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Após cirurgia, Elvis Costello encerra jejum de estúdio e lança Look now

Jornal do Brasil AFFONSO NUNES, affonso.nunes@jb.com.br

Longe dos estúdios desde seu álbum colaborativo com The Roots (“Wise up ghost”, 2013), o cantor e compositor britânico Elvis Costello juntou-se a The Imposters para lançar “Look now”. A última reunião em estúdio com os músicos Steve Nieve (teclados), Davey Faragher (baixo) e Pete Thomas (bateria) com quem toca frequentemente ao vivo, fora “Momofuku”, de 2008. Compositor e arranjador meticuloso, Costello estava angustiado em não conseguir transpor para o CD a atmosfera dos shows que promove com a banda. Após a turnê americana “Imperial Bedroom & Other Chambers”, no verão passado, ele assumiu o compromisso de quitar essa dívida. “Sabia que se pudéssemos fazer um álbum com o escopo de ‘Imperial Bedroom’ e um pouco da beleza e emoção de ‘Painted from memory’, teríamos realmente algo a celebrar”, comenta, referindo-se aos álbuns de 1982 e 1998, expressivos em sua carreira marcada por atitude e lirismo.

Gravado em Hollywood e Nova York (EUA); e Vancouver e Columbia Britânica (Canadá), “Look now” é um trabalho simples, tocante e repleto do lirismo que Costello abraçou nos últimos anos. A maioria das 12 canções é assinada pelo britânico, com exceção de “Don’t look now” e “Photographs can lie”, parcerias com Burt Bacharach, que participa nas duas faixas além de tocar teclados em “He given me things”. E a outra parceria do álbum é “Burnt sugar is so bitter”, escrita com Carole King em 1995, canção bastante executada ao vivo mas nunca registrada em estúdio. Nesta versão, um naipe de sopros serpenteia ao redor dos teclados do “impostor” Steve Nieve.

Macaque in the trees
Elvis Costello (Foto: Divulgação)

Em entrevista recente, Costello derreteu-se em elogios à “nova” parceira, para quem disse que gostaria de compor com frequência maior. “Quando eu tinha 17 anos, em 1971, um dos shows mais memoráveis que vi foi com você, James Taylor, e Joni Mitchell”, disse para Carole King, durante encontro que o “New York Times” promoveu semana passada entre os dois.

Na mesma entrevista, confessou que jamais pensou em cantar. “Meu modelo foi Robbie Robertson, mas eu não consegui encontrar um intérprete. Então fui forçado a cantar. Se eu tivesse aparecido no tempo de Carole, digo a mim mesmo que não seria um artista, o que, para muita gente, teria sido um alívio, porque eles não teriam que me ouvir cantar”, brinca o cantor, que acaba de se recuperar de uma cirurgia para retirar um câncer que o levou a cancelar seis shows na Europa em julho.

Co-produzido por Elvis e Sebastian Krys - o produtor de Grammy Latino do Ano de 2007 e 2015, “Look now” mudou a forma do artista pensar seus álbuns. “Desta vez eu tinha todas as orquestrações e partes vocais na minha cabeça ou na partitura antes de tocarmos uma nota sequer”, comenta o compositor, destacando a colaboração de Krys no projeto. “Sebastian estava lá para garantir que apenas as notas essenciais entrassem no disco, fosse uma guitarra de tom de fuzz ou fagote de jazz”, afirma. “Na mixagem final, ele fez um belo trabalho de manter tudo presente, mas sempre conduzido por emoção”, completa.

Nascido Declan Patrick MacManus, Elvis Costello é uma biblioteca musical com uma carreira das mais ecléticas. Seu nome artístico é a junção do nome de Elvis Presley com o sobrenome usado por seu pai, Day Costello, ex-vocalista da banda de Joe Loss, que fez sucesso no Reino Unido anos 1960. Fisicamente, porém, Elvis lembra mais o roqueiro Buddy Holly, muito em função dos óculos de armação grossa que viraram marca registrada.

Foi um artista atuante na cena do rock inglês dos anos 1970, mas deslanchou durante a revolução punk/ new wave. Embora sua sonoridade fosse menos explosiva que a de bandas ícones do movimento, como Sex Pistols e The Clash, conseguiu se destacar com sua poesia e atitude. Com o declínio do movimento, Costello sentiu-se livre para explorar e expandir suas fronteiras musicais. E desde então, o cantor, guitarrista, tecladista e compositor criou para rock, blues, jazz, folk e country.

Em 1998, voltou a inovar gravando “Painted for memory” com Burt Bacharach, mestre em compor temas para filmes. E da sua relação com o cinema nasceu seu maior sucesso, “She”, tema principal de “Um lugar chamado Notting Hill” e eternizada na voz de Charles Aznavour. Apareceu também em diversos filmes, algumas vezes como ele mesmo (“Austin Powers - O agente Bond cama”, “De-Lovely - Vida e amores de Cole Porter” e “Delírios”), além de ter estrelado um talk show musical entre 2018 e 2010 - exibido no Brasil pela HBO - e participado como convidado em séries como “3rd Rock from the sun” e “Saturday Night Live”.

Suas gravações mais célebres incluem “This year’s model”, “Imperial bedroom”, “King of America”, “Blood and chocolate”, “Spike”, “All this useless beauty”, “When I was cruel”, “North” e “The delivery man”.

Além da elogiadíssima parceria com Bacharach, fez trabalhos conjuntos com Paul McCartney, The Brodsky Quartet, com a cantora lírica Anne Sofie von Otter, o guitarrista Bill Frisell e The Charles Mingus Orchestra, entre outros. Durante sua carreira, recebeu inúmeros prêmios, sendo o mais expressivo sua inclusão no Hall da Fama do Rock em 2003.

 



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