Pitty mistura músicas novas a clássicos na Fundição e público sai de alma lavada

Poucas vezes a Fundição Progresso viu artista e público tão integrados como no último sábado, durante a abertura carioca da turnê “Matriz”, volta de Pitty aos palcos após dois anos. Cerca de cinco mil fãs curtiram duas horas de um show pesado e potente, em que a cantora admiravelmente chipou novidades entre os vácuos deixados por sucessos que levavam a galera ao êxtase.

Ver um show de Pitty traz a certeza de que o único fator permanente na trajetória da cantora é a mudança. Celebrando 15 anos de uma carreira consolidada, mas sempre aberta ao inusitado, a diva trocou, por exemplo, a modernidade do último cenário tecnológico pela simplicidade de um clima intimista.

O delírio coletivo teve início por volta de uma da manhã, quando os primeiros acordes de “Admirável chip novo” ressonaram. E se a música suscita “Leia, vote, não se esqueça”, a plateia se desconfigurou. Em pane no sistema, pronunciou em uníssono a hashtag “Ele não”, enquanto os braços firmes da roqueira microfonavam o coro histérico do eclético público.

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Pitty celebra 15 anos de carreira junto ao público carioca com o o show da turnê "Matriz" (Foto: Luiz Franco/Divulgação)

Primeira novidade aprovada com louvor, “Te conecta”, pegada reggae que há meses é fenômeno na internet, foi o futuro hit presenteado à massa. Mas havia outros brindes. Vestida de sensualidade até na elegância de se sentar, trocou carinhos com o marido baterista, pai de sua filha Madalena. Hora boa para um set acústico. Sem esquecer as raízes convidou o público para um rolê no seu “quartinho em Salvador”. À vontade, juntou ao dela outros dois violões e dedilhou “Teto de vidro”. “Nunca pensei que tocaria um dia assim, ao vivo”, vibrou.

Não adiantaria nem procurá-la em outros timbres ou outros risos quando, aproveitando cada segundo, iniciou “Na sua estante”. Pouco depois, o momento mais marcante. Público de pé em “Me adora”, parceria dela com Jota Quest. Pitty precisou esconder as lágrimas ao visualizar a plateia, em transe, batendo palmas e cantando à capela, todo mundo a admitir que a adora, que a acha forte. “Das mais lindas cenas que já vi no Rio. Tive momentos inesquecíveis nessa cidade, este foi um deles”.

Seu rock renovado e maduro seguiu sem deixar nada para semana que vem. Comandando a plateia com maestria, a roqueira perguntou se aceitavam inéditas. Claro. “Controle remoto” mostrou influências de punk rock. Depois, homenageou Elza Soares com “Na pele”. Logo, trinca de grandes vozes com Emmily Barreto, vocalista do grupo potiguar Far From Alaska, e Tânia Reis, em “Contramão” e numa versão de “Feeling good”, de Nina Simone. “Máscara”, sucesso que a fez explodir no cenário nacional, traria de volta as duas convidadas ao palco.

Até parece que a cantora já tinha o manual de instruções do público. Afinal, antecedendo o bis, riffs de Led Zeppelin, Nirvana e Red Hot introduziram “Equalize”. Guardando “Pulsos” para o final, Pitty viu o público dar piti por “Memórias” ter sido esquecida. Contudo, o mantra “Serpente” proporcionou o grand finale. Com gosto de quero mais, todos deixaram a casa de show, às três da manhã, debaixo de chuva torrencial, de alma duplamente lavada. *Jornalista e escritor

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