Jornal do Brasil

Cultura

Urso de Ouro da ousadia sensorial

Em 'Não me toque', a diretora romena Adina Pintilie, faz psicanálise sobre o desejo, em festivais de Londres e de São Paulo

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

LONDRES - Diante de todas as galerias e museus espalhados por suas esquinas, Londres sempre foi uma parada obrigatória para a romena Adina Pintilie, curadora do Bucharest International Experimental Film Festival e estudiosa dos novos movimentos da arte contemporânea em videoinstalações e diálogos entre corpo e imagem. Mas, desta vez, seu nome ganha destaque na capital inglesa em outras latitudes audiovisuais: ela foi a ganhadora do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2018, com um filme misto de fato, fábula, sessão de terapia e videoarte, chamado “Não me toque”. Terça e quarta, o longa-metragem será projetado aqui, no BFI – London Film Festival, mas a claque da diretora e artista plástica chega antes: a protagonista, Laura Benson, que vive (ou é) uma cineasta com dificuldades de se deixar tocar é inglesa. No Brasil, o filme será visto a partir deste fim de semana, na 42ª Mostra de Cinema de São Paulo, onde, desde já, é uma das atrações mais esperadas.

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Laureado com o Urso de Ouro de Berlim, Não me toque, da cineasta e artista plástica romena Adina Pintilie (Foto: Divulgação)

“E pensar que tudo o que a gente queria com esta experiência cinematográfica cheia de camadas de percepção era abrir diálogos sobre o corpo, sobre a condição humana, sobre os tabus do desejo e da aceitação do que somos e de como estamos”, disse Adina ao JORNAL DO BRASIL na Berlinale, com o Urso de Ouro nas mãos, além do troféu de “melhor longa de estreia”: “Este é um projeto sobre interseções, de corpos e artes”.

Mais acostumada a pintores e escultores do que ao circo midiático da telona, Adina vive uma dupla relação de amor entre o cinema e as artes visuais há uma década, em que documenta manifestações artísticas em vídeos. Boa parte de seus últimos dez anos de trabalho foram gastos em “Touch me not”– título original de seu longa, que é parte ficção, parte documentário, parte expressão corporal, parte psicanálise. Laura é sua personagem central: seus dilemas pessoais convidam a uma investigação sobre os modos mais variados de se obter o prazer, seja na presença de michês, seja em papos com sexólogos ou terapeutas sexuais. Ela se apresenta em cena como cineasta, mas quem filma suas pesquisas de campo é a própria Adina, por trás das câmeras.

“Não fiz um processo comum de filmagem, e sim de vivência. Não existe roteiro neste filme, só anotações de ações e de troca, rascunhos de intenções e sentimentos. Nem houve uma escolha de elenco clássica: eu saí procurando quem quisesse compartilhar sua intimidade comigo e aceitei todo mundo que se mostrasse aberto para conversar. Estamos vivendo tempos em que lidar com o próximo, olhando o outro nos olhos, parece uma tarefa árdua, pela impaciência, pela intolerância. Por isso, eu busquei construir uma estrutura de linguagem que se parecesse com um espelho: quem fala pra minha câmera está falando de si para si mesmo”, disse Adina, que leva para o filme uma stripper trans já sexagenária e se aproxima de um jovem rapaz sem pelos.

“Tenho curiosidade pelas curiosidades dos outros. Respeitar as diferenças me livra da atitude quase inercial de rotular quem está do nosso lado. Cada cena de ‘Não me toque’ deve ser uma experiência sensorial. Uma troca, aberta inclusive ao incômodo”.

No sábado, o BFI – London Film Festival conferiu o todo poderoso “Roma”, que rendeu o Leão de Ouro ao mexicano Alfonso Cuarón (de “Gravidade”) e ainda pode fazer dele um ganhador de Oscars. Fotografado pelo próprio cineasta num preto e branco de um requinte plástico singular, este drama ambientado na terra natal do cineasta revive a atomização de uma família de classe média sob a ótica de uma babá ameríndia. Após a projeção, Cuarón deu uma palestra em Londres que mobilizou multidões para ouvi-lo falar de sua obra. “Este é um filme das minhas experiências com uma mulher que foi minha babá. Meu desafio foi manter o fluxo do tempo”, disse Cuarón.

Neste domingo, o BFI confere a produção brasileira “Morto não fala”, de Dennison Ramalho, um mestre nacional do terror. Na trama, Daniel de Oliveira conversa com almas penadas. Antes, a capital inglesa vai conferir o deboche do documentarista Michael Moore, o diretor de “Tiros em Columbine” (2002), contra Donald Trump e sua gestão na Casa Branca: “Fahrenheit 11/9”. O festival londrino termina no dia 21, com a projeção de “Stan & Ollie”, sobre O Gordo e O Magro.

O BFI trouxe ao público a melhor atuação da carreira de Antonio Banderas, que vive um produtor de azeite em “Life itself”. Dirigido por Dan Fogelman, criador da série “This is us”, este folhetim mostra os efeitos que o fim do casamento entre um roteirista (Oscar Isaacs) e uma pesquisadora de teoria dramática (Olivia Wilde) pode ter sobre diferentes pessoas – seja entre seus parentes, seja em desconhecidos. O personagem de Banderas é um desses afetados.

Outros destaques foram “The Broker”, em que a cineasta Azadi Moghadam desafia a censura do Irã em um documentário sobre uma agência de namoro em seu país; “El reino”, de Rodrigo Sorogoyen, em que Antonio de la Torre vive um político que decide devassar a corrupção entre seus pares; “Suburban birds”, drama que marca a estreia na direção do chinês Qiu Sheng; “Out of blue”, da britânica Carol Morley com Patricia Clarkson na pele de uma policial alcoólatra; e “The old man and the gun”, thriller sobre um ladrão de bancos grisalho, concebido para ser o canto de cisne de Robert Redford nas telas, dirigido por David Lowery e favorito ao prêmio de melhor filme.

*Roteirista e crítico de cinema



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