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Bruce Gomlevksy estreia Memórias do esquecimento, com relatos sobre prisões e tortura durante a ditadura militar

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

O ator e diretor Bruce Gomlevksy estreia hoje, às 21h, o monólogo “Memórias do esquecimento” no Teatro Poeirinha, em Botafogo. Uma data, aliás, bastante adequada por estarmos a poucos dias das eleições, em meio a tantas divergências políticas e sociais profundas dentro da nossa sociedade. Isso porque o texto, adaptado do livro do jornalista Flavio Tavares, é um relato sobre prisões e a tortura que sofreu entre 1964 e 1969. “Conheci o Flavio ao ver uma entrevista dele na TV há uns dez anos e, em seguida, li seu livro. Fiquei muito impactado porque acho que seja um dos que tenham os primeiros relatos tão crus e detalhados sobre o que foi a tortura no Brasil”, conta Bruce.

O ator, que assina direção e cenário, diz que, na época, ficou com a ideia de adaptar o livro para o teatro - “O texto em primeira pessoa carregava um forte aspecto teatral”, ressalta.

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Bruce revela que sofreu forte impacto ao ler a biografia do jornalista Flávio Tavares (Foto: Dalton Valério/Divulgação)

Agora, com os dez anos da sua Cia Teatro Esplendor e 25 de carreira, o momento de encenar finalmente chegou. “Um ano sem dinheiro para a cultura, com tanta gente defendendo a volta da ditadura e com um candidato exaltando torturadores, vi que era a hora. Procurei o Flavio no início do ano e ele aprovou o projeto. É um texto contundente, que permite uma encenação sem truques e com foco na palavra. E uma montagem simples, adequada aos tempos de vacas magras”, conta.

Bruce assina a adaptação do texto ao lado de Daniela Pereira de Carvalho, parceira de longa data - inclusive em “Renato Russo, o musical” , há 12 anos em cartaz. “Não mudamos as palavras do Flavio, foi uma adaptação para enxugar o texto e caber em 1h30 de espetáculo - o livro tem mais de 400 páginas. Tentamos trazer as questões mais emblemáticas para a dramaturgia, construindo um caleidoscópio de momentos mais universais”, explica.

Com um tema atemporal por falar de crimes contra a humanidade, o livro “Memórias do esquecimento” ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura no ano de 2000. São relatos sobre as três prisões e as torturas sofridas por Flavio entre 1964 e 1969 e o exílio no México. Já morando na Argentina em 1977, ele viajou ao Uruguai para ajudar um correspondente do jornal em que trabalhava e acabou sendo sequestrado, torturado e ficou desaparecido por quase um mês. Depois, passou mais seis meses em uma das prisões da repressão uruguaia. “Ele ficou 26 dias de olhos vendados. Houve, inclusive, uma mobilização internacional por sua libertação, envolvendo o presidente Carter e o papa. Até o general Geisel intercedeu”, conta Bruce sobre um dos momentos que considera mais dolorosos do texto. “É um relato muito denso e mostrar isso no palco me consome demais, mas eu encaro como um dever. Tomei isso como necessário diante da situação em que vivemos”, afirma.

“Este livro foi minha catarse e minha libertação. Com ele, ao revelar o que sentia na alma, morreu a visão de morte que sentia na alma e me senti livre do ódio que me igualava ao torturador. Agora, Bruce assume a tarefa e responsabilidade de transmitir tudo isto ao espectador, como se o teatro grego renascesse para, no século 21, narrar o tresloucado século XX e seus horrores”, diz o autor Flavio Tavares.

Sobre a estreia bem próxima das eleições, Bruce diz que não foi proposital pois ‘Um Tartufo’, espetáculo com sua direção e que marca os dez anos da Esplendor que está em cartaz às 21h no mesmo espaço, acabou tomando muito seu tempo. “A gente tinha pauta para setembro ou outubro no Poeirinha, só que Tartufo - que considero meu melhor trabalho como diretor até hoje -, me exigiu mais do que o previsto e por isso tive que adiar o ‘Memórias’ por três semanas. Por isso não foi premeditado, mas eu achei ótimo!”, comemora ele que, em novembro, parte para uma turnê pelo Sul do país com seu “Renato Russo, o musical”. “Em dezembro, levo a algumas cidades do Nordeste e, em janeiro, começo a filmar ‘Polícia federal 2’”, completa.

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SERVIÇO

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO - Texto de Flávio Tavares. Adaptação de Daniela Pereira de Carvalho e Bruce Gomlevsky. Direção e Interpretação de Bruce Gomlevsky. Teatro Poeirinha (R. São João Batista, 104 - Botafogo; Tel.: 2537-8053). Ter. a sáb., às 19h (3 a 14/10). Ter. a qui. e dom., às 19h. Sex. e sáb., às 21h (16 a 28/10). R$ 50 e R$ 60 (sex. a dom.).



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