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Depois de musical no teatro e especial na TV, a vida de Chacrinha chega às telas mostrando a complicada personalidade do apresentador

Fotos: Suzanna Tierrie/Divulgação -
Stepan Nercessian no papel de Chacrinha: o ator teve uma convivência rápida com o apresentador e já o encarnou no teatro, TV e, agora, no cinema
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Muito se conhece de Chacrinha, o espalhafatoso e pioneiro apresentador de programas de auditório de rádio e TV entre os anos 1940 e 1980. Mas sobre José Abelardo Barbosa de Medeiros, quase nada. É essa lacuna que o filme “Chacrinha: O Velho Guerreiro” chega para preencher: a história do jovem pernambucano que veio tentar a sorte no Rio e acabou se transformando em um maiores fenômenos de comunicação do Brasil. O longa dirigido por Andrucha Waddington não poupa detalhes de sua controversa personalidade. “Não poderia fazer um filme chapa branca, era preciso mostrar todas as suas idiossincrasias. Ele é o maior ícone pop do Brasil do século XX, inventou uma maneira de fazer rádio e TV que até hoje inspira programas de auditório”, diz Andrucha.

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Stepan Nercessian no papel de Chacrinha: o ator teve uma convivência rápida com o apresentador e já o encarnou no teatro, TV e, agora, no cinema (Foto: Fotos: Suzanna Tierrie/Divulgação)

Depois do sucesso do musical, que estreou nos teatros em 2014, e do especial “Chacrinha, o eterno Guerreiro”, exibido em 2017 na TV Globo, o ator Stepan Nercessian volta ao papel do comunicador. “É curioso como o personagem funcionou bem nessas três situações. No teatro, eu ficava duas horas vestido de Chacrinha. No filme foi marcante a passagem do Abelardo para o Chacrinha, conseguimos dar uma humanização profunda, mostrando o lado do homem e do profissional e seus problemas”, diz Stepan, que lembra de ter participado uma vez do “Cassino do Chacrinha” como jurado. “Eu o cumprimentava pelos corredores, o conheci superficialmente. Mas sempre fui muito fã, eu o via como um elo importante dentro de todas aquelas mudanças que vivíamos na época, fora da caretice do status quo. Era um revolucionário”, opina.

Diretor tanto do musical quanto do filme, Andrucha destaca as linguagens distintas com que trabalhou: “O musical foi uma experiencia mais sensorial, com muita música, dança e pouco diálogo, onde abordamos da infância à morte, em 1988. Na cinebiografia, a opção foi pela vida profissional, indo de 1939, quando chegou no Rio, até 1982, com seu retorno para a TV Globo”.

A primeira cena do filme é a briga de Chacrinha com Boni (Thelmo Fernandes) - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o poderoso da programação global -, quando o apresentador “rouba” uma atração de gosto duvidoso do programa de Flávio Cavalcanti (Marcelo Serrado), seu principal rival na época, e Boni corta a transmissão. Furioso, Chacrinha abandona a Globo e vai para a TV Tupi. “O Boni foi seu antagonista e, ao mesmo tempo, uma grande amizade”, diz Andrucha, que destaca a ajuda o ex-executivo durante a produção. “Não há registros dos programas de rádio do Chacrinha dos anos 1950, tudo veio pela memória do Boni”, conta.

As cenas dos programas, tanto “Buzina”, “Discoteca” e “Cassino”, contam com algumas participações de artistas renomados que, certamente, se divertiram fazendo calouros: Antonio Zambuja, Criolo e Luan Santana foram alguns deles. “Foi uma forma de trazer a música de hoje em dia para o filme. Afinal, Chacrinha era eclético, cabia de tudo em seus programas”, justifica Andrucha. 

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Com humor, o jovem Abelardo Barbosa, vivido por Eduardo Sterblitch, revolucionou os programas de auditório (Foto: Fotos: Suzanna Tierrie/Divulgação)

Interpretação em dupla

Se Stepan Nercessian já estava com o personagem incorporado quando começaram as filmagens, Eduardo Sterblitch conta que ficou com medo quando o diretor Andrucha Waddington o convidou para viver o jovem Aberlado. “Eu tinha muito menos referências, nunca tive noção da figura que ele foi como pessoa”, conta o ator.

Para manter a harmonia entre as duas fases do personagem, os atores trabalharam em conjunto. “Pedi para o Stepan ler as cenas do Edu e vice-versa. Foi um trabalho primoroso”, elogia o diretor. “Eu lia as falas dele, ele gravava e assistia para pegar o jeito de falar e andar. Eu tentei passar para o Edu todo o sentimento do Chacrinha. Eu mesmo fui pelo caminho da compreensão e não da imitação: desde o início tive a consciência que deveria ficar a serviço do Chacrinha e, para isso, me anulei ao máximo”, diz Stepan.

Perfeccionista a ponto de negligenciar a família por causa do trabalho, teimoso, briguento e oportunista. Nada negativo da personalidade de Abelardo é amenizado no longa, como na cena em que humilha um calouro com suas temidas buzinadas e corre para avisar ao produtor que o quer de volta “porque o povo gosta é de calouro ruim”. Ou quando o dono da Casas da Banha, patrocinador do programa, diz que precisava vender um grande estoque de bacalhau e não sabia como e Chacrinha diz para ele mandar alguns. “Mas você vai jogar bacalhau nas pessoas?”, indaga, surpreso. “Eu já joguei lata, mas cortou a testa de um e por isso não posso mais”, responde como se fosse a coisa mais sem importância do mundo. “Poucos personagens me deram essas emoções tão diferentes. Ele era bipolar e tinha um senso de humor mesmo sem fazer graça nenhuma. Vivia em constante enfrentamento, fosse na vida profissional, fosse na pessoal”, diz Stepan.

Em outro momento, o filme mostra as caravanas que o apresentador fazia com as chacretes pelo interior. Numa dessas, passa mal e é hospitalizado mas, mesmo assim, briga com o filho por ter cancelado as apresentações que restavam da turnê. “Ele era workaholic e parecia ter um destino traçado. Um guerreiro brasileiro, que apanha e segue em frente, mas sempre com a visão e o jeito dele”, completa Eduardo.

Algumas passagens da vida pessoal de Chacrinha praticamente desconhecidas do grande público também estão no filme, como seu suposto affair com a cantora Clara Nunes (Laila Garin), situação tratada de forma discreta. “O que houve ali, o filme deixa para o espectador definir. Era uma admiração mútua”, opina Stepan. O sofrimento com o acidente com o filho Nanato, as relações conflituosas com seu produtor Oswaldo e com a mulher Florinda são outras questões abordadas no longa. Se os aspectos negativos da personalidadde de Chacrinha eram muitos, parecem que só ajudaram a impulsionar o sucesso de um profissional visionário e pioneiro da rádio e da TV.

Fotos: Suzanna Tierrie/Divulgação - Com humor, o jovem Abelardo Barbosa, vivido por Eduardo Sterblitch, revolucionou os programas de auditório