Todos os samurais de Kurosawsa

Cinemateca do MAM exibe mostra com sete títulos do cineasta japonês, com entrada franca

Lá se vão duas décadas desde que o homem que abriu as portas do cinema japonês para o Ocidente se foi: em 6 de setembro de 1998, morreu Akira Kurosawa, o cineasta que transpôs o onirismo para as telas. Sua vasta obra, em sua maioria ligada a dilemas morais, ainda é uma poderosa referência em narrativa épica. Nos primórdios da carreira, era apelidado de “homem vento”, pela leveza que imprimia em seus planos, mesmo os mais violentos, e, recentemente, de “imperador”, pelo tom professoral com que conduzia os sets. De hoje ao dia 21, o público tem a felicidade de se reencontrar com a obra do velho mestre, com cópias restauradas, na mostra “O imperador e seu legado samurai”, promovida, com entrada franca, pela Cinemateca do Mudeu de Arte Moderna e pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), com a curadoria das duas instituições.

“Tenho a sensação de que todos os meus filmes tratam do mesmo tema”, disse, certa vez, o aclamado diretor, em entrevista ao especialista em cultura japonesa Donald Richie. “Se eu fosse buscar esse tema, eu diria que é uma pergunta: “Porque os seres humanos têm tanta dificuldade de serem mais felizes quando estão juntos? Por que pessoas precisam de mentiras para parecerem melhores do que de fato são”.

A semana Kurosawa começa com “Rashomon”, filme ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza 1951, iniciando a consagração internacional do cineasta tanto pela crítica quanto pelo público. Dos 31 títulos da filmografia do diretor, a curadoria fez um recorte do período samurai oferecendo as diferentes leituras que ele fez dos guerreiros do Japão feudal que até hoje povoam o imaginário da nação. Foram incluídos o thriller medieval “Sanjuro” (1962); “A fortaleza escondida”, com o qual Kurosawa ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim, em 1959; e seu maior maior sucesso, “Os sete samurais”, ganhador do Leão de Prata em Veneza, em 1954, e indicado aos prêmios Oscar de direção de arte e figurino.

Para encerrar a maratona, “Mandadayo” (1993), a obra derradeira do cineasta. Saudada pela crítica como o canto do cisne de Kurosawa, em que katanas (espada samurai) ensanguentadas dão lugar a uma história real, a vida do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos lecionando literatura alemã para se tornar escritor. As comparações com o diretor e sua trajetória são inevitáveis. É quase uma carta-testamento ou uma metáfora de vida.

“Com um bom roteiro, um bom diretor pode produzir uma obra de arte. Com o mesmo roteiro, um diretor medíocre pode produzir um filme aturável. Mas, com um roteiro ruim, nem um bom diretor consegue fazer um filme digno. Para que se realize, na tela, uma expressão verdadeiramente cinematográfica, a câmera e o microfone devem ser capazes de atravessar tanto o fogo como a água. O roteiro deve ser algo que tem o poder de fazer isso”, ensinava o velho mestre.

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Hoje

18h30 - “Rashomon” (88 min, 1950) - Antes da sessão, apresentação da mostra com Hernani Heffner, diretor de conservação da Cinemateca do MAM e membro da ACCRJ. Após a sessão, debate com os críticos de cinema Ana Rodrigues e Mario Abbade.

Amanhã

16h - Trono manchado de sangue (110 min, 1957)

17/10

18h30 - “A fortaleza escondida” (140 min, 1958)

18/10

18h30 - “Yojimbo – O guarda-costas” (110 min, 1961)

19/10

18h30 - “Sanjuro” (96 min, 1962)

20/10

16h - “Madadayo” (135 min, de 1993), seguido de debate com Jeremias Ferraz e Luiz Fernando Gallego, membros da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). O mediador do debate será Leonardo Luiz Ferreira, membro da ACCRJ.

21/10

16h - “Os sete samurais” (207 min, 1954)

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Serviço

O IMPERADOR E SEU LEGADO SAMURAI

Cinemateca do MAM (Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo; Tel.: 3883-5600)

De hoje a 20/10 – Seg, às 18h30; ter., às 16h; qua. a sex., às 18h30; sáb. e dom., às 16h.