Jornal do Brasil

Cultura

Entrevista - Daniel Caetano: Areias (e ideias) escaldantes

Codiretor do cultuado Conceição, um dos mais explosivos pensadores do cinema nacional, volta às telas amanhã com Verão em Rildas, um filme de turma

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Há pelo menos duas décadas, a literatura cinéfila produzida no Brasil, sobretudo na internet, tem em Daniel Caetano uma referência de provocação – e de excelência. Professor do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Rio das Ostras, e organizador de livros seminais como “Cinema brasileiro 1995/2005 – Ensaios sobre uma década”, ele tem uma obra paralela como cineasta cuja poética se baseia numa trança entre memória, amizade e crônica de costumes, tendo o próprio audiovisual como foco. Realizador de “Coisas nossas” (2013) e “O velho e o novo” (2012) e codiretor do cult “Conceição – Autor bom é autor morto” (2007), Caetano volta às telas amanhã com longa-metragem inédito: “Verão em Rildas”.

Nessa experiência narrativa, um grupo de estudantes de Rio das Ostras resolve produzir coletivamente um festival de artes. Entre trabalho e festas, vivem as delícias e alguns dos dissabores da vida universitária numa cidade pequena. No entanto, a repercussão equivocada de um evento provoca polêmica nas mídias sociais e afeta diretamente as suas vidas.

Macaque in the trees
Em "Verão em Rildas", o cineasta retoma uma abordagem que lhe desperta interesse ao longo de sua filmografia, que vem a ser a memória (Foto: Divulgação)

Em sala de aula e nas redes sociais, o diretor é uma referência de lucidez para o debate da indústria da arte no Brasil. “Hoje, é mais fácil produzir e lançar filmes, discos ou livros, porém é cada vez mais difícil fazer eles serem vistos. As exceções são o funk e o hip hop, que, a seu modo, conseguiram se apropriar de alguns formatos de distribuição e repercussão. Mas, no cinema, a estrutura de distribuição de filmes sempre marginalizou a produção brasileira. Ainda assim, mesmo que distantes da plena repercussão social, eu vejo com bastante entusiasmo o surgimento desses novos polos de produção de filmes em outros estados. E sinto que aqui no Rio de Janeiro tem gente boa produzindo, mas a nossa cidade passa por uma crise de autoestima mais grave que o resto do país”, diz o cineasta, que avalia a realidade da criação artística em nossas telas na entrevista a seguir.

 

JORNAL DO BRASIL: A que temperatura ferve esse verão autoral do seu novo filme no que diz respeito à fricção entre fatos e ficções, episódios reais e memória?

Daniel Caetano: “Verão em Rildas” surgiu de uma vontade muito grande de falar de um certo universo e de uma baita coincidência. No caso, o enredo de um roteiro que eu passei anos tentando produzir aqui no Rio de Janeiro parecia acontecer na realidade de alguns estudantes que, estavam prestes a se formar. Minha história original falava do momento em que um grupo de amigos parecia estar prestes a se desfazer, às vésperas de um dos seus componentes sair do país para estudar - e o mesmo aconteceu com esse grupo de estudantes. Eu queria falar dessa geração que, a partir do Enem e da interiorização das universidades, passou a sair da casa dos pais e morar em repúblicas nas cidades pequenas para estudar. Veio deles mesmo a proposta de incluir no filme uma conversa sobre a polêmica da “Xerek Satânik”, que em 2014, a partir de uma performance da artista Raíssa Vitral, gerou um episódio que marcou eles profundamente.

Macaque in the trees
Daniel Caetano (Foto: Divulgação)

Sua militância em textos e em sala de aula é longa e muito respeitada, mas teu cinema parece bissexto, em volume de produção. Sua volta agora aos longas coroa uma trajetória de muita reflexão. Que situação o seu filme encontra, em relação à “saúde comercial” do nosso cinema, em sua estreia?

Na verdade, eu sempre tive projetos de filmes e ainda tenho muitos. O caso é que não é nada fácil superar a peneira dos júris de editais. Passei anos dedicado à produção de “Conceição - Autor bom é autor morto” e do documentário “O mundo de um filme” (ambos filmes dirigidos coletivamente: o primeiro com André Sampaio, Samantha Ribeiro, Cynthia Sims e Guilherme Sarmiento; o segundo, feito com Clara Linhart e Camila Maroja). Ao longo destes anos e dos seguintes, tentei conseguir financiamento para vários projetos e uma hora desconfiei que havia um consenso que me deixava do lado de fora desse funil. Depois de vinte anos me dedicando a fazer cinema, se eu ainda estivesse esperando ser premiado num edital para fazer um filme, até hoje não teria feito nenhum. Eu me dei conta disso em um momento de 2012, quando tinha acabado de finalizar um curta-metragem chamado “O velho e o novo”. De lá pra cá, foram dois longas e mais dois curtas, produzidos em seis anos de forma independente, na raça. Sobre o nosso cinema atual, continuamos na mesma situação que décadas atrás fez Humberto Mauro ironizar: temos muito talento, temos excelentes técnicos, temos belas paisagens e bons enredos; só o público é que é ruim.

Como seria essa situação de desconexão com o público?

Continuamos a fazer filmes que, em sua imensa maioria, não estão acessíveis à maior parte da população. Volta e meia surgem alguns filmes realmente fortes, mas ficamos isolados, uns mais e outros menos, sem muita capacidade de repercussão na sociedade. No momento, tornar possível que os filmes cheguem ao público e que nosso cinema de fato faça parte do cotidiano da nossa sociedade deveria ser uma obsessão de todos nós que gostamos disso.

Qual é o lugar da “memória” e qual é o lugar do “cinema de patota” na tua obra?

Acho que todos os meus filmes estão ligados ao tema da memória, sendo que a maior parte deles na relação entre memória e morte: o “Conceição”, o “Mundo de um filme”, o “O velho e o novo”, o “Coisas nossas”, o “Mater dolorosa”. Mas tanto o “Rio em chamas” quanto o “Verão em Rildas” têm um desejo de urgência que tira a morte de cena e trata da memória do que está acontecendo no próprio momento. Já uma ideia de cinema de patota ou de galera me é muito cara. Os três longas que fiz tratam em alguma medida dessa ideia de turminha e dos impasses dos projetos coletivos. São também filmes de conversa, que é outra tradição forte da nossa cinematografia.

Há uma sequência no filme em que uma personagem diz: “Isso aqui é muito lindo... mas você vai embora, né?”, num momento de desabafo, de ficção lírica. Qual é a medida de fato e de ficção na construção do teu roteiro?

Esse filme é movido por questões da realidade atual - a parte da ficção é basicamente um dispositivo, para usar um termo da moda, para acionar um método que me permitisse registrar a realidade daquele grupo de estudantes, aquele momento intenso e quente de suas vidas. Por isso, o interesse que o “Verão em Rildas” pode despertar não é o de artifícios narrativos engenhosos, mas o de mostrar com veracidade uma determinada situação que hoje muitas pessoas não conhecem, a dessas comunidades de jovens que se criam em torno de faculdades no interior do país.

*Roteirista e crítico de cinema

 



Recomendadas para você