hoje nesse cenário político em relação à arte?

Passei os últimos 53 anos, tempo que tenho de profissão, acreditando na ideia de que aquilo que eu faço é importante, carregando um sentimento que vem desde a juventude, ligado à importância de falar o que precisa ser ouvido. Eu tinha confiança de que isso fazia diferença. Agora, ao ver que estão colocando os artistas no lugar de bandidos, no lugar de gente que se aproveita das leis de incentivo à cultura, parece que tudo em que eu acreditava deixou de ser verdade. Nem na ditadura militar, em 1960 e 70, quando a gente lutava contra a censura, eu vi algo assim.

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Durante anos, Marieta Severo e Marco Nanini brilharam na TV como Dona Nenê e Lineu em "A grande família" (Foto: Rede Globo/Divulgação)

Qual é o ataque que se faz a arte?

É uma ideia de que, se as leis forem tiradas, os ditos “artistas de esquerda” serão afetados. Mas quem defende isso não percebe que serão afetados os museus, nossas grandes orquestras, os grandes musicais... tudo vai sofrer e a gente vai retroceder a um tempo de escassez, tipo como foi o início dos anos 1990, em que a produção nacional do cinema foi reduzida a um filme por ano. A questão que se levanta aí é: o que a arte significa para um país como o nosso?

O que você acha que complica a percepção popular acerca das leis de fomento?

Eu sinto que houve algo de intencional em uma série de informações truncadas, disseminadas com o propósito de questionar a classe artística por suas posições políticas. A Lei Rouanet, por exemplo... você pode colocá-la em debate, sem problema algum. Tudo o que se cria pode e deve ser questionado, desde que maneira democrática. Toda criação humana comporta reajustes. Aliás, já havia, há tempos, um movimento entre os artistas de se reajustar o fato de a decisão dos fomentos se limitar aos departamentos de marketing das empresas. Questionar é válido, criminalizar sem conhecer, não. Estão criminalizando a permanência dessas leis, que viabilizaram muita coisa. Graças às leis, a cultura foi mantida. É lógico que quem usou ou usa a lei de modo errado deve ser punido. Mas por que punir quem usa a lei do jeito certo?

A militância pela arte sempre caminhou junto com o trabalho na sua vida, não apenas em sua defesa das artes cênicas à frente do Teatro Poeira, mas também na televisão. Você sai de uma novela de popularidade e êxito de Ibope nacional como “O outro lado do paraíso”, de Walcyr Carrasco, mestre do melodrama, para um filme intimista como “A voz do silêncio”, que, nas raias do minimalismo, investe em dilemas existenciais. Ali temos o Brasil do drama, não o do folhetim. O que esse trabalho do Ristum revela sobre a potência do drama?

O que me toca nesse filme é a carga de humanidade que ele carrega na forma de personagens nossos, ou seja, brasileiros, numa cidade nossa, que é São Paulo. Ela, a metrópole, é uma personagem de enorme espaço no roteiro, cheia de pessoas que não conseguem fazer parte dela de maneira harmônica. A maneira como ele cruza essas narrativas, com delicadeza, é o que fica de mais lírico.

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Atriz contracena com Daniel de Oliveira no filme "Cazuza" (Foto: Divulgação)

O que é “Noites de alface”, que você roda agora em Paquetá?

É um daqueles roteiros que, como o filme do Ristum, deixam na gente um desejo de querer ajudar a contar sua história. É um filme sobre a necessidade da ficção dentro de uma vida, sob o ponto de vista de um homem que perdeu sua mulher. Eu sou essa mulher que se vai, mas fica na memória. O viúvo é o Everaldo Pontes e ele é “o cara”... que ator! Tudo vem de um romance da Vanessa Bárbara filmado pelo Zeca Ferreira de maneira doce, lúdica.

E depois dele, vem teatro?

Depois eu preciso de férias, preciso me recolher, e não apenas por vir de uma batida de projetos, em que ainda rodei o longa “Aos nossos filhos”, com direção da atriz portuguesa Maria de Medeiros (sobre uma revolucionária às voltas com a decisão da filha, homossexual, de ter um bebê). A questão é que a vida anda muito difícil pra quem é artista. O Brasil anda avassalador.

Diante de um filme que se chama “A voz do silêncio” e diante de todo o barulho moral em que vivemos, qual é o papel do silêncio como ferramenta dramática para atuar?

É no silêncio que se manifesta todo o conteúdo de um personagem, desde que você, atriz, esteja devidamente preenchida de tudo o que esta figura ficcional tem. Ciente da riqueza psicológica de um personagem, a chance de um ator mergulhar no que tem de mais profundo é enorme. Agora, se feito sem consciência, o silêncio é nada.

*Roteirista e crítico de cinema



Marieta Severo
No longa inédito de André Ristum, Marieta Severo interpreta uma senhora perturbada por um erro do passado
Durante anos, Marieta Severo e Marco Nanini brilharam na TV como Dona Nenê e Lineu em "A grande família"
Atriz contracena com Daniel de Oliveira no filme "Cazuza"