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Cultura

ID Fashion aponta para 2020

Jornal do Brasil IESA RODRIGUES, Especial para o JB

Nestes tempos em que até Paris, a capital da moda, discute as formas de apresentar as coleções, a quarta edição do pequeno ID Fashion, que se realizou em Curitiba, encontrou uma fórmula promissora. A modéstia do tamanho, com apenas 19 participantes pode ter favorecido o sucesso dos dois dias de evento. Uma das razões, a preocupação com sustentabilidade sem comprometer a beleza dos produtos. Outra, as conversas e palestras simples e objetivas. E a terceira, para a qual pouca gente está atenta: o ano de 2020, tema da apresentação de Luiz Arruda, integrante do WGSN e dos comentários de Akihito Hira, designer com fundamentos do mundo digital, que chamou a atenção para a chegada do 5G.

Macaque in the trees
A angolana Soraya da Piedade, no final do desfile, destacou-se por combinar referências parisienses e africanas (Foto: Ines Rozario)

Destaques nos desfiles

Divididos entre selecionados pelo Sebrae/PR, novos talentos no Living Lab Store e marcas consagradas, os desfiles mostraram as ideias produzidas pelos polos paranaenses de Curitiba, Cianorte, Maringá, Apucarana e Francisco Beltrão. Mas o destaque nas passarelas foi a angolana Soraya da Piedade, que confecciona suas peças no Brasil e encantou pelo estilo combinando as formas da moda parisiense _ saias amplas, cinturas marcadas, tecidos como o pied-de-poule _ com estampas de máscaras africanas, sem parecer figurino ou traje típico. Outro destaque, a marca Leveza do Ser, assinada por Angelina Sanchez, com looks de malha confortáveis para o inverno de 2019. “Os tecidos são todos brasileiros, da RBB Malhas, de Blumenau, que desenvolveu desde os neoprenes até os tricôs”, comentou Angelina, que está prestes a entrar no varejo carioca. Já Elyane Fiuza se destacou pela qualidade das bolsas de couro. Apostou nas pochetes franjadas ou com aplicações metálicas e nos modelos atravessados, com alças largas. A Recco, potência no setor de lingerie, encerrou a agenda com desfile que foi das camisolas com rendas às ligas, em ambiente com gelo seco, músicas italianas e as modelos girando em pivôs, como nos anos 1960.

Macaque in the trees
Ronaldo Silvestre junto à coleção confeccionada em comunidades (Foto: Ines Rozario)

Sustentável e bonito

Este é um feito ainda pouco visto na moda. Até porque, como a comida orgânica, muitas vezes tem um valor alto. O ID Fashion contornou os custos, pelo menos na cenografia: a equipe do coletivo Tangerina, liderada por Ana Willerding, preencheu o pé direito de 12 metros do pavilhão da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), com cilindros gigantes que serviam de bocas de cena para a entrada das modelos: foram 1.200 metros de algodão alvejado da Paranatex, que serão doados a instituições. Nas paredes, estruturas de tábuas de madeira reaproveitada. “Não compramos nada novo, nem um pedaço de MDF”, contou Ana, que acrescentou ter feito uma espécie de contrapartida para o Mundo Híbrido, que era o tema geral do ID Fashion. “Temos 300 cadeiras Tiffany’s e algumas Ghost, todas de acrílico transparente, que fazem o contraste”.

Também interessante e surpreendente é a Transmuta, grife adepta do upcycling, capaz de transformar um casaco em mochila e uma poltrona inflável em parka.

Outro aspecto sustentável do ponto de vista social foi falado por Ronaldo Silvestre, estilista famoso pelo trabalho com jeans. No talk show com Daniela Nogueira e Akihito, Hira Ronaldo revelou o empenho de produzir as peças nos ateliês de comunidades e enfatizou, que paralelamente ao mundo digital que atua na moda, deve ser pensada a forma de descarte das máquinas de modelagem 4.0, que deixam margens largas de tecido, para segurança. “O ideal seria ter a indústria 4.0 aliada à sustentabilidade e o lado social” afirmou, com a adesão de Akihito Hira, designer que já apresentou moda masculina em Brasília, na Babilônia Feira Hype e em Medellin. Atualmente é professor no Senai Cetiqt, no Rio de Janeiro, e pretende reativar sua marca. Cris Guerra, autora do blog Hoje vou assim, fez relato emocionante e sincero de como a moda foi importante para superar crises de sua vida.

Macaque in the trees
A Recco revive a sensualidade das ligas de renda preta (Foto: Ines Rozario)

Fora da passarela

O ID Fashion abre espaço para marcas novas venderem seus produtos. Neste setor, destacou-se a Laas, de Fernanda Pimentel e Gabriel Borrelli, dupla que propõe a coleção Piece of Heaven, em tricolines, malhas de crepe e suede térmico, que se adapta a qualquer temperatura. “Pensamos nas cores do entardecer e no conforto de peças atemporais, em tamanhos honestos”, explicou Fernanda, bem-humorada ao se referir às modelagens realistas das roupas em tons claros. No mesmo salão, chamaram a atenção os óculos da Holls, feitos de madeira.

Logo na entrada, mesas de corte e máquinas de costura ativadas por equipes do Senai, prometiam confeccionar roupas de modelagem complicada em dois dias. Depois do último desfile, lá estava a exposição das obras prontas, como o final de uma história de moda, em todas as suas etapas.

 



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