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Novo CD de Olivia Hime traz suítes de Edu, Dori e Francis

Jornal do Brasil AFFONSO NUNES, affonso.nunes@jb.com.br

Em seu romance “Viva o povo brasileiro”, o escritor João Ubaldo Ribeiro falava de um poleiro das almas onde as almazinhas jovens ficam juntas até a hora em que teriam de encarnar para aprender. No processo criativo de Olivia Hime existe um poleiro das canções. “Eu tenho um cantinho em que as ideias, as músicas, ficam por ali. Às vezes, tentam descer e sobem de novo”, conta a cantora e compositora que acaba de lançar “Espelho de Maria”, seu 13º álbum, no qual aprofunda um formato de suítes musicais anteriormente trabalhado em “Mar de algodão – As marinhas de Caymmi”, de (2002) e “Almamúsica”, de (2011).

Macaque in the trees
Olivia trabalha com conceito de unidade de arranjos (Foto: José Peres)

“Queria fazer um disco em que a pessoa não levasse sustos com a mudança de estilos musicais, um disco noturno. Numa noite havia chegado em casa, pus um disco para tocar e me sentei na varanda para contemplar o Dois Irmãos. Mas o álbum tinha saltos de ritmos: pulava de um choro para um samba-canção… Em seguida, um baião. Tive a percepção de que gostaria de chegar a uma fluência musical, algo que remetesse a um trabalho de Frank Sinatra de que gosto muito”, comenta, referindo-se ao LP “In the wee small hours”, de 1955, e que, segundo ela, também apreciado por Vinicius de Moraes.

Em “Espelho de Maria”, canções de Edu Lobo, Dori Caymmi e Francis são agrupadas em suítes que receberam envolventes arranjos, dando a elas um senso de unidade. E por que esses três em meio a tantos compositores? “Posso listar vários compositores que admiro, como Ary Barroso, Tom Jobim… Mas Edu, Dori e Francis são meus amigos, irmãos. Crescemos juntos, pessoal e musicalmente. Foi Edu que me mostrou as ‘Bachianas”, de Villa-Lobos, pela primeira vez”, revela, recordando-se do dia em que Edu a convenceu a comprar o disco numa loja próxima ao Cine Roxy. “Escutamos a tarde inteira”, conta, rindo.

Quando estava começando a tocar violão, por volta dos 17 anos, Olivia lembra das informações trocadas com Dori. “Uma vez o vi fazendo a inversão de um acorde que eu não sabia que poderia ser invertido numa sequência harmônica. Ficou tão bonito. Eu só conhecia os acordes básicos. Era um mundo que se abria”, explica.

E outro universo a ser desvendado pela jovem Olivia foi a da música erudita, junto a Francis Hime, com quem viria a se casar. “Muito antes de namorarmos, éramos amigos. E ele me apresentou Bartók, Tchaikovski. Até então, eu ouvia pouca música clássica”.

A adaptação das canções dos três amigos e sua adaptação para o formato de suítes foi um trabalho longo que fez Olivia quase abortar o projeto. “Entrelaçar as diferenças de tonalidades entre elas e chegar o tom da minha voz… a coisa ia a vinha. Não estava funcionando: quase desisti. Meses depois, o Francis pegou um papel e me fez umas perguntas sobre uma das músicas em que trabalhávamos. Pouco depois, estávamos retomando o trabalho. A canção desceu do poleiro”, diz a cantora que, mesmo sem tocar instrumentos na gravação do álbum, tem sólida formação musical: estudou música com o maestro Moacir Santos e Vilma Graça; violão com Roberto Menescal, e flauta durante seu exílio voluntário nos Estados Unidos, onde também fez curso por correspondência na Berklee College of Music, de Boston.

Mesmo o disco tendo arranjos de Francis, Dori, Paulo Aragão e Jaime Alem, a presença de Olivia na concepção do trabalho é visível (e audível). “Estava na hora de entender de onde eu venho, como me criei na música. Quis voltar à segunda geração da Bossa Nova, que era a minha. Há dois anos venho construindo a forma do “Espelho de Maria”, e tive a sorte de ter Francis ao meu lado, para traduzir musicalmente os caminhos que eu apontava. Pra mim, é na canção que a melodia, a harmonia e a poesia convivem com mais clareza e que penso poder dar a minhacontribuição”, enaltece a cantora, ela mesma uma Maria, Maria Olivia.

Macaque in the trees
"Espelho de Maria" (Foto: Divulgação)

Por conta disso, o álbum – dividido em três suítes ou movimentos: “Canções sem fim” (com músicas de Dori Caymmi e parceiros), “São bonitas as canções” (Edu Lobo e parceiros) e “Canções apaixonadas” (Francis Hime e parceiros) – é um manifesto em favor de um gênero que alguns consideram ameaçado de extinção. Para garantir uma interação entre os compositores, Olivia pediu a Francis que arranjasse a parte de Dori e vice-versa. “O Dori, com aquele jeito dele, me ligou logo que recebeu a primeira fita master dizendo: ‘Está tudo muitro bonito, mas avise ao Francis que a minha suíte ficou é a melhor’”, comenta.

Como Edu Lobo não conseguiu se ajustar ao cronograma das gravações, sua suíte recebeu arranjos de Paulo Aragão. Na formação para os shows de lançamento do CD, Olivia planeja reunir pelo menos Francis, ao piano; Dori, no violão; Hugo Pilger, no cello; Cristiano Alves, no clarinete; um quarteto de cordas e violinistas.



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