Na Baixa do Sapateiro: Individual do artista plástico baiano Tiago SantAna resgata o imaginário do povo negro no pós-abolição

A noção de cidadania repousa sobre pés livres, porém calçados. Quando os escravos foram libertados, em 13 de maior de 1888, a população negra adotou os sapatos como um símbolo da realidade pós-abolição, algo que igualaria os homens e mulheres pretos aos homens e mulheres brancos, um objeto do desejo que carregava consigo toda a utopia de um Brasil sem diferenças, multirracial. O artista plástico baiano Tiago Sant’Ana inaugura, no próximo sábado, na Simone Cadinelli Arte Contemporânea a individual “Baixa dos sapateiros”, uma exposição que tem nos calçados seu pé de apoio.

Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Sant’Ana imprime suas raízes na maioria de seus trabalhos sejam eles de natureza visual ou performática. O nome da exposição remete à região de Salvador, que ganhou esse por ser o local onde iam para confeccionar seus sapatos. “Era uma geografia que, simbolicamente, envolvia uma expectativa por essa promessa de cidadania para as pessoas negras, algo que nunca chegou completamente até hoje”, explica o artista.

Macaque in the trees
Na exposição, a combinação entre sapatos e açúcar sintetiza os sonhos de liberdade e cidadania (Foto: Divulgação)

Açúcar como referência

Um dos pontos altos da exposição são as esculturas com sapatos de açúcar cristal – um paralelo de feliz sintonia com o sistema de exploração da mão de obra africana durante o ciclo da cana-de-açúcar e a chegada de muitos engenhos na região do Recôncavo. “O açúcar aparece com recorrência em meus trabalhos como uma tática de aproximar o debate sobre colonização com a atualidade, sobretudo para de falar sobre racismo e a violência contra a população negra”, reforça Sant’Ana, um dos artistas indicados ao Prêmio PIPA 2018.

Clarissa Diniz é responsável pela curadoria da individual, que conta com vídeo, fotografias, objetos e instalações em torno do tema. Como parte da exposição, estão programados também eventos como visitas guiadas, workshops e performances envolvendo o artista baiano, que desenvolve pesquisas em perforance e seus possíveis desdobramentos desde 2009. Seus trabalhos como artista imergem nas tensões e representações das identidades afro-brasileiras – tendo influência das perspectivas decoloniais

Em 15 de dezembro, será realizada uma visita guiada e conversa na galeria com Sant’Ana e a curadora. Nos dias 14 e 15 de janeiro, o artista vai ministrar o workshop “A performance negra nas artes visuais do Brasil”. A proposta é abordar a linguagem da performance e seus intercâmbios estéticos com as poéticas negras. Durante os dois dias, Sant’Ana vai traçar um panorama sobre a história da arte da performance, além de discutir conceitos de arte afrobrasileira e arte negra, debatendo também os cruzamentos conceituais entre performance e a questão da negritude no Brasil. A performance será no dia 16 de janeiro.

Macaque in the trees
Na exposição, a combinação entre sapatos e açúcar sintetiza os sonhos de liberdade e cidadania (Foto: Divulgação)

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SERVIÇO

“BAIXAS DO SAPATEIRO” - TIAGO SANT’ANA

Simone Cadinelli Arte Contemporânea (Rua Aníbal de Mendonça, 171, Ipanema; Tel: 3496-6821) - Abertura: 24/11 às 18h - De 26/11 a 13/2 - seg. a sex., das 10h às 19h; sáb, das 11h às 15h - Entrada franca.



Na exposição, a combinação entre sapatos e açúcar sintetiza os sonhos de liberdade e cidadania
Na exposição, a combinação entre sapatos e açúcar sintetiza os sonhos de liberdade e cidadania