Ecos do além

Morto não fala consagra Dennison Ramalho como artesão nacional do horror

Disfarçados na assombrosa forma de cadáveres falantes, o sexismo, a violência do tráfico e a impunidade - males ainda inerentes à realidade nacional - são os fantasmas mais assustadores de “Morto não fala”, uma alegoria sobre as falências morais do Brasil que, de julho até agora, já passou por cerca de dez festivais internacionais, sendo aclamado por público e crítica. Sitges, festival espanhol que cultua o terror, aplaudiu com o ardor essa reflexão social mascarada na forma alegórica do sobrenatural. Seu realizador é Dennison Ramalho, cineasta de 44 anos, nascido em São Caetano (SP), mas criado no Rio Grande do Sul, entre 1982 e 2000. Em sua passagem pelo Fantasia Festival, em Montreal, ele conquistou o Prêmio Especial do Júri, que justificou a láurea com o texto: “Casamento é o inferno nesta combinação de subgêneros e tons, criando uma história de fantasma original, alimentada pelo instinto da vingança, carregada de humor negro e de pedaços de corpos caídos”. No BFI-London Film Festival, os espectadores fechavam os olhos cada vez que um funcionário do necrotério de São Paulo dotado de vidência, Stênio (Daniel de Oliveira, em uma devastadora atuação), enfia os pés no lodaçal da danação eterna.

Realizador de curtas-metragens cultuados no exterior como “Amor só de mãe” (2003) e “Ninjas” (2010), Dennison demorou a estrear nos longas, mas o fez agora com um impacto que muitas produções autorais da América Latina sonhariam ter. No dia 5 de novembro, ele tenta a sorte na disputa pelo troféu Redentor da Première Brasil do Festival do Rio. Na sequência, vai brigar pelos prêmios do Rio Fantastik. Todos querem seu “Morto não fala”, que contradiz o próprio título com a sina de seu protagonista: Stênio tem a habilidade de ouvir as vozes de espíritos que acabaram de “fazer a passagem” para o outro lado da vida. Ao saber que sua mulher, Odete (Fabiula Nascimento), é infiel, ele decide se vingar. Aproveita uma dica de um “defunto” para colocá-la na mira de bandidos implacáveis. Mas seu plano terá consequências malévolas, uma vez que o espectro de Odete não quer se desapegar de sua casa, nem de seus filhos. Pelo menos não até que Stênio pague e sangre. Na entrevista a seguir, Dennison faz um balanço do atual boom do terror no país.

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Morto não fala" obteve calorosa recepção ao ser exibido ara a plateia do BFI-London Film Festival (Foto: fotos divulgação)

JORNAL DO BRASIL - Seu filme, que já correu dez dos maiores festivais de gênero do mundo, adota como elo com o sobrenatural a figura do fantasma, na forma de cadáveres que falam. Há algo de “Poltergeist, o fenômeno” nessa representação, para citar um clássico do horror. O que são essas almas penadas de “Morto não fala”?

DENNISON RAMALHO - Eu parti de um conto homônimo do jornalista Marco de Castro, mas é curioso você citar o “Poltergeist”, porque eu me referenciei muito nele ao escrever o roteiro. Há tempos, travo conversas com pessoas ligadas à magia negra ou aos folclores acerca de espíritos obsessores que não se vão. Quis abordar essa questão do espírito com contas a acertar para entrar nesse terreno do pós-morte, ligado ao medo do que possa estar do lado de lá. Mas há no filme uma dimensão social, de retratar a violência das ruas. Tem algo do cineasta George Romero, em especial do filme dele “Martin” (produção de 1978 sobre um rapaz que bebe sangue), que me atrai: o fato de ele ambientar histórias de terror em universos meio suburbanos, da periferia das metrópoles.

Qual é o lugar do heroísmo no terror que você faz em “Morto não fala”?

Heróis são protagonistas mistificados. Eu quero é desmistificar os meus personagens e levar o público a se reconhecer neles. Eles são pessoas comuns. Isso diminui as possíveis distâncias que ainda podem existir entre o terror, como gênero, e a plateia. Stênio, o personagem do Daniel de Oliveira, cai na jornada de horrores narrada no longa não por fazer o bem, mas porque tomou uma decisão estúpida, machista, arcaica, o que joga uma maldição sobre seus filhos.

O que se passa de mais significativo com o terror hoje no Brasil?

Ele nunca esteve tão forte e nunca foi tão diversificado em nossas telas. Você tem desde filmes mais brejeiros como os do (capixaba) Rodrigo Aragão até um terror que não passa pelo sobrenatural, como a obra da (baiana radicada em São Paulo) Gabriela Amaral Almeida. Nesse meio, você ainda tem o Paulo Biscaia, que dialoga com a exploitation, e um cara de múltiplos gêneros como Andrucha Waddington, que flerta com o Além em “O juízo”. E tem um cara como eu, que conversa com o cinema estrangeiro influenciado por “O exorcista”, por George Romero e até por James Wan (diretor de “Jogos mortais” e “Invocação do Mal”). Há hoje no Brasil filmes de terror com mais humor, filmes trágicos, filmes que conseguem uma carreira forte lá fora. Em comum, há o fato de que estamos todos enfrentando as dificuldades para se fazer cinema neste país, tentando buscar uma assinatura estética pessoal dentro do gênero.

Onde entra o José Mojica Marins, o Zé do Caixão, nessa evolução do terror?

Mojica é o que eu quero ser quando crescer. Fui assistente dele em “Encarnação do Demônio”. Sabe quando eu falava da dimensão urbana... ou até mesmo suburbana... do mundo do Romero em “Martin”? Já havia algo assim em “O despertar da Besta”, do Mojica, na maneira como ele retrata o pesadelo urbano de São Paulo. É um mestre.

Como é que o terror dialoga com as questões religiosas, inerentes à identidade brasileira?

Falar do sobrenatural num lugar como o Brasil envolve encarar o lugar da fé em nossa identidade. Seria covarde não se referir à religião, mas, no meu cinema, ela entra como um comentário social. Eu tento mostrar como o fanatismo cega e enfraquece as pessoas. No fundamentalismo religioso, as pessoas se sentem empoderadas, mas estão fracas.

Você assume o rótulo de gore, característico de filmes de terror onde a degradação física é explícita, em jorros de sangue, em apodrecimentos de carnes e peles?

Ele é gore por preferência consciente, pois eu gosto de filmes que retratam a destruição do corpo.

Hoje acolhido nos grandes festivais do mundo, o terror passou anos relegado a mostras paralelas, impedido de concorrer a prêmios, esnobado pelo Oscar. O que justificaria esse preconceito que ainda circunda o gênero?

Quem é fã de horror tem uma coisa masoquista de querer assistir a coisas cada vez mais desafiadores. O terror é para os fortes, não é um filão unânime. Mesmo quando você investe no filão para gerar um produto mais sofisticado, pode esbarrar com a indiferença ao que o gênero aborda. A rejeição ao horror tem a ver com o fato de o gênero tocar em assuntos indigestos, como finitude e decadência de corpo e alma, em abordagens sensacionalistas, ora lúdicas, ora brutais. Isso incomoda.

Um cineasta em especial, o americano John Carpenter - realizador de “Halloween”, cult há 40 anos – hoje é apontado como inspiração para alguns dos maiores diretores do mundo e tem sua obra homenageada em festivais como os de Veneza, de Londres, de Toronto. O que justifica essa revisão e o que Carpenter simboliza para você?

“O enigma do outro mundo” e, em especial, “À beira da loucura”, que considero a melhor adaptação da prosa de horror de H.P. Lovecraft sem passar oficialmente por Lovecraft, são os filmes dele de que mais gosto. O tempo romantiza tudo. Romantizou Carpenter, que é um autor comercial. O que acontece com ele é que novos programadores, mais jovens, estão entrando para a curadoria destes grandes festivais. E os jovens cresceram vendo o que era considerado underground.

*Roteirista e crítico de cinema

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